Por Cid Augusto

Linda! Muito mais que nos umbrais da puberdade. Sorridente também, talvez feliz. Está feliz. Vi-a por acaso, depois de séculos, mas ela sequer percebeu-me o espanto, os suores, os rubores, os passos distraídos do homem que, meio zonzo, deixou-se dominar por um surto de infância.

Passei despercebido tanto de propósito, tanto por fraqueza de espírito. Perma-neci invisível, traduzido em megabytes, olhando… olhando… olhando a exem-plo de um voyeur aprisionado a fantasias antiquíssimas, inalcançáveis a braços humanos reincidentes em afrouxar as próprias fantasias.

Não aprendi o segredo dos nós, embora tenha sido marinheiro noutra encarnação. Manias de vidas passadas trago nas veias, esse coração tatuado pelas ondas de todos os portos. E quando me considerava aposentado das marés, eis que me lançam à deriva, descrente até das certezas.

Lembrará de mim quando em vez, nem que seja com desdém? Saberá ainda os poemas que o vento arrebatava-lhe dos lábios? Guardará nalgum compar-timento secreto o caderninho azul, seu confidente? Ou tudo aquilo, todo o passado, a distância e o tempo sepultaram a sete palmos?

Ocorreu-me a antologia de Vinícius. Que fim terá levado? De todo azar, já se fez “do amigo próximo o distante”, apesar das velhas promessas de ser atento ao meu amor, “com tal zelo, e sempre, e tanto”. Foram demais os perigos, as paixões, tantas criaturas lindas espalhando sofrimento.

E essa minha amiga distante e distraída, sem fugir da inspiração do poetinha, agora nas formas de “Uma mulher que é como a própria lua:/ Tão linda que só espalha sofrimento,/ Tão cheia de pudor que vive nua”; e eu, cansado, atraiço-ando “o humano coração com mais verdade”. Mentira!