Berilo Wanderley

Tinha dez anos, vestia calças curtas com suspensórios azuis e gostava de ficar horas inteiras a olhar as lombadas dos livros da biblioteca do pai, procurando decifrar o que mistério eles ocultariam por trás daquelas letras gordas. Todas as manhãs, depois do café com pão e leite torrado, saía por um caminho torto e estreito que ia dar no açude, maior da fazenda, onde ficava sentado sobre uma enorme pedra, a fitar os canários e galos-de-campina que vinha beber daquela água calma, ou as cobras-dágua que saíam debaixo das pedras para desaparecer sob as touceiras de capim.

O menino era feliz e, por trás dos seus olhos de um castanho muito límpido e claro, achava que a vida não era mais do que aquilo: o mistério que dormia por trás das lombadas dos livros e a claridade sem mistério dos caminhos e da placidez do açude.

Um dia, o menino viu a morte de perto. Feia e sangrenta. Um corpo de homem, envolvido em um lençol branco que tingia de um vermelho terroso mais e mais, foi trazido para a plataforma da estação de trem, e lá ficou durante uma tarde inteira, à espera do comboio que levaria para a cidade próxima, onde havia cemitério. Da janela da casa, o menino olhava com os olhos assustados o morto sob o lençol, enquanto entravam pelos ouvidos os comentários dos adultos.

A partir desse dia, o menino ficou muito calado por sentir que a vida não era tão mansa como parecia dizerem os canários e galo-de-campina na margem do açude. Procurou cifrar o mistério dos livros e leu seguidamente uma porção deles. Terminou descobrindo que o mundo é uma aventura errante e a vida um lobo feroz, pronto a engolir os que ficam parados à beira da estrada. A cada fala de um adulto, ouvia desconfiado e via em cada olhar uma vontade de domínio sobre o olhar do semelhante.

O menino cresceu, perdeu os suspensórios azuis e a limpeza dos olhos claros. O mundo continuou a ser para ele, e cada vez mais, errante e difícil. Mas, mesmo vendo que os canários e galo-de-campina já não cantam tão alegremente, ainda acha que a vida merece ser percorrida, como aquele caminho estreito e tortuoso que levava ao açude.