Por Eduardo Gosson(*)

Hulimase Gosson. Hulimase em árabe significa brilhante. Nasceu em Maranguape/CE no dia 29 de agosto de 1926. Era a filha mais velha dos irmãos pertencentes a Antonio/Sofia. Aos 12 de idade já estava montada numa máquina de costura para ajudar aos familiares. Vindo seus pais para o Rio Grande do Norte em plena Segunda Guerra Mundial, aqui montou um ateliê de moda e foi pioneira no ofício de fazer saias plissadas: costurou de Maria Boa ao Dr. Januário Cicco. Quando a maternidade foi inaugurada, ela fez todas as cortinas para aquela instituição. Dr. Januário Cicco se apaixonou e propôs-lhe casamento. Certa vez declarou:  “—Ele era muito feio. E não o amava para casar”.
Quando meus  avós morreram, foi figura central em nossas vidas. Passou a ser arrimo de família. De estatura pequena, era dinâmica e autoritária: uma verdadeira matriarca. Quando falava todos os irmãos se calavam. Seu irmão José Gosson, desembargador recentemente falecido, formou-se em Alagoas, tendo sido financiado por ela. Muitas vezes ele viajava apenas com o dinheiro da ida. O da volta ainda ia apurar. Certa vez, José Gosson e seu colega de turma Ticiano Duarte, fizeram uma farra  e gastaram todo o dinheiro da volta. Para ela e para a minha segunda neta, escrevi:
Canção para Hulimase:
Hulimase
“Brilhante”  em Árabe.
Dos cedros do Líbano
para o Nordeste brasileiro.
Aqui, instalaste o Reino do Matriarcado,
amamentando a todos nós.
No eterno nascer/morrer
partiste  para o infinito.
E, como diz o filósofo Heráclito:
“-ninguém se banha duas vezes
na  mesma  água do rio”.
Entretanto,
renasces agora em  Hulimase Maria
que vem ao mundo para perpetuar
o milagre da vida
e trazer alegria aos nossos corações tão
sem esperança:
– Ave, Hulimase!

Como tudo está datado e comprimido  pelas margens, partiu deste mundo em 08 de julho de 2002 às 1h30 da madrugada,  após uma dolorosa enfermidade: câncer no fígado. Eu fui o último dos Gosson a vê-la porque, naquele dia, naquele turno, era a minha  vez  de ficar com ela (os familiares fazíamos um rodízio). As  imagens que agora ralato me acompanham para sempre: presenciei o câncer estourar e a perda total de sangue pelo ânus. O corre-corre dos enfermeiros, a UTI e a indesejada das gentes chegar. Cenas muito fortes.
Aqui na Terra só fez o bem: era generosa,  porém muito controlada.Todos que a procurava, imediatamente ela convidava para almoçar ou jantar. Dava comida e afeto. Fez um Testamento Público, deixando para os sobrinhos os seus bens. A mim deixou a tarefa de ser seu testamenteiro, o que farei com todo amor brevemente com a abertura de inventário. Anjo a nos proteger, imagino  sua chegada no Céu. Aqui peço os versos de Manuel Bandeira (a poesia é para quem dela precisa):
“Dá licença, São Pedro?
E São Pedro  Bonachão:
- entra, Hulimase!
Você não precisa pedir licença!”
Agora só comeremos seus quibes e charutos no Céu:  “-Eu não sabia que doía tanto”.
(*) Escritor e poeta. Preside a União Brasileira  de Escritores – UBE/RN