Bartolomeu

Correia de Melo

Rastejando, de mansinho,

o gato leva o silêncio

ao canto do passarinho.

Triste Versejo

Derna de bem pixote, gosto de passarinho. Isso devo à solta meninice nas várzeas e tabuleiros do Ceará-Mirim. Cresci vendo tiziu saltar toco, pêga imitar gavião e galo-de-campina mudar de cor. Embora bem traquejado em truques de passarinhagem, sabedor de visgos e arapucas, desaprecio bichinho engaiolado. Pois havia um tio poeta que, sem sermões ecochatos, apenasmente nos punha a reconhecer e arremedar o canto de cada qual. E estrada afora, no verde-azul das manhãs, a gente menino seguia gozando o desafio.

- Tiu-tiriu-tiu! – canário-da-terra.

- Phru-phruphru! – rolinha cabocla.

- Fit-fit-fit-firiririri… – nhambu pé-roxo.

- Ih, passou a vez! Esse é o nhambu pedrês!

Depois veio desmatamento, cana-de-arisco, agrotóxico, espingarda-de-cartucho; tudo detrás de egoísmo e descaso, debaixo de ganância e ignorância… Mas, quem sabe, talvez por saudade, por insensato amor aos cantares da infância, alguns ainda prendam passarinhos como fossem lembranças engaioladas?

Nos meus tempos de mestre-de-academia, abrandava os rigores da físico-química nas cores de pau-d’arco e sons de bem-ti-vi que brotavam dos morros nos aceiros do campus universitário. Tinha sempre um sabiá cantando o fim do expediente e aquele casalzinho de rouxinóis que sempre se aninhava entre os frascos do laboratório. Pois que os pássaros fugidos das gaiolas urbanas, do Morro Branco ao Mirassol, foram se achegando e se arranchando nas árvores baldias e beirais de concreto. E se misturavam à parolice dos estudantes, pondo música na decoreba das leis e doçura na demonstração dos teoremas. Eram sanhaçus, anuns-brancos, bicos-de-lacre, sebites, rolinhas pé-de-anjo… Até aparecia cancão e concriz. No mais disso, os quantos pardais, naquela importuna alegria de meninos-de-rua. Mas, num passar de pouco tempo, agora o campus quase emudece. Inda bem que, já aposentado, não mais testemunho o crescer de tal vazio.

No bem cedinho do todo-dia, passeio no antigo “bosque dos namorados”, com minha mulher e outras gentes dos meus bons tempos e sentimentos. Alguém caçoa da minha vagareza, enquanto gracejo com outro, ainda ligeiro feito moleque, correndo pra lugar nenhum. Mas, afora os ditos de camaradagem, gosto mesmo de escutar os passarinhos. Nisso sim, rebusco a infância sadia e a chegança da idade menos me dói.

Porém, meio amofinado, percebo que, as aves que ali gorjeiam já não cantam como antes. No invés disso, aqui-acolá, sem-vergonheira de gatos rasga um quase silêncio embrenhado nos restos de mata atlântica. Quede a passarada?

Mais por respeito ao carisma felino que mesmo por benquerença, sem arriscar muito achego, também aprecio gatos. Neles até gavo a auto-estima, a vaga magia, a falsa lerdeza, o feitio sensual, o jeito caviloso tão diverso dos passarinhos. Coisa sentida como assim descrita num hai-kai: “debaixo da mesa posta, o gato se lambe, porque se gosta.”

Por outras valias, há quem tenha, de-mesmo, amor aos bichanos, com todo apego e acarinho que minhas crenças e alergias não toleram. Além do que, de pessoas e de bichos, gosto do franco gostar; do bem-querer com resposta, mas sem barganha. Singeleza bonita, assim dada de graça, somente passarinho espalha. Gato é bicho enganoso; se basta caçador, descarece dum amo provedor. Mas, por esperto comodismo, roçando e ronronando, finge carinhosa servidão. E nisso desfruta da nossa generosa pieguice. Bem reparando, caso haja caça, gatos dispensam qualquer proteção. Isso, tirante os filhotinhos ao desamparo, arrepiados e remiantes, parecendo feitos pra tocar corações… Pois justamente esses pobres bichinhos findam virando autores do triste sumiço da fauna miúda das dunas natalenses.

Filhotes de gato – predador eficiente como poucos – são abandonados por maldade dalguns e alimentados por piedade doutros, nas nobres áreas verdes da cidade do Natal. Eis aí a questão. Pois que, mesmo em penosa condição, felinos procriam muito rápido (até quinze filhotes ao ano), nisso podendo retornar ao estado semi-selvagem. Com instintos bem preservados, dotados de bons meios de defesa e quase sem inimigos naturais, facilmente sobrevivem, bordejando matas e tabuleiros, a devorar pássaros, répteis e roedores silvestres. Tal fenômeno de desequilíbrio ecológico, envolvendo gatos antes domésticos, hoje ocorre intensamente na Austrália, com grande prejuízo da fauna de pequeno porte, já com algumas dezenas de espécies nativas postas em extinção. Isso, sem falar na toxoplasmose, doença insidiosa e traiçoeira, transmitida principalmente pelos gatos vadios.

No Parque das Dunas, nossa maior reserva florestal urbana, apesar da vizinhança do IBAMA e da Polícia Florestal, e no vizinho campus universitário (UFRN), nas barbas de ecologistas e biólogos, esse grave engano teima por demais acontecer. E, pelos meus muitos vistos e ouvidos, bem duvido que algo mude, por mais que se choramingue ou se esbraveje! Apesar dos pesares, denuncio; pra que, ao menos, conste a denúncia.

Com perdão dos salvadores de filhotes dos gatos-de-rua com tão troncha solução e perante tal descaso a semelhante desastre – passarinhos vira-virando saudades – desentalo minha revolta, mesmo perigando ser chamado de chato empedernido ou de poeta indevido.

Natal, novembro/2008