Por Newton Navarro

Essa é a Rosa do Tempo de Deus. Serão anjos, profetas, mártires ou simplesmente pessoas dessa cidade, que pousaram para os artistas medievais? Não importa o que sejam, agora na luz do meio-dia, quando não há nenhuma incidência mais forte sobre nenhum deles, parados no vidro, imersos na cor lilás e púrpura, ou nos macios tons de azuis profundos. Toda luz sofre a verticalidade da hora. Como que, dos mais profundos abismos, sobe o nosso clamor nos braços da pedra dessas arcadas, para os altos espaços, onde o mistério habita à direita e esquerda do Pai. Sob a grande rosácea sinto-me desarmado e pobre. Mas não sei porque, há em mim a estrutura de um grito que me arranca as entranhas e redime a humildade e pobreza. Sinto-me chamado pela mão do dia alto e por isso, minha cabeça não está pendida e enfrenta a cor dessa Rose Nord, cheia de beleza e de graça, com seus nichos e suas figuras, os rostos severos nos encaixes silenciosos, o vidro quase sangüíneo, em que se narra a força da fé e a dor de acreditar e sofrer pela Graça.

Senhora, aqui, nessa mesma hora, num instante igual de verticalidade e intensa vida, recebeste um teu poeta maior, chamado pela poesia do teu nome e tocado pela beleza do teu rosto. Recebias Claudel, no alto meio-dia de tua misericórdia. E não eras a mãe de Deus, apenas, cheia do mistério da Divindade. Eras também a Rainha dessa Cidade. Sua padroeira, sua Santa, sua regente. Pobre diante de ti, o poeta trazia somente a riqueza de sua alma. E leves são sempre as almas deles, na tua mão maternal, Senhora…

Não venho te dizer nada. Vê a minha fé dividida e a minha alma rebaixada. Vê meus olhos acesos, agora pela graça da Arte, sob a Rose Nord, da tua casa, como haverás de ver as minhas feridas mais vivas, sob o banho de luz desses vermelhos que caem do esplendor dos teus santos e mártires. Não tenho, igual ao Poeta, nesse meio-dia, nada a dizer e nem ao menos palavras para te saudar, ó cheia de graça! Vê, Senhora, como aqui estou. O meu trajar de andarilho, o meu olhar de saltimbanco – esse olhar abissal, perdido na tua nave e mais ainda a se extraviar pelos corredores de fora, em suas procelas. Mendigo de tudo, aqui cheguei na exata exaustão dessa hora de arrebatamento: porque o meio-dia arrebata. O peso dos erros nos pulsos feridos não me permite alçar um gesto.

Tua cidade, Senhora, me cativa. A que mais devo querer e servir: ao céu abobadado e misterioso da tua Casa ou ao tempo, que lá fora canta a sua canção de outono?

Ó esse silêncio que vai armando em resposta! E assim o meio-dia dissolve, enquanto a Rose Nord se inclina para o nascente, sob a pulsação de um sol frio que se vai. E o séqüito de santos, mártires e profetas, mais se aviva na glória e na graça da Senhora de Paris, que me parece receber, ao menos, na acolhida dos seus braços que se abrem iluminados pela grande rosácea…

Paris, outubro 65