Manoel Marques Filho

Caro amigo João,

Ao receber esta carta sei que você irá demonstrar grande surpresa, pois há exatamente dois anos que eu desapareci aí do Brasil, fazendo questão de não deixar qualquer vestígio.
A razão dessa ausência é por demais lógica, diante do que passo a revelar. Desapareci em meio a um acontecimento raro e fiz questão de deixar a distancia a minha própria mulher que até agora não sabe sequer se eu estou ainda vivo.
Vale ressaltar que somente estou agora me comunicando com você, porque não poderia deixar de saldar aquela dívida (com boa vantagem em seu favor) do empréstimo a juros que há bastante tempo você me concedeu, a qual o amigo pode resgatar no Banco, conforme envelope anexo. No entanto estou fazendo o pagamento de modo que ninguém possa identificar onde me encontro, pois aqui estou muito bem e assim pretendo continuar, nesta vida que pedi a Deus.
Em verdade o que motivou o meu desaparecimento tão radical foi um fato que eu próprio não esperava acontecer: Eu ganhei aqueles oitenta milhões do prêmio da mega sena que há dois anos saiu ai para o nosso Estado.
Ganhei e desapareci, indo receber o prêmio em outro Estado, para dar menos na vista.
Sai de casa e disse a minha mulher que ia comprar ração para o odioso gatinho que ela cria e que me obrigava a cuidar dele, tirar suas pulgas, dar banho de perfume e outros absurdos, para ela mostrar as amigas ser dona de um gatinho manhoso e com isso e outras coisas manter a sua pose detestável de madame pobre e chique.
Como tenho somente esta chance de me comunicar com alguém do meu antigo mundo, vou revelar a você como foi a minha vida de marido submisso até que o prêmio da mega me libertou da megera, fazendo com que eu revivesse em uma vida nunca antes sonhada por um mortal da minha espécie.
Um dia eu me aposentei do serviço público com um salário nem muito minguado nem muito grande, que daria para um confortável momento na minha nova fase de homem cinqüentão e quase sessentão.
Mas nem bem eu me fixei em casa, Maria Rita entendeu que um aposentado deve ser convertido na dona de casa que ela nunca foi na sua essência. E passou a me dar tarefas, devagar, em surdina progressiva, que a cada dia se somavam a outras, até chegar a atividades de ridículas conotações para o seu ego doentio de mulher com complexo de chique, que sente necessidade de mostrar as amigas uma categoria de complexo de princesa, dessas abusadas, cheias de frenesis.
E eu fui me transformando em espécie de mordomo de casa de COHAB, de rua modesta e de gente modesta.
Começou inventando um chá das cinco, onde fazia (eu fazia) um bolo e biscoitos. Aí ela convidada algumas velhotas para serem servidas à mesa da sala de estar, inventando gestos de etiquetas com poses artificiais de dama da idade média, nas suas vivendas gloriosas.
E quando falava às madames sobre os animais que ela criava aos montes (eu quem cuidava), se dirigia a mim com a autoridade da rainha má (aquela de Branca de Neve):
- Conrado, as madames querem ver Almirante, vestido a rigor.
E lá ia eu vestir a roupa de marinheiro no gato (e era gato vira-lata), colocar perfume e a coleira de cor dourada mesclada de rosinhas e trazer o bichano arrogante a preguiçoso, mostrando-o a cada uma das velhotas, que me olhavam por cima dos olhos e depois fuxicavam sobre a minha forma de ser, de marido submisso da madame pobre com sotaque de princesa de faz de conta.
Antes, aos domingos, eu ia ao jogo de futebol. Mas depois que virei mordomo da casa, quem iria servir às velhotas no chá das cinco?
E a minha mulher me lembrava essa condição de forma autoritária:
-Futebol? E quem vai servir às minhas amigas? Quer descaracterizar a categoria da minha casa sem o chá das cinco?
E eu passei também a lavar e passar minha roupa. E a minha mulher, que tendo uma lavadeira uma vez por semana, me admoestava:
-Quem já viu deixar a pobrezinha fazer serviço tão inferior de lavar roupa de homem? E as suas cuecas que fedem?
E assim eu também cuidava do cachorrinho que dormia com ela ao lado da cama (na cama ela dormia com o gato). Cuidava de quebra, do passarinho e do hamster (ratinho chato).
Mas um dia eu me vi com o bilhete premiado da mega sena, com o premio anunciado de oitenta milhões.
Adivinhe onde estou? Digo não, nem pensar!
Mas darei uma dica. Moro entre a Europa, Australia e às vezes vou ao Brasil, em lugares de difícil encontro com os fariseus daí.
Investi parte do dinheiro na construção de flats nas regiões montanhosas da Europa e comprei uma pequena propriedade em uma região produtora de vinho.
Na minha rotina eu me deleito no plantio da vinha, na sua colheita e na suave degustação do meu produto, que para produzi-lo a minha mão-de-obra é composta somente de moças, cinco jovens e belas garotas, (eu as chamo de matutinhas da Europa), que eu faço questão de que se vistam daquelas roupinhas típicas do folclore campesino das regiões dos vinhedos. E com essa brincadeirinha de agricultor eu me deleito, uma hora dormindo e outra com elas sussurrando sonhos e realizações de amor entre as folhagens dos vinhedos.
Às vezes, em algumas noites de verão, caminhamos despidos ente os vinhais, saboreando os cachos rosados das uvas, sem precisar sequer que as minhas graciosas camponesas coloquem folhas de parreira cobrindo as suas vergonhas delicadas.
Depois, no tempo certo, pisamos as uvas colhidas no barril que se converteu também em barril de carícias nunca vistas. Barril do vinho e do amor…
Será que o amigo acha que quando estou com minhas doces camponesas eu me lembro do gatinho arrogante da minha mulher?
Muitas vezes deixo a minha vivenda dos vinhedos e me deleito nos hotéis de Paris, Londres, Lisboa…
Para não ser reconhecido, fiz uma cirurgia plástica. Fiquei parecido com um elegante Barão, de bigodes bem tratados e outros traços que não posso revelar para não oferecer pistas sobre a minha nova identidade. Até cultivei duas belas suiças, que me fazer sentir um homem sensual, com a certeza de que se pudesse voltar aos tempos da minha juventude, as mulheres, conforme a gíria da época, diriam que eu sou um pão.
E com isso já fui algumas vezes ao nosso Estado, me hospedando nos hotéis da Via Costeira, sem ser reconhecido na cidade e sem sentir saudades do chá das cinco da minha mulher.
Viajo o mundo sem solidão e sem medo, com a preocupação de não me abobalhar dando uma de novo rico imbecil. Apenas aprendi a viver a vida com o conforto que oitenta milhões podem oferecer sem a perigosa aventura de ser otário, vivendo a modesta quota dos meus pertences, sendo rei nas minhas possibilidades e sendo humilde na minha prudência.
Mas há dentro de mim um sentimento de justiça que leva a pensar na obrigação legal de dividir tudo o que ganhei com a minha mulher, com quem sou casado em comunhão de bens.
Penso nisso, mesmo acreditando no ridículo que se evidenciará quando ela por acaso meter a mão na metade dessa grana. Certamente que ela transformará a casa de conjunto da COHAB em formato de castelo medieval, ficando ali mesmo (mantendo o chá das cinco muito mais chique), onde mandará erigir uma porta bem alta (daquelas dos castelos onde circulam vampiros) e se puder me obrigará a voltar a ser mordomo, dessa vez de fraque e cartola.
Os animais serão vestidos em roupas de ouro e cuidados por uma governanta só de bichos e que me dará tarefas de peão.
Mas como sou homem de coerência, pretendo com ela dividir esses bens, o que de direito a ela pertence.
Acredite. Para que eu divida esses bens com Maria Rita, haverá somente uma pequena condição: SE ELA ME ACHAR!!!