Rizolete Fernandes

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Visitei, recentemente, uma amiga cuja mãe, uma senhora miudinha de saúde fragilizada e conversa envolvente, nunca deixa sair sem almoço os amigos que a sua porta batem no final das manhãs, nem perde a oportunidade de entabular um boa conversa, enquanto se espera a hora da refeição.

Entre um papo e outro, Dona Anita chamou a atenção para duas pequenas vasilhas que balouçavam acima de nossas cabeças, embora delas não houvesse me apercebido. Eram bebedouros para beija-flores, as pecinhas verticais de material transparente, com flores artificiais presas na parte externa. No centro delas, orifícios minúsculos nos quais os pássaros vêm sugar o líquido colocado no interior.

Encontrávamo-nos no terraço, tentando escapar aos rigores do calor de Natal no início do ano. Nas vezes anteriores em que lá estivera, aquela senhora falava preferencialmente da família e seus eventos passados e presentes, de modo que foi surpresa esse seu interesse ornitológico. Ela mesma havia adquirido as vasilhinhas apropriadas e as instalado convidativamente à entrada da moradia.

No transcurso de quase uma hora, o tema girou em torno dessas belas aves originárias da América do Sul, das quais existem cerca de 300 espécies, tidas como as menores do mundo. De cores variadas e exuberantes, bico longo e fino a lhes tomar a maior parte do corpo, elas executam voos rápidos e precisos, impulsionados por asas tão ágeis que lhes permitem ficar paradas no ar e até voar para trás.

E como que atraídos pelo que dizíamos, sem mais nem menos, os colibris (como também são conhecidos) começaram a surgir, ora individualmente, ora acompanhados. Indiferentes as nossas presenças, cortavam o ar feito raio e com a agilidade que lhes é peculiar, libavam as flores falsas e partiam ainda mais velozes, seguidos pelos nossos olhares de embevecimento.

Face à multiplicidade dos voos, eu não saberia precisar quantas aves eram, imaginando tratar-se de uma dupla de visitantes, no máximo, mas minha experiente interlocutora informa que são bem mais que dois pares. Como o sabia, se são tão indistintos e os que acabam de partir podem voltar em seguida? Em algumas raras ocasiões os tinha visto voando conjuntamente, disse com simplicidade e prontamente, dando mostras de estar com a acuidade em perfeita forma.

Havia um pássaro em especial que se comportava de modo agressivo em relação aos outros da espécie, impedindo-os de se alimentar em paz e pondo-os logo a correr, digo, a voar. No entender da minha anfitriã, tratava-se de um macho, pois somente machos tratam com a demonstrada agressividade os semelhantes. As razões da valentia? O mando do espaço e o ciúme da fêmea que entre eles voejava, concluiu. Não pude deixar de interrogar como sabia haver uma a ave de sexo feminino entre as demais, ao que respondeu que deduzira por ser a única com quem o macho brigão compartilhava o banquete, não a expulsando dali e prosseguiu descrevendo suas graciosas peripécias.

Desconheço as razões pelas quais a matriarca resolveu se ocupar de beija-flores no ocaso da vida, mas ela os incorporou ao dia-a-dia, fazendo-os beneficiários da sua atenção, o que, aliás, parece estar lhe fazendo muito bem. Foi fácil depreendê-lo ao ouvi-la discorrer sobre seus hábitos, vivamente. Com efeito, ao se referir a eles, fazia-o com um brilho nos olhos que eu jamais havia nela flagrado. Seu rosto como que se acendia, ganhava cores na companhia dos novos freqüentadores da família.

Sim, havia encantamento no rosto daquela dama em meio aos seus beija-flores.