Conto de Rosa Ramos Regis da Silva
Natal / RN

As primeiras lembranças

As árvores cobriam o caminho deixando que o luar atravessasse as brechas entre a folhagem e formasse belíssimos desenhos na areia branca da beira do rio, que mais parecia uma renda daquelas que Sinhá Porcina fazia na sua almofada de bilros e que eu tanto admirava. Eram desenhos perfeitos.

Eu me encolhia toda, com medo das almas penadas que pudessem estar no mourão2da velha porteira que dava passagem na divisa das terras dos Davi e dos “Cabeludos”,como, também, por trás do velho tronco de cajueiro que extremava as duas terras e nos seus galhos recobertos com pimenta-do-reino, e procurava ir sempre no meio da fila indiana que se formava devido a pequena largura dos caminhos que ligavas os pequenos casebres daquele lugarzinho aconchegante, pelo menos para mim, que reunia seus moradores no meio da rua, se é que se pode chamar aquilo de rua, que era o caminho principal que servia aos tropeiros viajantes e aos feirantes que se deslocavam dos pequenos lugarejos para as cidades mais próximas em dias de feira, e, se noite de lua, contavam piadas picantes que eu mal entendia ou não entendia nada; estórias de lobisomem; de mula-sem-cabeça, das quais saía um fogo enorme do pescoço, e que seriam almas penadas de mulheres que tiveram algum caso amoroso com padres; da cobra preta, um demônio em forma de cobra que atacava as mulheres e as engravidavam (sempre mulheres casadas em quem o marido depositava toda a sua confiança); da “caipora”, que tinha de ser chamada de “dona fulôzinha” e que lhe oferecer sempre uma “peia de fumo” para que ela não surrasse o caçador, sem que ele a pudesse ver, portanto sem nenhuma defesa, com os seus longos cabelos, e permitisse que o mesmo adentrasse o mato e pudesse caçar sem a sua intervenção.

As estórias iam sendo desfiadas noite adentro. Quanto mais pavorosas, mais emocionantes. Mas, ao sair dali, nenhuma das crianças queria ir atrás ou à frente da fila. E arrepiados de medo não olhavam nem para trás nem para os lados. Mudas de terror. E ao chegarem em casa, mal jogavam um pouco d’água nos pés para tirar o excesso de areia, jogavam-se na rede já armada e cobriam-se com o velho lençol engendrado com dois sacos de algodão cru, daqueles que serviam para o transporte do açúcar que era pesado em arrobas, ensacado e vendido a granel (100, 200, 300 gramas, meio quilo…) e que era mais encorpado que o saco de sal, fechavam os olhos com força e tentavam dormir o mais rápido possível para fugir ao terror das personagens mitológicas inculcadas em suas mentes jovens pelos mais antigos. Sonhavam com monstros míticos que se modificavam, fugindo à sua originalidade, ao lhe serem acrescidas partes que aquelas mentes jovens e criativas lhes davam durante o sonho. Mas, amanhã seria outro dia! E o sol, certamente, espantaria todas as imagens monstruosas que a noite trouxera.
(IN ANTOLOGIA ON LINE-JANEIRO DE 2011)