Bartolomeu

Correia de Melo

Para Moacy Cirne e Ney Leandro de Castro.

Digo e sustento que meu tio Chico, derna de menino, de doido, não tinha nada. Todos daquele tempo dão conta de rapagote buliçoso mas atinado; se bem que putanheiro e punheteiro todo… Por vezes, pra melhor passar, até de abestado se fazia. E bem se fazia. Como quando virou sacristão pra cornear o vigário; estória essa que depois eu conto. Isso de maluquice, diz-que inventou pra lograr baixa da Marinha carioca. Era embarcar ou perder os bagos; jurado que estava, devendo cabaço duma sobrinha da quenga do Delegado. Porém o mar tinha água demais e mulher de menos pras securas dum cabra brotado na Timbaúba; sendo esse, e não Caicó, o lugar mesminho dele. Mas palpito que outros motivos, que poucos conhecem, tenham ajudado.

De certo que saiu fora com aposento de cabo-taifeiro. Muito mais do que merecido e carecido pra vida depois aqui levada. Função essa arrumada pelo sub-tenente-furriel Torrão, dali de Jucurutu, que se enroscava por fritada-de-bode com arroz-de-leite. Além disso, meu tio sabia preparar qualquer caíco-sulista num molho-de-nata tão caprichado que ficava crumatã escritazinha. Resto da tripulação, se enfiava, sem continência, na carne-de-sol com feijão-verde e farofa d’água. Daí, danou-se que, foi-não-foi, de marujo a capitão, haja caganeira!… Pois nisso andaram falando em vingança de corno ou pirraça de bofe, coisas com chifre ou viadagem no meio, que em navio não falta. Qual nada! Boataria de embarcadiço desocupado; seridoense não tem dessas feiúras, não! Mas, outro cozinheiro – gaúcho de Passo Fundo pra cá – por sujeira invejosa, andou dedurando sabotagem. Diz-que meu tio botava nas panelas uma milacria cubana, afrouxadeira de tripas. Daí perigava estouro de motim; pois que, na fila pra latrina, dor-de-barriga não respeita patente. Ora, naquelas ditas duras eras, mais branda seria fama de corno ou boiola que malpecha de comunista. Mas, embora depois de quanta bolacha e borracha, inquirição e apelação, findou tudo bem apurado. Tal misteriosa poção seria apenasmente a simples e honesta manteiga-de-garrafa! Derna disso, meu tio arrepunou de milicâncias e maquinou em dar baixa como doido. De tudo fez, e nada-de-nada; só faltou comer dinheiro e rasgar merda. A cada presepe, todo-mundo gargalhava enxergando gaiatice de nortista. Enfim logrou esse intento quando fechou troncha aposta com bichão de mar-e-guerra, teimando que o cujo tinha morróida. Perdeu, porém já apostara com o restante da galera que, perante testemunhas, o capitão havera de arriar calças pra ele. Pelo regulamento, seria expulso; mas nunca por tal esperteza. Pois assim o comandante restaria como otário e, da

caverna à caserna, oficial superior sempre teve juízo e razão. O jeito foi dispensa como doido mesmo; foi-lhe assim assentado nos papéis: “por suprema insensatez de desrespeito”, vindo depois palavrório que me engasga e não decifro. Daí avante, quando chamado de doido, respostava: “Doidice fosse burrice, eu inda era marujo!…” Mas, cá comigo, desconfio que tio Chico doideceu mesmo foi por falta de mulher…

Daí virou bebum-de-feira no Acari. Acari lá de riba, do Seridó, não. Acari ali da feira mesmo, da feira dos paraíbas. Preste atenção que todo bêbado parece igual, mas enfim cada qual é diferente. Tem mais raça de bêbado do que marca de cachaça. Tem bêbado rico, chorão, enxerido, valente, cantor, falastrão… Meu tio era bêbado-poeta. Bebia todinho o apurado das suas vendagens de pente e chá-preto, coisas de pouca procura, derna daquele tempo. Não que bebesse pouco com o quase-nada que vendia. Afinal, em troco de lérias e repentes, sempre dava pra encher a tampa. Do meio pro fim, fazia biscate ticando e fritando peixe na banca de Irene Cabeluda, só por ele assim chamada, podem até maldar porque. Além do mais, todos lhe fiavam uma meiota, parente que se dizia dum tal bispo conterrâneo, quem havera de negar?

Não fazia um “O” com uma quenga, mas versejava uns disparates indecentes, que chamava de poemas. Eu, sobrinho predileto e anjo-da-guarda das suas carraspanas, anotava ou decorava quase tudo. Ele nunca nem pediu pra ver meus rabiscos. Hoje, nem sei o que faça com tais escritos. Fosse inda vivo, tio Chico diria que eu vendesse ou, melhor ainda, usasse pra comover gente comível…

Fazenda Aliança / Ribeira do Potengi

Natal, 7 de setembro de 2010.