Por Berilo Wanderley

Depois que o latim morreu, Rex ficou sendo o nome do cachorro. Ocasionalmente, de cinema especializado em filme de Kung-fu, pornochanchadas. Aqui em casa, Rex é nome de cachorro. Um simpático canino cor de chocolate esmaecido, proletário, sem dignidades raciais, nem sociais. Fiel e amigo, como poucos amigos de dois pés, que caminham na vertical, sabem ser.Tem um defeito: o olhar é igual ao do Francelino. Principalmente, quando olha pra gente de esguelha, muito manhosamente. Manha mineira.

Mas “Rex”, que me consta, não é mineiro. Sua política atual, quando ele atinge adolescência, está voltada para as cadelas da vizinhança, ou melhor, da rua. Prefere as da rua, isso já notei de há muito, talvez por serem mais livres e menos preconceituosas. Mal se solta da corrente, sai rasgando a grama do jardim, aos saltos, e termina por vencer o obstáculo do muro. Seu guardião, que é o meu filho Alexandre, não se conforma com o espírito boêmio do “Rex”, e, a princípio, quis deixá-lo permanentemente sob a coleira, prometendo-lhe um cardápio sempre variado. Mas a melancolia que se apossou do cão, depois de uma semana fez com que o menino abrisse mão do regime rigoroso e soltasse o bicho, vez em quando.

Agora mesmo, quando falo dele nesta crônica, lá está na fresca da varanda, espirando, atirando para mim, vez em quando seus olhares francelinos. Também vez em quando, ergue-se nas patas traseiras, encurva o corpo em arco e faz breve prática de ioga. Isso sem nunca ter lido, ao que me conste, o Prof. Hermógenes. É feliz assim.

De noite, “Rex” não se dá ao trabalho de assustar os ladrões. Dorme, tranquilamente, na varanda da casa, e deixa também, tranquilamente os donos de casa e os vizinhos dormir. Lá pela madrugada, solta uns quase metálicos latidos, saudando, talvez a aurora. Ou os pardais, que começam a aparecer para catar grãozinhos na grama.