Francisco Alves da Costa Sobrinho

Era uma ave formosa, peito estufado, penas coloridas, crista alta, pernas e coxas firmes, peitoral carnudo e macio, todo fornido! Fora concebida para chamar a atenção de quantos olhassem e era o orgulho do lugar.

Nascido em galinheiro esplêndido, sob a proteção de viúva poderosa, em terreiro formoso e humoso, foi criado para agradar e encher de alegria aos convivas afortunados que a ele tinham livre acesso e dele recebiam os afagos e cantares diurnos ou madrugadores.

Não era um bicho como qualquer outro, não! Tratava-se de um animal de estimação. E ai de quem não o estimasse! Assim, o tempo foi passando e o bicho foi engrossando o pescoço, levantando a cabeça, fazendo distinção pra quem olhava e cantando para os mesmos ouvintes da fazenda iluminada, cujos capatazes e mestres e contramestres vez por outra eram substituídos ou eliminados, ao bel prazer da viúva cheia de caprichos.

O esplendido animal era um Galo ornamental, andante e cantante, agora preparado para ser visto e aplaudido nas feiras, repartições e palanques, subordinando galos de outras raças e frangos menores e fazendo galinhas cacarejarem de tanta emoção, provocando até paixões incontroláveis, dizem.

Mas a vida, mesmo a de um galo tão aparentemente estimado e admirado, as vezes prepara surpresas, como a que aconteceu, sem que até hoje ninguém entendesse bem o traçado do destino: correu na fazenda um boato dando conta de um Preá predador que comia galo com penas e tudo, sem pena de nada. E o tal boato foi tomando ares de veracidade, descendo e subindo serras ao toque das violas e sanfonas em dias e noites de fanfarras e discursos flambados.

Até que um dia – triste dia! – noticia-se que o belo galináceo havia sido abatido, sem dó nem piedade, para servir de pasto e repasto ao abusado Preá de pernas tortas e que o mesmo Preá exigia a cabeça do Galo pra curar-se de uma ressaca… pois logo depois iria à serra e serviria o peito do Galo em festival gastronômico.

- E não é que era verdade!