Bartolomeu Correia de Melo

 

“Avistei mamãe rezando

aos pés da Virgem Maria;

era uma santa escutando

o que outra santa dizia.”

(Trovinha de Bem-Querer)

São Paulo, 77 / maio, 07 – Amanhã é dia de quem?…

Queridos filhos: Thuta, Pingo e Nanna:

Da janela do meu quarto, avisto o jardim, metade da rua, alguns edifícios e um pouco de céu. É o meu mais querido pedaço de São Paulo.

Hoje parece que anoitecerá mais cedo. É um sábado especial. O sol se espreguiça, com força e devagarinho, num comprido bocejo vermelho que contagia as nuvenzinhas mais baixas. Tenho inveja dele. A esta hora pode avistar dunas e coqueiros refletidos no rio Potengi. Se tivesse aqui minha gaita transformaria num baião choroso este aperto de saudade.

Vejo seu Toshiro fechar sua lojinha de bugigangas. Deve estar agora amanhecendo lá na terra dele. Seu Manoel arruma seu carrinho de frutas cantando um fado. Hoje o carteiro não veio. Há dias que também não escuto o Pepino, o papagaio corinthiano do realejo de seu Giovanni, alegria da meninada. Vive arengando com o dono, que é palmeirense. – Echo, camisa do Parmeira, garganta do Corínthia! – reclama o velhinho. Meus garotos bem gostariam de conhecê-lo. Mas que andará agora fazendo a minha macacada? Por certo brincando na calçada…

A rua vai ficando vazia. As pessoas passam apressadas carregando pacotes coloridos. Mas aquele cachorrinho vira-lata não tem pressa em escolher um poste pra fazer pipi. As fábricas param de fazer fumaça, os automóveis aumentam o barulho. A cigarra, que mora na roseira grande, insiste no seu chiado fanhoso sem começo nem fim. Vizinha incômoda, esta.

Um resto de por-de-sol espicha os vultos dos edifícios, onde as janelas começam a acender. São pouco mais de cinco horas, mas o sol já se deitou. Amanhã ele terá de levantar cedinho, bonito e alegre, para enfeitar o azul domingueiro do céu. Foi isso que o menino Jesus encomendou a São Pedro. Os faxineiros do universo terão noite de serão.

A lua vai dar no mundo um bom banho de luz-detergente, que lava mais branco que os serenos comuns. São Jorge já tem ordem de proibir o estacionamento de nuvens-pipa, daquelas escuras e pesadonas. É que os anjinhos vão espalhar nuvenzinhas alvas e leves, com formato de flores e corações. As estrelas e cometas começam a esfiapar a garoa usada, já encardida de fumaça. Fura daqui, rasga dali… O vento varreu os pedaços. Depois, olhou desconfiado para os lados e escondeu tudo debaixo do tapete do horizonte, o preguiçoso. Mas São Pedro viu e brigou com ele naquela sua voz de trovão. E, por castigo, mandou que descesse à terra para pentear as árvores e espalhar o perfume das flores.

Cá embaixo, todos também trabalham. Só eu fico sem fazer nada, olhando da janela e escrevendo esta cartinha. Os morcegos se apressam na tarefa de avisar a todos os botões-de-flor para se abrirem ainda de madrugada. As mariposas ficaram encarregadas de acordar bem cedinho as borboletas e beija-flores mais dorminhocos.

Agora a cigarra gasguita calou-se e foi dormir, mas o grilo do canteiro de violetas continuou a latomia. Que duplazinha mais irritante! Um de noite outro de dia, cantando ruim pra danado! Não estou ajudando na arrumação, mas pelo menos fico quieto e calado.

Já é noite completa, porém aquele pequeno pardal, meu amigo, ainda não foi para o sossego do ninho. Isto de ficar até esta hora zanzando entre as plantas pode ser perigoso, penso eu. Daqui a pouco, o malandro do gato de dona Amélia começa sua andança… Mas o passarinho também estava ocupado. De todo jeito, tentava arrancar uma grande pétala da rosa mais bonita do jardim. Finalmente conseguiu; olhou-me de banda satisfeito, pegou a prenda no bico e sumiu. Por certo, aquele era seu presente. Amanhã é o Dia das Mães.

A noite vai passando, enquanto escrevo. O gato nem apareceu… O grilo calou-se, talvez preparando algum broto de grama bem tenro, temperado com perfume de violetas. Ele é um chato, mas também tem uma mãe, que deve adorar sua voz.

Tudo agora é um aconchego de espera. Eu me sinto sozinho como o guarda-noturno, que passa apitando e olhando para minha janela; talvez a única ainda acesa. Reparo o céu e sinto que tudo está pronto. O frio teve então ordem de andar pelo mundo, pastorando pra ninguém desarrumar.

O menino Jesus olhou em volta satisfeito, pestanejou e adormeceu sorrindo. O Pai Eterno, com cuidado e carinho, colocou debaixo da nuvem-travesseiro um lindo colar de gotas de orvalho, embrulhadinho num retalho de arco-íris. Amanhã é o aniversário de Nossa Senhora.

O frio continua sua ronda, mas há um doce calor em todos os sonhos. Até o guarda-noturno agora cochila, ele sabe que hoje é madrugada sem ladrões. Somente eu fico acordado, passando para o papel a gratidão de ontem para o dia de amanhã. Meus filhos precisam aprendê-la.

Mas, de onde virá este canto de galo, assim tão bonito, nesta cidade sem quintais?… O menino Jesus pensou mesmo em tudo!…

Entrou no bico do pato, saiu no bico do pinto. Senhor Rei mandou dizer que vocês dessem uns beijões em Mainha e Vovó.

Painho.