“ A UFRN na pessoa do seu reitor dr. Ivonildo Rego, professores, funcionários e alunos.

Perdi horas de sono e de sossego tentando entender a razão de tudu isso.

De primeiro, cuidei ter sido pelos descaminhos dos homens neste mundo de ranger dentes, desassossegado que nem as ondas do mar. Depois, quem sabe, o afago de vosmecês, no adeus desse meu imerecido viver. Sei lá(?). É que a balança do julgamento dos amigos costuma ser manca.

E não é astúcia, pantim, nem cavilação pois o que botei no papel foram apenas momentos do dia-a-dia do nosso sertanejo.

Convivi com alguns deles debaixo das mesmas telhas – tenho repetidamente confessado.

Mestre Pedro Ouvires e seu filho Chico Lins – magos do couro, zelosos e ranzinzas, da escolha do couro-verde ao derradeiro nó-cego da costura. Ramiro e Bonato Dantas, pescadores dágua-doce e memorialistas. Zé Lorenço, tora de homem, analfabeto, cujos instrumentos de trabalho se resumiam em um nível de pedreiro e um novelo de cordão. Pois bem, apenas com ele, levantou 640 metros de parede do açude Lagoa Nova sem deixar um cálculo nem uma barroca. O que deixou o engenheiro do Dncos de queixo caído.

Olinto Ignácio, rastejador e vaqueiro maior das ribeiras do Camaragibe. Vi, um dia, ele se acocorar na beira do caminho e ler no chão da terra: “ – passou fulano, beltrano e uma menina. É que a gente dessa terra tanto faz eu espiar a cara cumo o rastro… E todos já envultados com a Caetana”.

Daí eu repetir é mais deles do que meu esse título.

Mesmo assim:encabulado, areado e zonzo tenho de confessar: – não sou soberbo nem ingrato.

Agradeço a vosmecês, mais ainda, ao doutor reitor – sertanejo das terras de Pôr-do-Sol – onde, naqueles ontens os condutores das boiadas ferravam o tronco de um pé-de-pau onde se arranchavam. Coisas de um sertão de nunca-mais. Tempos do imperados velho. Mas isso é outra conversa.

Boa noite. Façam, agora como manda aquele menino: batam palmas com vontade, faz de conta que é turista…”

Fonte: Diário de Natal/ O POTI – pág.06. 20/11/2005

Discurso proferido por Oswaldo Lamartine ( 1919 – 2007) por ocasião da entrega do título de professor “ Honoris Causa” da UFRN.