Adaptação:  Selma Revorêdo,
Conto: Da Janela – Bartolomeu Correia de Melo

PEÇA TEATRAL

PERSONAGENS : As irmãs Salete e Dorinha; cinquentonas, vestidas,
penteadas  e maquiadas com certo exagero, como nos anos quarenta ou
cinqüenta. Salete magra e Dorinha gordinha.

- ATO ÚNICO -

CENÁRIO :  Painel pintado, tomando toda a boca de cena. Mostra a
parte superior da fachada de um sobrado antigo, mal conservado,
sugerindo ser o primeiro ou segundo andar. Cinco largas janelas
frontais, estando aberta apenas a do meio, onde ocorre toda ação. (No
painel, abaixo das janelas, mostram-se  somente as partes superiores
das portas e janelas do andar inferior)  Deve-se dar a impressão de
que todo movimento na rua  é visível apenas por quem está na janela,
mas não por quem está na platéia.  Um conjunto de auto-falantes deve
ser instalado ao pé do palco, onde se admite que esteja na altura da
rua. Nos bastidores, um personagem invisível, representando o padre,
atua com um microfone, como locutor do carro-de-som, puxando rezas e
vivas.  Uma gravação da reza de um terço, com hino sacro por banda de
música ao fundo, será o cenário sonoro de todo o diálogo das
personagens. Aqui-acolá, papocos de fogos. O gradual aumento de volume
das rezas e hino gravados, assim como dos fogos e das falas do
locutor,  devem dar impressão de aproximação. Uma dúzia de vozes (a
maioria femininas) nos bastidores (ou na primeira fila), atua como
coro auxiliar, para puxar palmas e vivas da platéia a Nossa  Senhora
das Dores.

ABRE-SE O PANO

A procissão se aproxima (efeito sonoro) enquanto Salete já está à
janela e Dorinha ainda está se arrumando, na parte não visível, mais
adentro do quarto da janela.

SALETE ( na janela, excitada) ? Chega mulher! Mazinho já dobrou a
esquina, com a cruz-do?divino! ? ( e impiedosa) – espia, vem todo
espigado, o semostrador, mesmo terninho curto todo ano . Enjoei desse
fresco besta, mais parece um porta – estandarte!…

DORINHA (lá de dentro, avexada) ? Peraí, estou indo; não acho meu
trancelim. Ah, taqui! –  (depois de breve pausa, aperreada) – Quede a
loção?

SALETE (voltando-se pra trás, impaciente) ? Tanto que te arrumas, só
pra sair na janela? Avia, lerdeza!

DORINHA ? (ainda lá de dentro, mandona) Vê se me ajuda nesse colchete.
?  ( e preocupada) – Será que engordei?

SALETE (sai da janela e solidária) ? Viche menina, estás mascarada!
Deixa tirar…

DORINHA (cheia de si) ? Este pó-de-arroz é mais barato. E rende bem mais!

SALETE (nostálgica) – Quando papai era vivo, ninguém fazia nem conta
dos preços do que vinha de Paris…

DORINHA (melancólica) –  Pois é… Velhos tempos, belos dias…

PROCISSÃO (coro na platéia ou bastidores, ao vivo ou gravado)  -
?Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores…?

SALETE (voltando à janela e falando pra dentro) ? Escutas a voz de
Zabé Capela no meio do mundo?

DORINHA (chegando à janela, apurando o ouvido) ? Respostando a oração
arriba da multidão. Mas não é? ? (e divertida) – Eita magrela
gasguita! Fhum!  (riso nasal).

SALETE (chistosa) ? Indo pro céu, vai deixar Jesus mouquinho!

PROCISSÃO ? ?Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores…?

DORINHA ( de mãos postas, emocionada) ? Ah! os anjinhos, mulher que lindeza!

SALETE (saudosa) ? Lembras do nosso tempo de anjo? Eram asas mais bem
acabadas, feitas com penas de ganso – (faz cara de nojo)  - Hoje é
tudo de plástico, coisa horrorosa!

DORINHA (apontando para a rua) ? A mais bonita é Tininha, não é? ? (
e quase infantil) Lá vem puxando a fila! Pois que bem puxou a benção
das tias dela. Fhum!

SALETE (apontando com o lábio inferior, despeitada) ? Espia praquela
maiorzinha, até passou da idade de anjo.

DORINHA ? Virando capetinha… – (risinho nervoso) ? Repara, os
peitinhos já brotando!

PROCISSÃO ? ?Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores…?

SALETE (com desprezo) – Eita! João da Loja vem melado; tombando fora
da fila. Bêbado indecente, finda tangido da igreja, feito cachorro!

DORINHA  (com deboche) ? Triste devoto de Nossa Senhora das Garrafas! Fhum.

SALETE  (olhando gaiata para Dorinha) – Será por chifre de noiva?
Levado faz é tempo…

DORINHA (meio embaraçada) ? Rhum! Não sinto remorsos! Bem que foi
merecido… ? ( e vingativa) – Todo castigo prum borra-botas ainda é
pouco!

PROCISSÃO ? ?Santa Maria mãe de Deus, rogai por nós pecadores…?

SALETE  ( apontando ) ? Quem é aquela de fita azul, atrás de Ceição Batata?

DORINHA (buscando o apontado) ? Ah, Maria Rita de Neco Souza. ? (e
curiosa) – Porque indaga?

SALETE  (maldosamente) – Repara bem pra barriga… Aposto que buliram com ela.

DORINHA (espantada) ? Viche, coitada, quanta vergonha! – (e venenosa)
- E inda é Filha-de-Maria, a sonsinha!…

PROCISSÃO ? ?Santa Maria mãe de Deus, rogai por nós pecadores…?

SALETE  ( apiedada) ? Dona Coló, tadinha, mesmo caduca, não perde
função nem obrigação e largam a pobre velha sozinha, variando no meio
do povaréu…

DORINHA  ( intrigante) ? Diz que a briga pela herança já começou, ela
inda viva, com tamanha carolice, capaz de deixar tudim pra Santa.

SALETE  (debochada) ? Ah, magino a cara chocha dos parasitas!

DORINHA (escrachada) ? Fhum! Vai ser bom demais pra gargalhar, hein?!

PROCISSÃO ? ?Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores…?

SALETE (intolerante) ? Quem disse que Paulim Meia-Garrafa agüenta
carregar andor? Daquele tamanhico, só atrapalha os outros!

DORINHA (divertida) ? Espia; chega vai esquiado, na pontinha dos pés!
- (e hipócrita)  - Finda derrubando a Santa, que Deus me perdoe!

SALETE (revoltada) ? Cadê o sacristão, que não ajeita isso?

DORINHA  (safada) ? Fhum! Lá na torre, tocando no sino e nos meninos…

PROCISSÃO ? ?Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores…?

SALETE  (excitada) – Ai, Dorinha, me arrupio todinha, quando avisto
essa pessoa!

DORINHA (alertada) ? Onde, onde? ? (maldosa) Ah, já enxerguei, na
banda-de-música, hein?

SALETE  (emotiva) ? Tocando bombardão…  ? ( e entusiasmada) – Que
fôlego, que bochechas!

DORINHA  (reticente) ? Fhum! Parece que melhor tocava os taróis de
alguém que conheço…

DORINHA  (dengosa) ? Ah, nem me fales… Se não olhar pra mim, hoje não durmo!

SALETE (repreensiva) ? Sossega o facho mulher, faz trinta anos!

DORINHA (esperançosa) ? Mas quando ele enviuvar, casa comigo; assim o
caboclo Caçador prometeu Mãe Jupira…

PROCISSÃO ? ?Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores…?

SALETE ( divertida) ? Vigia ali, a presepada que vem vindo!

DORINHA ( fingindo espanto) ? Tibes, Seu Agenor de novo amor! ? (e
debochada) – Ha-hai!… Uma criança!

SALETE ( sarcástica) ? Bonitinha a forasteira. Mais parece bisneta
desse ridículo.

DORINHA ( agressiva) ? Ah, cabrita entojada! Ventinha pra riba, que
nem procurando catinga e ele todo ancho mostrando a quenguinha.

SALETE  (judiciosa) ? Ora, que mostre! Que outro uso daria pra
dita-cuja? – (e chisteando) -Nem a poder de catuaba! Mata o velho! Fhum!

PROCISSÃO ? ?Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores…?

DORINHA (elogiosa) ? E as irmãs Vasconcelos sempre estreando roupas
novas… ? (e venenosa) – Não as entendo… Como se arrumam, assim
falidas? Coitadas.

SALETE (sentenciosa) ? A decadência guarda mistérios, comem nobreza e
educação. Fhum! – (e intrigante) – Falam de encontros marcados nas
altas horas…

DORINHA (intolerante) ? Com tais feiúras, não acredito! Haja língua ruim!

SALETE (gaiata) ? He, He! Eu aumento, mas não invento.

PROCISSÃO ? ?Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores…?

DORINHA (divertida) ? Olha, Zazá mais o trouxa dela!… Não tira o
olho dos rapagões. ? (segredosa) – Diz-se que o de agora é Biuzim de
Creuza.

SALETE (incrédula) ? Mesmo? Aquele frangote botador d´água? Não
brinques!… ? (e sonhadora) – Bem reparando, ficou troncudo, bom de
abraçar…

DORINHA  (repreensiva) ? Mulher, te comporta!

PROCISSÃO ? ?Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores…?

SALETE  (apreensiva) ? Vigia só, o infeliz do Zé Gavião! Deus nos livre!

DORINHA (inconformada) ? Solto de novo? Ah, desgraçado! Capaz de bater
a carteira do padre!…

SALETE (medrosa) ? Hi, olhou pra gente, disfarça!…

DORINHA (confidenciosa) ? Diz-que, alem de ladrão, é tarado.

SALETE (incrédula) ? Oxente! Larga de léria!

DORINHA (provocante) ? Foi pego brechando Janilza de Filó no banho.

SALETE (libidinosa) ? Fhum!… Até que nem tão malencarado como pintam…

PROCISSÃO ? ?Santa Maria mãe de Deus rogai por nós pecadores…?

DORINHA (apiedada) – Cada dia mais magrinho, Padre Afonso…

SALETE (solidária) ? Falam naquela doença, tadinho.

DORINHA (preocupada) – Doença-do-mundo?

SALETE (displicente) ? Não, maldosa, doença do peito!

DORINHA (nervosa) – Votes, isso pega?

SALETE (desentendida) ? E porque pergunta?

DORINHA (disfarçada) ? Nadinha, nadinha não…

PROCISSÃO ? ?Santa Maria mãe de Deus, rogai por nós pecadores…?

A procissão, por efeito sonoro, para em frente à janela. Tudo
silencia: a banda, os fogos, as rezas…  Ouve-se apenas o carro-de-som.

PADRE (com voz empostada) ? Esta estação simboliza o quinto punhal
cravado no coração de Maria. Rogamos a Deus pelos dessa casa, a
família do saudoso Coronel Cosme Caiana.

A banda inicia a execução de um hino sacro. Fogos e aplausos.

PADRE (gritando alegre) ? Viva Nossa Senhora das Dores!

PROCISSÃO E PLATÉIA (com entusiasmo) – Vivaaa!

Da janela, dignas como a santa as irmãs sorriem, acenam e agradecem.

CAI O PANO.

SELMA REVORÊDO
NATAL, 2010.