Antônio José Gosson e Sofia Hamaney Gosson (avós paternos)

 

Por Eduardo Gosson

 

Meu avô

Era libanês.

Deixou sua pátria,

Sua língua.

Transpôs oceanos,

Só não transpôs

A melancolia – levou-a

Para a Eternidade

 

                          Com esses versos começo a reverenciar a sua memória para evitar o pior – o esquecimento. Da Cidade de kartaba, durante a I Guerra Mundial trabalhou numa fábrica de doces para ajudar a família. Quando veio para o Brasil, precisamente o Ceará/RN, já veio casado com a senhora Sofia Hamaney Gosson. Moreno, queimado pelo Sol escaldante do deserto (às vezes, a temperatura chega a 50 graus durante o dia; à noite, cai zero grau), altura de 1,60m, segundo dados contidos no seu passaporte.

                        Como todo árabe, era apaixonado pelo Comércio, herança milenar que veio dos Fenícios. Primeiro, estabeleceu-se em Maranguape/CE onde gerou os seus 06 filhos: Hulimase, José, Jamyles, Elias, Francisco e Jorge. Com a vinda do seu irmão Abdon Para o Rio Grande do Norte, alguns meses se passaram quando recebeu um telegrama do irmão mais novo:

                 “- Aqui é muito bom. Venda  tudo e venha”

                    Assim o fez, vendeu tudo e veio. Ao contrário do irmão que prosperou, não teve o mesmo destino. Afinal, no Capitalismo o sol não é para todos: é preciso que a maioria caia para que uns poucos façam sucesso. É a sua lógica cruel.

                   As lembranças que tenho dele são poucas, porque quando tomou a Nau da Eternidade, eu tinha dois anos e oito meses. Contudo, lembro-me de alguns momentos: quando vinha passar o final de semana às vezes ficava de camiseta e meias quando ele passava em direção à loja (eram conjugadas) e dizia num português arrastado:

             “-Antum, ou Antum (queria dizer Antônio) e passava a mão na minha cabeça.”.                                Gostava de colecionar amigos e no final de semana ia caçar:

             “-passo a semana inteira trabalhando e quando chega o final de semana ainda vou caçar. Não tenho tempo para nada”, reclamava. Era quando sua filha mais velha retrucava:

             “-papai o senhor vai porque quer. Ninguém está obrigando”.

              Quando se fala hoje QUALIDADE TOTAL tenho que incluí-lo como precursor. Dizia sempre:

           “ -o freguês tem toda a razão”. Procurava fazer de tudo para satisfazer o cliente. Tinha a certeza que o cliente é a porta de entrada do sistema. Portanto, deveria ser bem tratado.

                    Falante, galanteador, colecionou muitas amizades femininas. Gostava muito de ir à feira das Rocas onde fez amizade com uma comadre. Após a sua morte, essa senhora apareceu com dois filhos dizendo que eram dele. Hulimase, a filha mais velha, não mandou fazer exames. Dizia:

                  “- os dois meninos eram a  cara do meu pai.” Providenciou a pensão do INSS para esses novos irmãos.

                   Minha avó, por sua vez, morreu muito jovem: 52 anos. Sofria de diabetes, que naquela época não tinha tantos recursos como hoje. Quando estava para morrer dizia para os filhos:

                “-quando eu sair deste hospital eu vou criar aquele menino”. Minhas filhas, caso eu não saia,  não o abandone.”.

                 Eu não sabia que doía tanto