Para a minha eterna amiga, sem nome, nem morada (Berlim)

Há uns trinta anos, o meu trabalho levava-me muitas vezes a Berlim e à RDA. Cheguei a conhecer bastante bem os dois Berlins e as duas Alemanhas e até a falar o suficiente para não passar fome. Também é verdade que nas primeiras duas ou três viagens ia acompanhado duma pessoa que falava bastante bem alemão.

Assim fui conhecendo os hábitos, não tão frios como se diz, a exatidão, também não tão real como eles dizem, e ver como as pessoas acarinhavam o estrangeiro de formas estranhas, mas claras. Por exemplo: durante uns anos e por causa duma importante feira que se realizava em Leipzig, calhava sempre fazer anos nesses dias. Os meus parceiros comerciais, sabiam isso e todos os anos me entregavam um enorme ramo de flores, que eu tinha que levar comigo, da feira para o hotel. Toda a gente que se cruzava comigo ficava a saber que eu fazia anos, e sorriam como forma de me dar os parabéns. Na recepção do hotel, a mesma coisa, e quando eu terminava o meu dia de vergonha, porque em Portugal não se costumam ver homens com ramos de flores e até se pensa «que tipo esquisito!», deitava-me na cama a descansar. Poucos minutos depois, batiam-me à porta para me trazerem uma enorme jarra de vidro com água, que eu não tinha pedido, e aí depositarem as minhas flores. Ao meu Danke, respondia-me a senhora com um enorme sorriso.

Comia-se muito, e quase sempre bem, na RDA. Os Eisbein mit Sauerkraut, ou seja pernil de porco que esteve em salmoura uns dias, com couves fermentadas (em França gchoucruteh) eram um exagero e um prato dava para várias pessoas, mas realmente cada pessoa recebia uma dose igual desse ou de outro prato. As cervejas eram de meio litro para cima. Uma barbaridade!

Um dia, em Berlim, convidaram-me para comer ganso assado na famosa Friederischstrasse, rua onde entre as duas guerras os alemães perdiam a cabeça e se dedicavam ao prazer puro e duro, quer fosse comer, beber, ver espetáculos e praticar todas as variantes sexuais inventadas ou por inventar. Claro que isto era para quem tinha dinheiro. Esse ambiente está bem retratado no filme «Cabaret» de Bob Fosse (1972) com Liza Minelli, Michael York e Joel Grey.

Dizia eu que, anos depois da loucura hitleriana-nazi, mas na mesma rua, convidaram-me para comer ganso assado. Aceitei imediatamente. A carne do ganso, devido à grande quantidade de gordura do bicho, aparece no prato, bem assada, com a pele estaladiça e a carne com a quantidade suficiente de gordura, que a faz saborosa sem chegar a ser enjoativa. Foi a minha estreia de ganso assado no forno. Vinha acompanhado de maçãs e ameixas secas que faziam o recheio, e as inevitáveis batatas assadas. A batata é omnipresente na Alemanha.

Quando passeava pela famosa Avenida Unter den Linden (Debaixo das Tílias), que vai direta à porta de Brandenburgo, que toda a gente já viu na televisão, reparei que muito perto, num anúncio redondo, no tecto duma casa isolada, se lia Berliner Ensemble, ou seja a casa que a RDA deu a Brecht para residência permanente da sua companhia, além de um teatro para mostrar as suas obras. Comprámos dois bilhetes (ia com o tradutor) e fomos ver «A ópera dos três vinténs», onde actuavam descendentes de Brecht e da sua mulher Helene Weigel e onde todos os actores transmitiam uma força enorme quer falando, quer cantando. E que bem cantavam a música de Kurt Weil!

No intervalo fomos para o átrio onde havia uma banca para comprar coisas relacionadas com o teatro de Brecht. Vi o cartaz que Picasso ofereceu à companhia, uma pomba azul tão simples e bela que emocionava, rodeada de palavras como uma moldura. As palavras eram «Berliner Ensemble» repetidas várias vezes. À minha frente estava uma moça duns vinte anos, corpo franzino, cara angelical, olhos azuis, pele branca e cabelos dourados, que comprou um cartaz. Senti logo simpatia por ela. Eu pedi o mesmo e a empregada disse-nos que o último tinha sido vendido à moça que nos precedeu. Fiquei triste.

Tocou o sinal de que o espetáculo ia recomeçar, sentamo-nos, e eu, com o meu eterno vício de ver pessoas, virei-me para trás e, no meio dos assentos cheios, vejo-a. Olhamo-nos, menos tempo do que leva a contar e apagaram-se as luzes. A peça terminou, saímos, não sem que antes eu deitasse uma olhadela à banca, onde a empregada me fez logo um «não» com a cabeça. Paciência, disse para mim, mas realmente estava triste. Quando tínhamos andado uns cinquenta metros, vi a minha amiga desconhecida, parada com o cartaz enrolada na mão. Dirigiu-se a mim e disse-me: «Ofereço-lhe o cartaz, porque vi que não o conseguiu comprar». Disse isto com um ar muito sério, como se me tivesse roubado ela o cartaz. Protestei, que não queria, que talvez dentro de uns meses voltasse ao teatro e poderia comprar um para mim. Ela estendeu o braço determinado na minha direção e eu aceitei o cartaz. Uma leve névoa apareceu no ar enquanto nos olhávamos num silêncio que pareceu durar horas, mas que realmente foram dez ou quinze segundos. Convidei-a a tomar um café e conversar uns minutos. «Obrigada mas é tarde, tenho que voltar a casa. Guarde o cartaz como sinal do nosso comum amor por Brecht». Começou a correr enquanto nós ficamos parados a vê-la desaparecer na noite.

Não foi fácil adormecer nessa noite.