AUGUSTO SEVERO NETO

Foi começo de descoberta no fim da década de vinte. Primeiros alumbramentos fora dos limites do quintal lá de casa, que ainda era sítio e dava na São Thomé.

Praça Augusto Severo com suas árvores grandes ( oitis, principalmente)e suas pontes-passarelas sobre os estreitos canais,onde, mal –acomodado, transitava na maré cheia um braço esguio do potengi. Na mão esquerda de quem vem descia, mais para os lados da GREAT-WESTERN, o coreto. Meio europeu, meio mourisco, com suas linhas “elancés” e seu teto de ardósia. Nos sábados, se bem me lembro, havia retretas.E As estátuas de bromze vindas da França? Onde andarão elas?
Natal de mais tarde um pouco. Carnaval na Tavares de Lira. Corso arrodeando o obelisco lá no cais das lanchas de Luís Romão que iam para a Redinha passando pela frente do Hotel internacional do Major Theodorico e pelo oitão da firma Severo Gomes E Cia., de meu pai, do Dr José Gomes e do Coronel Vanvão. O escritório fazia esquina com a rua Chile do antigo palácio do Governo que se tranformou em casa de mulher-dama,no tempo da guerra e dos “my Friends”.
Na rua 15 de Novembro havia a pensão Belas Artes, de mulheres pálidas e tresnoitadas. A Almino Afonso, da pensão Ideal, conhecida por Pensão Estrela (de propriedade de Maria Emília, conhecida por Maria cu –de ferro) tinha então o nome de rua do Triunfo.
Na Duque de Caxias, entre as praças Augusto Severo e José da Penha moravam famílias importantes como as dos doutores Odilon Garcia e Januário Cicco e mais pra cá, no pé da ladeira da Junqueira Aires, estava o palacete de Tia Inezinha ( Dona Inês Barreto de Albuquerque Maranhão), viúva de Juvino e que hoje é o colégio Salesiano. Subindo mais , tinha-se ( e ainda está lá) “A República”, Que foi casa de Pedro Velho, o Dr.Theotônio Freire, o meu pai Sérgio Severo, o Dr. Calixtrato Carrilho, a capitania dos portos e muita gente de boa origem e conceito. O bonde descia a ladeira a nove pontos. Só vendo.
Natal tinha um bocado de gente boa que hoje têm nome de rua e um bocado de ruas que hoje têm nome de gente. Não quero discutir, mas, aqui para nós, a cidade cresceu tanto que bem se poderia homenagear aquelas passoas sem apagar nomes tão bonitos como rua dos Tocos , das Virgens, Beco do Capió e Travessa da Lua. (onde João Lira prometeu se esconder se fosse perseguido pela Prefeitura), mas botaram nome falso na rua do Arame, de simpáticas prostitutas que me desvirginaram.
“ Mudaria Natal ou mudei eu?” Nada disso, nós mudamos juntos. Na Cidade, o progresso e os modernos/ modismos destruíram as formas de moça provinciana,vestindo-a de longos espigões que emparedam a brisa, sufocam as árvores e as praças. Em mim a pátina do tempo tranformouse-se em rugas, em cabelos brancos, em cansaço dos aclives e em uma lírica e imensa saudade.