Prêmio Literário Nacional Joaquim Cardozo

( Discurso na União Brasileira de Escritores )

 

Bartolomeu

Correia de Melo

 

“No entanto, quem me descobre,

eu que sou triste e sou pobre,

vai me achar bem desigual.”

Joaquim Cardozo

 

NAQUELES quandos de quando somente os dizeres aliviam o ardume dos pensares – ano sim, oito não – batia vontade de escrever. Então, quietinho num canto, feito menino surrado, escrevia; escrevia como cochichando desabafos. “Umas linhas de tinta amorosa, de tinta sincera e banal.” (1) Porém, os aboios da vida tangiam pra outros que-fazeres, obrigando a engavetar tais rascunhadas fantasias. E assim, escrevivendo, aforei trintena de anos. Acomodado a vasqueiras alegrias, benvindas mas passageiras, que nem chuvas-de-caju.

Sou daqueles acanhados, que se satisfazem por escrevinhar pra seus próprios olhos, contando coisas do seu próprio umbigo. Nunca palpitei que alguém, não sabedor dos meus jeitos, chegasse a apreciar e preferir minhas estórias. Muito-que-muito honrado fico, por tal dote de valia; bem maior do que me atreveria a merecer. Assim, regavo e alardeio todo louvor de minha sempre obrigada gratidão.

Hora destas, aqui assim perante, me ponho meio encabulado, quase medroso em dividir quantos sentires. Embora agradecido e carinhoso, desconjuro dos amigos que nisto me atiçaram. Mas tudo de bom tem seu pior: Agora, todo-mundo aqui esperançando de escutar minhas sabenças. Não fosse um enorme respeito por esta casa, disto me escafederia, jurando deslavado algum malentendido.

Nada mais sou que um contador de estórias; não muito desigual de tantos, que nunca tiveram vez de assentar em papel suas doces mentiras.

 

Conversas compridas são parecidas!…” Diz Chico Piaba, cristão nascido e aprendido nalgum lugar de estórias. Pois, justo cuidando neste dito – assim destraquejado pra oratórias – nem-sei-que-diga. E cá então me eis: “Entre o gesto e a palavra, território onde as idéias se escondem e os pensamentos se perdem.” (1)

Não que não tivesse algum porém a referir. Só que seriam assim coisas bem minhas, eu mais prosista do que prosador. Pois, sendo doutras lavras e leituras, meus saberes comuns aqui não bastam. Mas tenho ciência duma verdade enxuta: “Escrever de Joaquim Cardozo só pode quem conhece…” (2) E além de minhas securas – tão esquisitas que me desagüento – somente malinformo quanto a métricas de átomos e ritmos de moléculas. Belezas outras que, neste agora, talvez ficassem meio descabidas. Afinal, não tenho mestrias de calcular poemas em concreto nem consigo luzes pra bem-comparar treliças de ponte com rosas de ferro.

Mas, embora diversos, em prosas ou versos, gentis ou perversos; todos gostam, todos mostram seus escritos. E se cada escrever tem sua receita, da minha não faço segredo: Talvez, por obra do velho ofício de boticário, me resulte prazeroso misturar tinta e papel com sonho e saudade; das minhas mais gratas “sustanças.” Tais porções de espírito, mesmo assim tão desafins, findam ligadas nas muitas fervuras vividas. E desta desusada combinação, aqui-acolá, decanto estórias; meio cruas mas quase puras. Afianço que santo remédio pra quantos crônicos pesares. Pois que, agindo no fundo do peito, depuram humores anêmicos e desentrevam emoções reumáticas. Pondo crença em simpatias, bastam quinze pingos, em água de quartinha serenada – gosto limpo de infância – benzida por cantos-de-galo dalgum já longe amanhecer.

Que tipo de escritor seria? Resposto sem pedância: Não me decifro quando penso, nem me destrincho quando escrevo. Só sei que letrado nas letras não sou. Nem modernista nem regionalista; sou abecedista. Na minha província natal, de cada esquina um poeta, de cada rua um jornal, diz-que cientista está mais pra louco que pra intelectual.

Assim, não me arvoro; quem nasce artesão não morre artista. Meus toscos escritos não escondem mensagens, apenas contam. Não mostram beletrices, apenas contam. Não revoejam metafísicas nem ruminam filosofias, apenasmente contam. Tudinho estórias do meu lugar, nos falares da minha gente; quase nada restando de minha real pertença. Apenas recolho palavras de engenho, brotadas no aceiro das conversas, como flores sem dono beirando caminhos. Estórias com começo, meio e fim; dando pra rir ou chorar, que nem as coisas bestas deste mundo. Estórias ditas compridas pra curtos gostos de agora. Talvez espichadas assim no justo tamanho das puídas esperanças dos seus moradores.

Quem lendo sentir boniteza, inveja não sentirá.

Conto casos, como conta o povo; no velho estilo de antigos contares, que os modismos nunca encantaram. Pois que conta com jeito formoso, nos repentes sestrosos dos como-dizeres; singelos mas precisos, como versos de Joaquim Cardozo: “Em vez de dizer: falar, prefiro dizer: cantar. Um canto triste e fecundo.”

Povo conta como entoa seus cantares, na riqueza lírica das suas rimas pobres. Contares lavrados na franca linguagem do meu recanto – chão de poetas – lugar bonito onde o verde é sentimento. Entalhe caprichoso de palavras que se bastam, sem nada carecer comprar dos gringos. Linguajar livre e sadio que, por desilustrado, sobrevive assim teimoso; ignorando o vai-e-vem dos quantos “ismos”. Aliás, parecendo malagouro, não conhece nem padece da finura sonsa de tais fins-de-palavra. E sendo assim, por natureza, como graça descuidosa de criança malfalando, nossa língua nordestina periga na desgraça do desprezo. Finar-se desfigurada, à míngua de ternuras, pela peste finória do neoliberalismo. Pois, cantando a aldeia-global, qualquer macunaíma vira universal, desaprendido de escrever em brasileiro português.

Aqui, por sorte trazido em mãos amigas, assim diante de tão lordes presenças, muito me regalo e envaideço. Se bem que, feito cambiteiro em salão de casa-grande, no descostume de recitar mesuras, por vezes quase-quase me abestalho. E pra não fazer feiúra, até que me valeria da manhosa singeleza do pouco falar. Talvez, pra parecer mais sabido ou, por tão insosso, sem malbondades. Pois, quase calando, nem diriam que qualidade de falastrão papa-jerimum andou por estas bandas com pantins de escritor. Mas, agora é tarde; findei demasiando o palavrório. Já desconfiam que igualmente me queixo de useiros cacoetes e vezeiros maldefeitos. Rogo assim que relevem meus tronchos badalares. “E que de tanto dizer fique o silêncio, que é cinza das palavras e que vence o surto de inverdades tentadoras.” (1)

 

Recife / 1998