Cid Augusto in Canto de Página – 30.10.2010

Encontrava-se ali, sentado, fazia horas. Segundo consta, o estranho chegou puxando uma carrocinha cheia de papelões velhos, garrafas secas e revistas usadas. Nada pediu nem ofereceu. Ficou quieto com as pernas cruzadas, revelando, mesmo sem esta intenção, que os pés descalços estavam tão sujos quanto o bigode e a barba.

Ele ria sem arreganhar os dentes. Na verdade, ele nem abria a boca, apenas acionava a musculatura do rosto sulcado por rugas precoces, empurrando as extremidades dos lábios no rumo das orelhas semiencobertas pelos cabelos castanhos. Tarefa difícil. A pouca mobilidade facial e os olhos apequenados eram prova do sacrifício.

O silêncio do maltrapilho feria os tímpanos dos observadores que fingiam não enxergar as toneladas de palavras mortas atrás daquele sorriso. As cadeiras punham-se de costas, porque os olhos distantes do homem embrulhavam o estômago de quem teve o privilégio das primeiras refeições do dia e já se deleitava com o aperitivo do jantar.

Pode crer, prezado leitor, o constrangimento foi geral. Até o vento deixou de brincar com as folhas da mangueira amojada que se derramava em flores na própria sombra. Os pássaros, pouco a pouco calaram e a tarde pediu que a noite se apresentasse mais cedo ao posto de trabalho, de modo a esconder na escuridão a miséria da personagem indesejada.

De repente, uma tigela de comida chegou às mãos do maltrapilho. Alguém decifrara o enigma proposto no sorriso mudo e no olhar disperso. Ele aceitou a oferta sem agradecimentos, apenas estendeu as mãos para receber o que lhe davam e comeu bem devagar, como se não estivesse faminto, mas comeu tudo, raspou a tigela.

Depois, o estranho esfregou as mangas da camisa na boca, retirando o excesso de gordura, levantou-se e partiu sem olhar para trás, sem dizer palavra, arrastando em marcha lenta a carroça carregada de quinquilharias. Foi indo e indo até dobrar a primeira esquina da rua e desaparecer sem revelar nada sobre si além da miséria e da fome.