Públio José – jornalista

(publiojose@gmail.com)

  Todos nós enfrentamos momentos difíceis em nossas vidas. Muitos – a grande maioria, por sinal – tendem a interiorizar seus problemas e vê-los bem maiores do que são na realidade. Tais pessoas costumam transformar suas dificuldades em inimigos tão difíceis de enfrentar e vencer que a saída, na maioria das vezes, é procurar o isolamento como forma de refrigerar o sofrimento e diminuir a intensidade da dor. Na verdade, buscam cavernas interiores onde possam se esconder e deixar a borrasca passar, ao invés de se instrumentalizarem para a luta, cultivando dentro de si as armas necessárias ao enfrentamento dos problemas. É natural esse comportamento, o que não quer dizer que seja o mais recomendável. Todos nós, em alguma circunstância de nossas vidas, habitamos cavernas. Já certas pessoas passam a viver nelas um tempo longo demais, diminuindo, com isso, a sua capacidade de luta.

                   A caverna pode ser até salutar quando o tempo nela vivido é utilizado para meditação, renovação de forças e cultivo de uma nova esperança. Fora disso é fuga, covardia ou a perda da capacidade de reagir, de lutar, de transformar momentos difíceis em aprendizado, capacitação. Muitos personagens ilustres se utilizaram, ao longo da história, de cavernas como forma de superar realidades indigestas. Freud, por exemplo, carregou em seu interior um longo período de tristeza pela morte de um neto. Foram anos sofridos, vividos, em grande parte, em cavernas, das quais saía, de vez em quando, para prosseguir na luta do dia a dia. São também notórios os casos de escritores, artistas, intelectuais, personalidades ilustres que, de tanto buscarem nas drogas uma caverna segura para suas aflições, vazios existenciais – e até inspiração – terminaram sucumbindo a essa nefasta convivência.

                    Entre os famosos, Jesus Cristo foi um craque em usar a caverna de maneira produtiva. No Jardim do Getsêmani, momentos antes de ser preso, utilizou-se esplendidamente desse instrumento de reclusão como forma de se fortalecer interiormente para enfrentar – e vencer – as horas difíceis que teria pela frente. Na solidão do ambiente, em permanente contato com Deus, através da oração, Jesus travou dentro de si uma batalha tão dolorosa que chegou a suar sangue. A beleza desse instante está em que seu sofrer não acontecia por nenhum problema criado por ele. E sim pelo preço que teria de pagar pela cédula de dívida que tínhamos com Deus por conta dos nossos pecados. Após a intensa introspecção, Jesus saiu do Getsêmani fortalecido interiormente para enfrentar a prisão, o julgamento e a morte. A caverna serviu, assim, para meditar, renovar suas forças e cultivar uma nova realidade.

                     Realidade que se concretizou no advento da ressurreição. Pois eram nesses instantes de isolamento, no recolhimento interior utilizado principalmente para o contato com Deus, que Jesus encontrava lenitivo para suas dores e revelação dos fatos que viriam a seguir. Ele, portanto, utilizava-se da caverna na busca das explicações para as dúvidas e incertezas que, por ventura, surgissem em seu caminho, e também na correção dos rumos no seu relacionamento com os homens. Assim, a caverna era um elemento altamente valioso na arrumação interna de suas emoções e no planejamento futuro de sua rotina. Conclui-se, então, ser muito difícil não habitarmos cavernas ao longo de nossas vidas. A questão é saber o uso que estamos fazendo dela. Se ela está nos retemperando para vitórias futuras, ou nos levando ainda mais para o fundo do poço. Aliás, agora mesmo, você está dentro ou fora da caverna?