As meninas dos Santos punham em reboliço o casarão do seu pai, Prof. Sizenando dos Santos, nos tempos áureos da pacata cidade de Serra Nova. Levavam a vida em serões noturnos, reunidas as cinco na sala da frente com Mariquinha, a caçula, no meio, tocando violão. Modinhas saíam, então, de suas bocas e ganhavam docemente a noite da rua. Algum passante poderia dizer: “Moças vivedeiras”.

Dez anos depois, tais serões não mais se realizavam. E o que é pior: as meninas para desgosto próprio, continuavam solteiras em absoluto. Quitéria Velha disse num resmungo, certa vez, emoldurada na inevitável janela: “ Estas moças não se casam nem mesmo para que a gente tenha o que cortar neste oco do mundo”.

Lá na igreja matriz a imagem de Santo Antônio por motivos óbvios cobria-se cada vez mais de fitas e flôres.

Acrescido de cores extras na sua vestimenta, Santo Antonio mostrava-se assim como se tivesse saído há pouco do baile de carnaval do barracão. A propósito, Lucena chegou a comentar isso para a mulher do coletor, recebendo em troca uma rebanada, seguida da expressão: “ O senhor é um herege”.

O fato é que, malgrado as fitas – ou por isso mesmo – o casamenteiro não se dignava casar as meninas dos Santos. Certo dia, porém, amanheceu com toda certeza bem humorado, pois Mariquinha tornou-se noiva de um caixeiro viajante de nome Abdias. A senhorita Mariquinha, convém assinalar, não era mais uma “flor de moça”. Já Abdias constituía muito pouco do que se convenciona chamar “ rapaz apessoado”. Davam-se bem, portanto.

Com a notícia, toda Serra Nova arreliou-se; não se comentava outra coisa nas cozinhas e salas de frente, fosse no Jacu ou no Caminho do Cemitério. Debaixo do pé de fícus do Dr. Pelópidas, o caso, como não podia deixar de ser, era motivo para as conversas.

Enquanto isso, o herói ia e vinha nas suas andanças de vendedorde drogas, hospedando-se, quando em Serra Nova, na casa da noiva.

Marcou-se casamento. Comprou-se enxoval.

Certo dia, Abdias partiu de viagem para convidar – disse ele – pessoalmente a parentela da capital.

Esta viagem não teve volta, para desespero de Mariquinha – a esta altura com um projeto de homem no ventre – e para decepção das matronas serranovenses que já adiantavam na imaginação a cena nupcial. Felizmente, o caso ficou esquecido. Mariquinha abortou discretamente. E a animação da Festa daquele ano foi inesquecível.

Passaram pela cidadezinha trezentos e tantos dias de tédio…

Numa bela manhã de abril – como diria Dr. Chiquinho mais tarde no cemitério – o coração do Professor deixou de bater. Choro, dobre de finados, irradiação constante da Marcha Fúnebre de Chopin pela amplificadora local.

Das filhas do Professor, Mariquinha, que guardava a cicatriz de tragédias não muito remotas, sentiu em dobro a perda. Quis entrar num convento. Não consentiram e ela passou a usar longos vestidos pretos, semelhantes a hábitos de freira.

Na hora do ângelus anda no ar de Serra Nova uma paz convidativa a pensamentos de eternidade. A gente local, porém, não se incomoda com isso. Conversa pelas calçadas, falando mal da vida alheia.

O sino bate e musica aquela paz eterna despercebida.

Pois, daqui a pouco, passrá Mariquinha dos Santos, riscando o quadro da praça com seu vestido preto na direção da igreja.

Das irmãs dos Santos é a que, na verdade, ainda vive. A outra restante – Sinhá – está caducando e com a mania de dizer nomes feios que não se sabe como foram aprendidos.

Manoel Onofre Junior