Bené Chaves

Naquela noite de sábado saímos de outra reunião cineclubística, entramos numa rua transversal e fomos até quase o centro da cidade. Gupiara mostrava-se tranqüila, nenhuma anormalidade em seu trajeto. Decidimos parar n’A Palhoça, um bar simpático que ficava colado ao cinema Rio Grande. Iríamos tomar algo para molhar nossa garganta. O citado barzinho parecia-nos uma pequena capela, pois tinha uma espécie de passarela no centro e nas laterais diversos bancos e uma mesa retangular em cada compartimento.

Em um acesso de imaginação pensei que o santo poderia se juntar ao profano. Ali rezaríamos quase semanalmente. Era, no entanto, um culto ao copo cheio de um delicioso líquido amarelado. Ao contrário das mulheres, a cerveja que tomávamos só serviria se fosse bem gelada. Elas, se fossem cálidas.

E por falar no sexo feminino, lembro agora de um episódio acontecido tempos depois em um litoral da cidade. Estava bebendo cerveja com alguns amigos quando eu disse para eles: olha, cerveja é o contrário de mulher. Só presta bem geladinha. Um dos que estavam na roda, na sua costumeira picardia, esbravejou um pouco já grogue: que nada, mulher serve de qualquer jeito! Todos, então, tiveram de concordar com a sublime sentença do cidadão.

Mas, voltando ao assunto anterior, decidimos tomar alguns goles de cerveja e logo em seguida irmos para a praia. Veríamos o profundo mar, que deveria nos servir também de uma espécie de terapia. Saímos pela Deodoro, contornamos a rua Mossoró e entramos na Prudente de Morais. Dali seguiríamos em frente até pegarmos a Nilo Peçanha com destino à orla marítima.

Interessante notar que em todo este percurso o caminho era de uma serenidade que não vemos em Natal atualmente. Parecíamos donos de uma trilha naquela estrada de asfalto. Descemos uns batentes ao lado do Hospital das Clínicas e fomos parar em outro bar, desta feita de nome ‘A Tenda dos Ciganos’. Éramos realmente ciganos a compartilhar uma Gupiara ainda de paz e amor.

Já alojados dentro do pequenino bar podíamos ver o mar que se avizinhava com suas ondas a quebrar numa força estupenda. Existia pouca iluminação no local daquela praia em Gupiara, porém durava também a nossa despreocupação quanto a assaltos, morte e roubos existentes em Natal atualmente.

Uma cidade não combinava com a outra. Acho mesmo que Gupiara crescera e dera um nome diferente para uma urbe sem nenhuma característica ou peculiaridade da anterior. E estávamos nós a degustar alguma bebida acompanhada de um violão que detonava lindas músicas para nossos ouvidos. Tudo era tranqüilidade aos olhos de um oceano bravio que se afigurava perto dali.

Uns reclamavam da falta de mulheres, enquanto outros apenas enchiam os copos a cada minuto. De fato, o sexo feminino, ainda acanhado ou cismado em sair para algum divertimento, não aparecia e ficava entocado em casa talvez com medo dos pais e de uma sociedade ainda controladora. Mas, Gupiara tinha suas vantagens.

E o lado proibitivo tinha seus méritos. Era uma façanha você se encontrar às escondidas com uma garota. A sensação e a libido se exultavam diante do inesperado, do não permitido. Ali, porém, naquela ‘tenda dos ciganos’ nós, homens, fazíamos a festa. Se é que possa parecer incrível, era o único bar da chamada orla marítima.

Gupiara, aos meus olhos, não cresceria jamais. Ficaria como estava. A sua beleza era natural. O ser humano era menos desumano.

E no nosso aconchego momentâneo, um fato despertou atenção generalizada. Um dos amigos que bebericava em excesso teve um subido desvario. De repente saiu em disparada com destino ao mar. A maré estava cheia e ele simplesmente parecia correr numa maratona. Pegou-nos de surpresa. O que fazer? O jeito que teve foi irmos disparado atrás do mesmo. Ficamos com medo porque poderia ter passado uma ronda policial e pensar que estivéssemos atrás de algum ladrão.

Porém Gupiara não é a Natal de hoje. Você corria livremente sem medo. Atualmente você corre com medo sem ser livre. E o jovem atleta chegou ao seu destino: o mar. Acho que queria fazer uma catarse em seu corpo, invadir as águas e se curar do porre homérico que tomara. Ou, então, atitude de bêbado mesmo.

Conseguimos segurar o maratonista e o deitamos na areia de uma madrugada como sempre serena na Gupiara de nossos encantos. O estado etílico do amigo foi aos poucos melhorando. E ficamos com uma dúvida atroz: como também não estávamos sóbrios, ninguém ficou sabendo o real motivo da fuga ao mar.

O certo é que terminamos dormindo ali mesmo na areia e diante de uma lua que circulava e circundava ao redor de nós. Em Gupiara podia-se dormir na praia, na areia de uma noite estrelada ou não. Essa era e apenas é uma das grandes diferenças de um tempo que se foi.

De manhã cedinho, o sol no alvorecer e crescendo dentre as colinas, todos já devidamente recuperados do pileque, pegamos o primeiro ônibus que apareceu e fomos tomar café com pão e tapioca no Mercado Público do centro da cidade. Embora fosse domingo, ele abria as portas para atender sua freguesia à procura de mantimentos.

Ah, Gupiara de meus amores… Ah, Natal de minhas dores…