Conto de Paulo Jorge Dumaresk

Dia desse desenxabido resolvi seguir o conselho de uma amiga e não hesitei em provar um combinado que ela disse tratar-se de uma mistura de Fluoxetina e Absinto. Do Absinto, amigo e inseparável, sabia das propriedades e do sabor. Da Fluoxetina, nonada. “São” Google resolveu a questão. Agora, sei que o medicamento de nome esquisito é um ansiolítico e antidepressivo, comercializado durante anos com o nome de Prozac. Blá-blá-blá.

Tomei o combinado e chamei o elevador. No andar inferior, entrou um casal com uma criança… sem olhos. Até aqui, tudo normal, pois eu não mais distinguia a realidade da fantasia e o real do imaginário. Achei muito criativo quando a criança enfiou dois lápis coloridos nos orifícios oculares, o que me levou a crer que estava diante de Dona Baratinha.

 

Elevador no térreo, cumprimentei a família e saí do prédio sem rumo para flanar. O lance maior era curtir o barato. Logo, começaram a passar por mim pessoas normais, como o homem com duas cabeças, a mulher serpente, um cachorro que voava e formigas gigantes que devoravam pés inteiros de centenários Ficus benjamina. Bacana era ver a Medusa e a Hidra de Lerna fazendo palavras cruzadas no pino do meio-dia, na Avenida Central. Encantou-me o esoterismo dos dois seres mitológicos e o inusitado da situação.

 

Ao caminhar ao longo da extensa Avenida vi uma galé com suas dezenas de remos de centopeia navegando próximo a mim num mar plúmbeo sem as brancas ondas. Sorri e respondi ao aceno dos políticos que mesmo presos aos grilhões fingiam felicidade. Chegando à esquina, deparei-me com uma bela mulher… sem cabeça. Fiquei estupefato com o charme, desenvoltura e elegância daquele colosso feminino. Hum, pensei comigo, quem sabe não é chegada a hora de retomar as atividades romântico-amorosas.

 

Investi meu latim num xaveco até, certo ponto, decente, e consegui levar a mulher misteriosa para o matadouro público. Lá não havia sangue, nem fezes de animais abatidos. Era tudo muito limpo, asséptico e, diria, assustador. Comecei a envolver-me com a bela dona sem cabeça, quando senti a deusa cravar os dentes no meu pescoço. Sim, eu havia conquistado uma vampira. A dor foi intensa, a ponto d’eu sair correndo daquele lugar sombrio, decepcionado com o desfecho da minha conquista amorosa.

 

Abatido, continuei meu périplo pelas ruas da cidade movido a Fluoxetina com Absinto. Nunca mais consegui discernir realidade de fantasia, real do imaginário. Viajar é preciso, e foi nisso que passei a acreditar quando tomei o combinado. O mundo era meu e isso ninguém podia me negar ou tirar. Nem me mandando para a galé.