Rizolete Fenandes  mrizolete@yahoo.com.br

Dia desses, enquanto remexia no baú de guardados, caiu-me às mãos um bilhete de Dona Martha Salem (artista plástica) datado de 1983, que transcrevo: Risó querida! Tenho me deliciado com as coisas lindas que seu carinho me trouxe. Fiquei apaixonada por Veneza – que nem fazia parte do meu “roteiro”…  Pronto, estavam de volta as lembranças dessa cidade há tanto tempo visitada, em meio à cuja beleza senti ganas de estar na companhia de amigos, para dividir o embevecimento! E embora me dê conta de que alguns deles começam a partir, como a própria autora do delicado texto acima, lembro que continua valendo o meu propósito de ali retornar junto com eles.

Em agosto daquele ano, depois de um mês conhecendo o sul da França, eu havia tomado um trem em Nanci para a Itália, perambulado por lugarejos como Montecatini e Vinci (que deu ao mundo o famoso artista) e conhecera a Florença dos muitos sítios históricos, entre os quais a Galleria dell’Accademia, onde perdi o fôlego ante o famosíssimo il David di Michelangelo. Depois do que, rumei para Veneza, ao nordeste do país, na Região do Vêneto. A bela cidade constitui-se de 118 ilhotas, interligadas por 400 pontes sobre mais de uma centena de canais, através dos quais barcos e gôndolas transportam habitantes e turistas. No seu centro não circulam automóveis, anda-se a pé.

Na chegada, tinha apanhado o “táxi aquático” na gare e atravessado o Grande Canal, visto a bonita Ponte de Rialto, para desembarcar na Piazza di San Marco, que extasiou meu nordestino olhar. Fazia-me acompanhar de uma amiga francesa que conhecia Veneza de carnavais passados – literalmente – e portava o endereço de uma hospedaria de custos razoáveis para o lugar onde a intensa atividade turística eleva preços à estratosfera. Somente desse modo pude passar quatro dias ali, hóspede do Allogio Betina, nas proximidades da Piazza, com fácil acesso às atrações da cidade.

Durante esse tempo, visitei o mais que pude museus e igrejas com ricos acervos de arte, de que é pródiga a cidade. Por ocasião da visita à Chiesa di San Sebastiano, decorada com afrescos de Veronese, artista que a freqüentava e onde repousam suas cinzas, deu-se algo inesperado. Apreciando as pinturas, perdi a noção do tempo, do que só me dei conta quando se fecharam as portas da igreja. Dirigi-me, presto, ao responsável pelo ato, um velho senhor, talvez aborrecido porque o horário de visitas findara, enquanto eu tentava me desculpar, pedindo para sair. Não foi sem valorizar o susto que o dono das chaves me desobrigou de passar a noite entre quadros e santos.

A Piazza di San Marco concentra a maior movimentação e é onde fica a Basílica do mesmo nome, mais conhecida igreja de Veneza, considerada exemplo da arquitetura bizantina. Ao seu lado e igualmente belo, o Palácio dos Duques, que foi sede da administração local e abriga, desde 1923, o Museo Cívico di Palazzo Ducalle, com três andares de um acervo que afaga qualquer alma: Tintoretto, Alessandro Vittoria e tantos outros. Em sala de fatos históricos, um cinto de castidade, daqueles referidos em livros. Ao vê-lo, deitei a imaginar o incômodo que devia ser para as mulheres da Idade Média, o uso da pesada peça de aço, imposta pelos guerreiros amados que iam às Cruzadas!

Enfim, os passeios pelas calçadas às margens dos canais, no anoitecer de Veneza, momentos de beleza e pura magia, para ficar gravados na memória. De um dos inúmeros cafés ou restaurantes, libando uma taça de vinho, me deleitava à passagem das gôndolas cheias de turistas e a ouvir o canto dolente dos gondoleiros, cena que me punha nostálgica. Não me aventurei numa delas, o alto preço do passeio extrapolava as provisões desta aprendiz de turista, que ficava a olhar de longe os barcos passando sob a Ponte dos Suspiros, de tão triste memória e a suspirar com tanto encantamento.

Realmente, quem Veneza conhece, jamais a esquece