Por Américo de Oliveira Costa

Entre  os rótulos de  “Cidade-Presépio, ingênuo e provinciano, e “Trampolim da Vitória”, legendário e internacional, esta “Cidade do sol” (outra apelação que  lhe é conferida), cidade aberta e cordial, guarda diversas  características privilegiadas. Além do mar e das praias (como não existem mais belas nem na Côted’Azur francesa, nem na Costa Brava espanhola), das dunas fronteiriças do Tirol,  das “Quintas profundas”, creio que de Sanderson Negreiros, ou das Rocas de pescadores e iates aventureiros, Natal é, também, por exemplo, uma categoria de espírito, da cultura, da inteligência, da sensibilidade.

Na  Sologne (França), ao lado de Beuvron, um cartaz de estrada anuncia: “Aqui começa o pasís de Raboliot”, personagem de um famoso romance  rural de Maurice Génévoix. Pois para quem entre em Natal, das bandas de Parnamirim, um semelhante cartaz informa: “Esta é a terra de Luís da Câmara Cascudo”.

Nossa cidade Natal é, principalmente, dele, seu historiador oficial, cuja obra toda se impregna   de sua vida coletiva, do seu ambiente, do seu quotidiano, através do tempo e de mais de cem livros publicados. Ninguém lhe conhece melhor os meandros do itinerário quatro vezes secular, seus dias  fastos e nefastos,  suas altas figuras representativas, seus tipos pitorescos e populares, suas estórias e acontecimentos políticos, sociais, culturais, suas visões e mistérios noturnos, o fascínio de suas crendices afro-indígenas brasileiras.

As paredes de uma sala de deu casarão-biblioteca-museu, na Junqueira  Aires, de cujas varandas se avista o mais lindo pôr de sol, estão cheias de assinaturas ilustres de estrangeiros e nacionais, que ali foram “beijar a pedra”, no gesto ritual e comovedor da visita obrigatória ao mestre natalense, já monumento de si mesmo, em pleno estado de graça, aureolado por aquela machadiana “glória que fica, eleva,honra e consola”.

Ele é o nosso totem, o nosso mito, o nosso homem-escritor símbolo, realíssimo e vivo na altura de seus mais de oitenta anos magníficos e generosos, pela sobriedade e simplicidade da vida, pela humildade do sábio, pela doçura acolhedora, pela fidelidade de compreender e amar sua terra e sua gente, de que ele jamais admitiu separar-se, recusando acenos e apelos que de tantos centros maiores lhes chegaram aos olhos e aos ouvidos, sempre cegos e surdos, no entanto, a tudo que não fosse a sua e a nossa  cidade Natal.