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Natal, 5 de Janeiro de 2012
Meu Caro Amigo e Presidente Eduardo Gosson,

Desde que nos conhecemos você deixou em mim uma forte impressão de que eu tinha encontrado mais uma dessas pessoas raras de sensibilidade, cultura, inteligência, simplicidade e humanismo. Mas rara também pela serena e sábia firmeza com que defende, sem concessões, aqueles valores e princípios imutáveis, permanentes, como o amor, a ética, a moral, a justiça, a verdade e a razão que, embora sendo alguns destes valores e princípios relativizáveis de acordo com os contextos culturais, históricos, de tempo, lugar e origem, não deixam, por isso, de serem valiosos e permanentes, nesta sociedade individualista, egoísta, hedonista e consumista do descartável. TINHA ENCONTRADO O POETA NA SUA ESSÊNCIA !

Infelizmente, encontramos demasiadas pessoas que confundem Valores e Princípios Permanentes com “Princípios transitórios”, e já dificilmente encontramos pessoas como você, que logo num “retrato à la minute”, evidenciam uma transparência, uma sinceridade e uma coerência rara. É de pessoas assim que este nosso mundo psicopático (como diria Alexis Carrel, no “Homem esse desconhecido”) precisaria em maior número para ser mais habitável, e é de pessoas assim que eu tenho, desde muito cedo, procurado encontrar (como me aconselhou meu pai), para com essas pessoas partilharmos identificações e comungarmos valores comuns e, com isso, irmos acumulando o maior e mais valioso e sempre cada vez mais valorizável “Patrimônio de Afetos com Pessoas humanamente valiosas”, que é a maior de todas as fortunas, que resiste a todas as crises, à erosão do tempo, da distância e da ausência e, ainda assim, continua a valorizar.

Vêm estas minhas considerações prévias a propósito da forma como, em palavras e atitudes, o meu caro Eduardo, enfrenta as suas grandes vicissitudes da vida – as pessoais e as que se ligam às pessoas que ama, sejam parentes ou amigos. É por demais evidente a forma altruísta em que Eduardo Gosson está na vida, dando de si o melhor aos outros, com amor, enfrentando tudo corajosamente e sem desfalecimentos, mesmo quando as intensas dores poderiam paralisar qualquer um.

Foram duríssimas e grandemente intensas as suas perdas, em espaço de tempo tão curto, mas o modo como as tem enfrentado é grandioso e sublime. A sua decisão de escrever uma crônica sobre cada um de seus tão amados familiares, como forma de os manter vivos na memória, porque, como você diz, o esquecimento é o grande abandono e, como diria Brecht, “a indiferença é o maior dos crimes”, essa sua decisão, publicamente assumida, é um ato de sublime grandeza do Amor.

SAUDADES? Certamente muitas! Mas como disse Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), na Ode Marítima; “…Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão, … Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! …”

Mas Eduardo Gosson, é herdeiro duma rica e ancestral cultura, ele é como o sólido cedro do Líbano, com que se construiu o mítico e lendário Templo de Salomão e, como diz o dramaturgo espanhol Alejandro Casonana na famosa peça “As Árvores Morrem de Pé”, ele, Eduardo Gosson, é como essas arvores, esses fortes cedros do Líbano que Morrem de Pé.

Bastará, para exemplificar a natureza do carácter nobre e forte de Eduardo Gosson, que cite desta sua primeira Crônica dedicada a seu pai, e para ilustrar esse seu poder de sublimação. Logo no título pungente de sinceridade exposta, do homem simples e grandioso, do verdadeiro Poeta que se desnuda nas suas emoções, sem mais palavras vãs, apenas com as palavras exatas que lhe vieram como título para a sua Cronica, palavras que vêm lá de dentro do seu fundo, onde mora seu Amor: “EU NÃO SABIA QUE DOÍA TANTO!”
Eis, o que dizia Eça de Queiroz no subtítulo da “Relíquia”…”sobre a nudez forte da verdade – o manto diáfano da fantasia”. Mas Eduardo Gosson logo se afirma como esse forte cedro do Líbano, que mesmo muito dorido, não desfalece em resgatar a memória dos que muito amou e se foram lá para o Oriente Eterno, onde nasce o glorioso sol. Diz Eduado Gosson:

“…Passarei a falar sobre cada um deles porque é preciso sarar o luto, enterrar os mortos e evitar o esquecimento.”

Ao ler, emocionado, esta expressão, ocorreu-me logo o que disse uma das mais fortes personalidades e um dos mais brilhantes estadistas e governante da história de Portugal, que por ver o estado de atraso de Portugal no Século das Luzes, o Marquês de Pombal, então poderoso Primeiro Ministro, do débil D. José I, manipulado pelos excessivos poderes acumulados dos privilegiados, se viu obrigado a se assumir como Ditador Esclarecido face à incapacidade e incompetência do Rei D. José I, aos abusivos privilégios e poderes concentrados de uma nobreza parasitária, a um poder indiscriminado dos jesuítas da Companhia de Jesus, a uma cruel Inquisição que se impunha ao estado, e ao contra poder dos judeus que dominavam toda a economia e finanças, monopolizando-a e que exigiam obter imorais benefícios da reconstrução da cidade e resto do país.

Perante este contexto e as graves consequências de um dos mais terríveis Terramotos da história da Europa, que atingiu mais Lisboa, mas também outras cidades, e ocorreu às 9,45m do dia 1 de Novembro (Dia de todos os Santos) de 1755, face à dor e ao profundo abatimento da Corte e do Rei e da pequena parte dos sobreviventes da cidade de Lisboa, totalmente destruída em 2 terços, pejada de uma população de mais de 60.000 mortos, numa população de 250.000 habitantes, fez calar o seu próprio choro e o choro colectivo dos sobreviventes, respondendo à patética pergunta do Rei – “E agora ?” – com a sua célebre frase, que demonstrou a sua dimensão e firmeza e virou imediatamente, ação, Lei e Ordem:

“Agora é preciso fazer o luto, começando já a enterrar os mortos, a cuidar dos vivos, e reconstruir a cidade, resgatando as suas memórias!”

Eduardo Gosson é assim, um desses homens raros, inspiradores, exemplares, com tanto de doçura afetuosa e de apego ao amor pelos outros, quanto é aquele forte cedro que enfrenta todas as erosões, todas as tempestades e, com firmeza e objetividade, embora “doendo muito”, segue em frente, preenche os vazios com o resgate das memórias, faz o luto, continuando a eterna construção, sempre inacabada, do SER e do FAZER, e como os cedros gigantes, “Morrerá de Pé”, só como metáfora, porque HOMENS ASSIM, NUNCA MORRERÃO!

E eu não precisei de muitos e longos anos de convivência e amizade para disto ter a certeza. Basta-me constatar a transparência e a postura assumida em duas ou três atitudes e posturas fortemente definidores de alguém, para poder aqui e agora concluir este meu comentário, confessando:

Eduardo Gosson, você, amigo, é uma lição de vida e sempre me emociona por aquilo que é o seu modo de SER, ESTAR e FAZER !

Receba um solidário e afetuoso abraço, com a admiração do
Carlos Morais dos Santos
Membro do Conselho Consultivo da UBE-RN