Manoel Marques  da  Silva Filho

Mulher feia e cachorro,

Comigo é na pedrada.

(Frase de pára-choque de caminhão)

 

Aos 22 anos, em uma das excursões do seu time de futebol pelo interior, foi que Samuel conheceu Jandira, que depois seria sua mulher.

Jandira era daquele tipo de mulher que se costuma chamar de Raimunda. Tinha um bumbum de dar inveja.

Mulata de boa altura, cara arredondada com bochechas salientes, nariz mal distribuído no rosto e o pescoço um pouco diminuído. Mas tinha uma cintura bem delineada e o bumbum daqueles de mulata formosa de escola de samba. E Samuel era louquinho pelo patrimônio traseiro da mulher.

Samuel era nesse tempo estudante do curso de Direito. E apaixonado pela namorada.

Todo fim de semana despedia-se dos antigos amigos do time de futebol e ia visitá-la na fazenda no pequeno município do interior que era pertinho de Natal.

Com a freqüência das visitas, onde permanecia aos sábados e domingos, em pouco tempo ficou íntimo dos futuros sogros e entusiasmou-se pelas coisas do campo: pelo gado (bebia leite no curral bem cedinho), pelas plantações, quando passou a compreender como é difícil a vida de agricultor, mas como também é gratificante ver brotar e crescer as fruteiras e as outras plantações.

Formou-se em Direito sem participar da festa de colação de grau. Não foi possível comprar o anel de formatura e mesmo sendo o pai alfaiate não conseguiu obter um terno, pois o momento de liseu do genitor estava bastante acentuado.

Comemorou ao lado de dois velhos amigos em um bar da periferia, onde se fez discursos e houve choros no apogeu da embriaguês.

Associou-se em uma banca de advogado com dois colegas de turma e pela experiência forjada no carbureto das dificuldades ele logo prosperou, criando um nome de referência na cidade.

E tanto foi a sua credibilidade no direito, que pouco tempo depois foi convidado para dirigir uma repartição pública importante.

E nesse momento pensou em constituir família, casando-se com Jandira.

Nos vários anos de casados não puderam ter filhos, coisa que muito desejou. E o pior: a sua popozuda Jandira foi ficando exageradamente gorda. Além disso, começou a tomar comportamento de mulher briguenta e adepta de todas as fofocas das vizinhanças.

Quando viu a mulher ficar assim tão gorda, lembrou-se de um velho amigo da mocidade, que nas bebedeiras de fim de semana sempre repetia uma recomendação que os faziam rir, mas que nunca levou em consideração:

- Quando você for inventar de casar, nunca case com mulher boa, porque mulher do tipo boazuda, quando casa fica gorda. Case com mulher magra, que mulher magra quando casa fica boa.

E com essa lembrança, lamentou que Jandira tivesse ficado naquele estado de gorda indecente, como o amigo advertira tanto, com o lindo ex-bumbum maravilhoso emendado na largura das costas avantajadas, fora a proeminência da barriga dependurada e mole.

Além da feiúra conquistada pela mulher ela se tornou ciumenta extremada e por cima mandona e exigente. E Samuel, submisso, foi deixando a vida correr, sem reagir, acomodado ao lar, pelo qual sonham principalmente aqueles que no passado tiveram vida dura.

Foi crescendo e crescendo profissionalmente e assumiu um cargo ainda mais importante no governo e foi aí que Jandira passou a mandar também na sua rotina de trabalho, como primeira dama inconseqüente.

Primeiro indicou uma amiga para ser a sua secretária, e através dela passou a vigiá-lo.

Um simples olhar para qualquer mulher, nem pensar, estava na boca de Jandira. Ademais, Maria Alice, a secretária, não tinha a docilidade cobrada para o exercício do cargo, deselegante, de trato insatisfatório para com os que procuravam a repartição.

Samuel pensou em substituí-la, mas a mulher interveio:

- Ora, você pensa em demiti-la somente para ficar como quer, sem ter quem observe as suas tramenhas! Nada disso!

E Maria Alice continuou como quis, e ainda de quebra passou a almoçar todo domingo na casa do chefe, a convite da sua mulher aliada, como amiga de confiança.

Um dia, no entanto, Maria Alice arranjou uma empregada para Jandira, que começou a trabalhar em um desses domingos em que a secretaria almoçava com a amiga primeira dama.

A empregada, que tinha fama de boa cozinheira, fez um almoço elogiável.

E como era linda a empregada Sofia. Corpo de violão perfeito, com o andar cheio de sonoridade.

Morena de olhos nem verdes ou azuis, mas da coloração de um amarelo brilhante, da cor do paraíso. Era cativante, de sorriso doce, sempre doce…

À noite, ouviu algumas das corriqueiras reprimendas que Jandira fez a Samuel e passou a ter imensa compaixão por aquele marido reprimido, que nunca se defendia daquelas coisas que a mulher dizia sem sentido.

Brigava por nada, só por uma espécie de vício de brigar.

E a partir da compaixão pelo homem que entendeu ser bom e sofrido, passou a criar por ele grande afeto e a descer sempre profundo olhar quando o via. E notava o quanto ficava perturbado, mas impassível.

Samuel era homem de coerência no casamento, despido de qualquer idéia de infidelidade, mesmo que sequer dormisse mais com a mulher desde que ela inventou de criar um gato angorá, imenso, muito gordo e peludo, e que fez questão que ele dormisse sempre ao seu lado na cama.

O marido iniciou um protesto e ela o repreendeu dizendo que se ele não quisesse ficar do outro lado do gato, na cama, que procurasse outro canto.

- Que é isso? Tenha sentimento com o pobre e indefeso animalzinho!

E há coisa de um ano que o marido dormia em uma rede armada ao centro do quarto, onde ao lado a mulher se deleitava na cama com o gatão de pelo almofadado, que quando avistava Samuel abria a sua boca aveludada e dava um miado enjoado para ele.

E sexo? Há muito tempo estava escasso, quer pelo desinteresse da mulher, quer pela condição de ter-se tornado pouco atraente, pela exacerbada gordura, coisa que diminuiu o apetite do marido bondoso.

E depois do antipático gato angorá invadir o quarto, acabou-se totalmente o aconchego do casal, que entre os dois tinha agora o animal manhoso e grande como anteparo permanente.

Por esses motivos, Samuel foi interiorizando, sem se dar conta de si, o olhar meigo de Sofia. Ela, ao mesmo tempo, sempre o enchia de mimos nos cuidados para com ele, pela maneira de atendê-lo e servi-lo nas mais variadas situações, de dar opiniões sobre as coisas mais banais quando ele requisitava, com reconhecida prudência e sensatez.

E cozinhava manjares de sabores nunca vistos, parecendo adivinhar sua predileção pelos alimentos.

Um dia Jandira arranjou uma aula de Inglês, para matar o tempo, como explicou.

E ainda mais, como vivemos em um país no qual as pessoas podem errar qualquer coisa na língua Portuguesa e não podem errar em Inglês, ela procurou ficar supimpa na língua.

Se errar em qualquer tempo na língua saxônia, mesmo em um termo banal desses de linguagem de computador, o sujeito está definitivamente ferrado. A mulher decidiu então falar um Inglês de não fazer vergonha, apesar de ser bastante ignorante na velha língua da região do Lácio e dessa forma passava as manhãs fora de casa.

E Samuel, que sofrera profundo remorso pela idéia de se insinuar em um pensamento que desviasse a sua índole de marido fiel, foi sendo absorvido por aquele pensar de contemplação ao corpo lindo de Sofia.

E se detinha em pensamento constante nos seus olhos de um amarelo de brilho do céu, no arrebol. Lembrava-se repetidamente que o céu só era amarelo no por do sol mais radiante, quando somente assim se tornava comparável ao seu olhar de meiguice. Assim devaneava, mentalizando incessantemente o seu divino corpo, todinho, mergulhando nos olhos da empregada linda como se mergulha na essência maior do que ele ainda não havia entendido como da mais sublime coisa existente ou não existente na vida.

E certa manhã, sabendo da ausência da mulher em casa, agora estudante de Inglês, para lá se dirigiu em surdina, dizendo à Secretaria delatora que ia falar com uma autoridade do Estado.

Saiu com o pensamento fixo em Sofia, visualizando o seu olhar cada vez mais doce e insistente.

Entrou em casa e sem se conter nem dizer qualquer palavra abraçou Sofia como nunca fez com ninguém na vida, e dela recebeu um afago delicioso, de alegria e sem surpresa, em um momento onde ele se distanciou de tanta rispidez do mundo.

E viveu o sonho daquela paixão durante o decorrer de quase um mês, sempre dissimulando o seu expediente no trabalho, para voltar para o que agora entendia como verdadeiro lar de aconchego.

Mas não sabia que a sua ausência constante não ficara despercebida pela secretária espiã, que passou a desconfiar e um dia o seguiu para verificar que ele se dirigia para a própria casa.

A mulher, então informada, não teve qualquer dúvida sobre o marido traidor, pois já visualizara os olhares de Sofia e a forma como ela contemplava o marido em um trato mais do que delicado.

E assim preparou-se para o flagrante.

Ele iria se arrepender de ter nascido. E a megera da empregada nunca mais seria gente, pois além de despedi-la iria procurar uma forma de vingança posterior da qual ela jamais esqueceria.

E em plena segunda-feira, dez da manhã, em meio aos abraços e afagos do patrão com a empregada, a mulher chegou de repente, entrando como era de sua índole, de mansinho, ponta dos pés.

Armou barraco colossal, gritou com Samuel proferindo todos os palavrões que possam existir no mundo. E, encarando Sofia com o dedo em riste a chamou de puta, quenga, de tudo…

E deu o ultimato ao marido criminoso:

- Daqui a dez minutos ou eu ou essa sirigaita aqui fora de casa.

E Samuel, rememorando a sua vida sofrida, foi encarando com extremada paciência o momento tenso.

Primeiro, tinhoso, pegou o telefone, ligou para a repartição e gritou para a secretária espiã:

- VOCÊ ESTÁ DEMITIIIIIIIDA!

Depois, de forma calma, encarou a mulher com a frieza de assassino cruel, e ao ouvi-la repetir com insistência a sentença, de que ou ele demitia a empregada em dez minutos ou escolhesse uma das duas, pegou pela palavra e demitiu-a, não a empregada, mas a mulher.

Botou a mulher prá fora e ficou com a sua doce e linda empregada.