Manoel Marques Filho

(…) Cortando a carne em flor das crianças mortas,

monstruosíssimas mãos,

que apalpam e olham com lascívia e gozo

A pureza dos corpos infantis.

(Augusto dos Anjos)

 

 

 

Luisinho conseguira em pouco mais de três anos consolidar a sua moderna indústria de móveis.

Dava gosto ver a perfeição das peças, os seus contornos e desenhos dignos dos melhores arquitetos, dos maiores gênios do bom gosto.

De um pequenino galpão coberto com telhas de amianto, fizera uma construção aconchegante. À frente posicionara uma loja de pequeno porte, mas de acabamento refinado, composto de piso requintado e vidraçarias de fina feitura. Na parte de trás ficava a oficina repleta de máquinas modernas.

Os móveis iam surgindo das pranchas de madeira bruta até aos acabamentos impecáveis, para depois serem comercializados na loja da própria indústria e também adquiridos por grandes lojas das cidades mais próximas às mais distantes.

Com o progresso da sua indústria, contratara pessoas experientes no fabrico de móveis e buscara aperfeiçoamento próprio em centros maiores e até mesmo buscara a supervisão de um arquiteto especializado em movelaria, a quem remunerava sem resmungo.

Mas, com todo aquele sucesso, Luisinho era homem muito triste, macambúzio…

Sentado em elegante poltrona no seu escritório, pôs-se a meditar sobre a sua vida de nada, de dissabor, como industrial vitorioso que labutava em trabalho insosso, para ele sem qualquer atrativo.

Lembrou-se que virou industrial de móveis por imposição de um destino que por ele não teve nenhuma compaixão, levando-o para aquela vida tão detestada.

O que gostava mesmo de fazer era caixão de anjo.

Isso ele sabia fazer com gosto, se sentindo artista requintado quando criava formas e pinturas, moldando os pequeninos caixões.

Os de meninos defuntinhos ele os fazia pintados de azul, de uma cor azul brilhante. Brilhante da própria tinta de brilho ofuscante e da areia brilhante, que sabia dosar nos cantos certos do móvel que serviria de abrigo aos corpinhos delicados que a vida deixou de animar tão precocemente, apagando os sorrisos e os gracejos das inocentes brincadeiras de infância.

Os caixões das meninas eram feitos da cor de rosa, também de tonalidade ofuscante, combinando com a delicadeza daquelas que se finavam, encerrando os seus sonhos e esperanças das futuras mulheres, que decerto seriam depois daquela infância triste de menininhas pobres.

Pobres e infelizes, pois os que morriam naquela cidade, assim na infância, eram sempre pobres, e na visão de Luisinho, pobres e também infelizes.

Os caixões dos meninos eram adornados com desenhos de bichinhos, de estrelas, carrinhos e aviões. Aviões que se embrenhavam em nuvens cheias de anjinhos munidos de trombetas cor de ouro e de asinhas alvas e suaves. No fundo, um arremedo da sistina de Miguel Ângelo, com um Deus piedoso e de olhar severo apontando o universo infinito.

A condição de severo, segundo dizia o artista de caixões, era Deus fazendo uma repreensão aos homens desalmados que permitiram a morte breve daquele ser tão pequenino que seria deitado sem vida naquele caixão.

Os caixões das meninas eram enfeitados de borboletas, que afirmava representarem o rompimento do casulo triste de uma lagartinha miserável e faminta, para se jogar ao espaço brilhante feita borboleta feliz, saltitando em uma eterna primavera, em um campo suave, repleto de flores e de animais das florestas do céu.

A pintura de fundo era sempre de cor de rosa brilhante. No final do firmamento, um Deus compassivo e sorridente abria a sua mão firme ao pequeno ser, espírito diminuto, volitando ao encontro do pai cheio de compaixão.

E na sua verve de artista, naqueles anos felizes só fizera caixões de anjos.

Pelejaram para ele fazer caixão de gente grande e ele nunca se dispôs a tal façanha.

Como fazer suas pinturas de artista para o povo pecador, gente grande que saiu da inocência dos pequeninos puros e sem maldade no coração? Justificava.

Imaginava que teria que pintar cenas de crueldade nos caixões dos adultos, sempre cheios de faltas.

Pintaria suas mentiras e taras, suas conversas de palavrões, suas covardias, falsidades, hipocrisias, crueldades, seus homicídios e roubos, suas faltas de caridade.

Como representá-los em pintura honesta saindo da terra e se encontrando com o Deus supremo?

Como inseri-los na amplidão dos céus com os seus corações tão pecadores?

Como inventar uma cor para os caixões dos adultos?

Somente a cor negra seria eficaz. E nada de desenho em cima daquele negro da pequenez e de tantas faltas.

Seriam somente feitos caixões negros e nada mais e dessa forma não seriam caixões feitos por artista.

Qualquer marceneiro rude e sem talento faria caixão negro de gente grande e sem qualquer referência espiritual.

Ele era um artista de caixões de anjos, de anjinhos sempre puros e desprovidos de pecado e de maldade.

Mas para o seu desespero os meninos daquela cidade começaram a deixar de morrer.

Ouviu perplexo, já fazia dez anos, um termo desconhecido para ele das autoridades de saúde:

- Vamos debelar a mortalidade infantil!

No passado somente havia as parteiras curiosas, que devido ao seu pouco conhecimento sobre a arte de parir, em certos casos e com alta incidência morriam as mães e os seus bebês de partos complicados e de doenças próprias pela falta de um tal de pré natal que antes não existia.

Nos seus devaneios, visualizava algum médico mal intencionado que resolvera capacitar as parteiras curiosas, naquilo que elas podiam fazer ou não fazer, no parto básico.

E a prefeitura adquiriu uma ambulância, ficando determinado que quando a parturiente tivesse qualquer complicação, seria imediatamente transportada para o hospital da cidade pólo da região.

Dessa forma, ninguém mais morria ali em plena infância, porque, além disso, criou-se esse tal de programa de pré-natal. E o pior: as futuras mães passaram a receber suplementos alimentares de programas de governo, que livravam os seus rebentos da fome, do nascimento em estado de debilidade extremada.

De quebra foram feitos sanitários em toda a cidade, com um programa de fossas sépticas, coisa de político sem inteligência, segundo o seu pensamento irado.

Ora, tanta coisa para fazer, tanta rua sem calçamento, e vai o prefeitinho se meter a fazer convênio de construção de fossa, de depósito de cocô.

E morria tanta gente de um tal de schistosoma, doença trazida pelo caramujo, um bichinho até bonitinho. E acabaram com os pobres dos caramujos.

O IBAMA, eu detesto o IBAMA!

O disgramado do IBAMA, outro dia eu ouvi no rádio, impede até mortandade de cobra venenosa, falando em uma coisa de proteção ao meio ambiente e deixa matar os caramujos, animais inocentes, que não mordem e não têm veneno. Só tem um bichinho que ninguém vê que se infiltra na lesma do caramujo. E o pobre, sem culpa do bichinho que mata criancinha e até gente grande ficar dentro dele, é morto sem piedade, sem que o IBAMA impeça tal absurdo.

E matutava raivento:

Assim, com tanta medida sem propósito do governo e da prefeitura, nunca mais morreu anjinho e eu tive que mudar de ramo. Comercio bom de dinheiro, essa fábrica de móveis finos, mas minha satisfação era ser artista fazedor de caixão de anjo, coisa que os malvados me tiraram do ramo com tanto paleio com esse cuidado besta com saúde de menino.

Muito deprimido chamou o sobrinho e afilhado Jerônimo e o pediu para cuidar de algumas coisas no escritório, saindo em passeio pelos arredores do rio que banhava a cidade, pensando e divagando irado e triste.

Dias depois a mulher notou que Luisinho mudara de ânimo, ficara mais risonho como nos velhos tempos e perguntou o que havia acontecido, qual o milagre dos céus.

Foi quando ele revelou que iria voltar ao velho ramo de caixão de anjo, profissão que o deixava tão feliz.

A mulher, surpresa, indagou a quem ele iria vender caixões de anjos naquela cidade onde raramente morriam crianças.

- Descobri o lugar onde não tem ambulância, não tem médico ou maternidade perto, não tem programa contra schistosoma, as casas são feitas em palafitas onde se joga dejetos no rio e para se chegar a uma cidade onde tem hospital somente através de um barco que demora uns seis dias. Aí não tem menino que resista.

- E onde é isto homem?

- Lá no Norte, na fronteira do Pará com o Amazonas. É uma cidade onde corre muito dinheiro de garimpo e que nem no mapa aparece.

Semana que entra viajamos.

- E a fábrica de móveis? E a loja?

- Deixo em sociedade com Jerônimo, que é o meu lugar tenente e sabe de tudo sobre o negócio. Daí, todo mês ele me manda uma quantia de dinheiro que seja suficiente para vivermos folgados, pois caixão de anjo, apesar de me deixar feliz, dá pouca renda.

E havendo acertado com Jerônimo a forma de gerir os seus negócios e os pormenores da sociedade, com quinze dias Luisinho e dona flora, sua mulher, zarparam para a longa viagem, levando poucos pertences e mais todas as ferramentas de fazer caixões.

Viajaram dias e mais dias e chegaram à cidade dos seus sonhos, onde ele constatou que morriam mais criancinhas do que aquilo que pensara.

E começou a fazer caixões cada vez mais aprimorados, com as cores mais vivas e os desenhos ainda mais requintados.

Passado o tempo, certo dia estava na oficina, no seu ofício, quando dona Flora chegou de mansinho e perguntou cautelosa:

- Luisinho, e se o governo fizer com esta cidade o que fez com a outra de onde a gente veio, cuidando da saúde dos meninos bem direitinho, o que é que você vai fazer?

- Ora, que besteira mulher?

O Paraguai e a Colômbia ficam bem ali!!!.