Hão de compreender muitos quantos aqui se encontram, sobretudo os membros eminentes do Pen Clube do Brasil, — expoentes nos diversos setores da cultura brasileira, em que se situam, — a emoção de um escritor nordestino, escolhido e trazido por vossa generosidade a integrar os quadros de uma instituição como esta, de raízes e projeção internacionais. Esta emoção e esta gratidão são tanto maiores pela circunstância de vir a juntar-se meu nome aos de alguns ilustres conterrâneos norte-rio-grandenses, como os de Seabra Fagundes de Menezes, Umberto Peregrino, Renard Perez e Ivone Miranda, aqui presentes, não convindo esquecer a memória de dois outros já desaparecidos, o escritor Peregrino Júnior e o poeta Homero Homem.

Minhas senhoras e meus senhores.

Todos os norte-rio-grandenses hoje, que temos um destino literário, possuímos, igualmente, uma espécie de patrono tutelar, a ser sempre evocado, sobretudo como no meu caso pessoal. Em momentos como este. Refiro-me a Luis da Câmara Cascudo, a cujo nome a cuja obra, particularmente, tenho dedicado, na medida de minhas possibilidades, em estudo e divulgação, tanto do que representou como do que produziu, como folclorista, como etnólogo, como antropólogo, como sociólogo, como historiador, como professor, em suma a tudo quanto pode ser qualificado como ciências do homem.

Dois livros, assim, a “Viagem ao Universo de Câmara Cascudo” e “A seleta Câmara Cascudo”, conferencias, discursos e ensaios sem conta, esparsos em publicações diversas, procuram refletir a admiração, o apreço, o respeito e mesmo a veneração, diria, afinal, pelo bom gigante da Avenida Junqueira Aires, “morto”, hoje, é certo, mas na adaptação que conduz a lembrar uma frase celebre de certo personagem histórico, em determinado episódio dramático, da vida política francesa, “parece maior que vivo”.

Falo assim, em dois livros, envolvendo tanto a vida como a obra de Câmara cascudo. Mas as atividades literárias de cada um de nós tem, às vezes, as suas surpresas e os seus descaminhos. E é assim que me refiro aos livros “A Biblioteca e seus Habitantes” e “O Comércio de Palavras”, este ultimo já com dois volumes publicados e o terceiro em fase de impressão.

Em seu livro “De Dúplice Copia”, Erasmo recomendava “Ler sempre com um lápis na mão”. E acentua, a propósito, o ensaísta francês Antoine Compagnon, que esta frase resume todo o ensinamento da Renascença.

“A Biblioteca e seus habitantes” resultou desse habito de ler anotando frases e textos. Daí a circunstancia do livro se haver constituído numa espécie de chamada geral, de convocação também, pela memória, de tudo quanto lido e anotado, para a tessitura desse autêntico tapete persa da historia das mil e uma noites. Quando releio, hoje, ao acaso, páginas de “A Biblioteca e seus Habitantes”, chego a surpreender-me de tê-lo podido construir em tais dimensões e perspectivas, pedra por pedra, chegando à conclusão que se trata de uma obra sem possibilidade pra mim de repetição da façanha.

“O Comércio das Palavras” além de ter resultado em volumes menores, diferencia-se do anterior no registro dos temas, na armação dos textos e dos episódios, — embora o sentido de extrema afinidade com a obra anterior e a ampla visualização do universo literário.

Na preparação desse livro, sempre me aprecia como difícil e complexo um título abrangente e expressivo. É quando me acontece o encontro com o livro de Leon Daudet, intitulado “Le Voyage de Shakespeare”. Repito-vos, aqui, essa historia, que se encontra na abertura do volume, porque ela define magnificamente o sentido, a natureza do livro. Quando o jovem Shakespeare – exatamente aos vinte anos – decidiu abandonar a família, em Londres e, dominado pelo espírito da aventura, embarcar num brigue de contrabandistas, que faziam seu comercio numeroso e diverso, em portos escandinavos, holandeses ou alemães do Mar do Norte, — na primeira noite de viagem se viu convocado à cabine do comandante, como os demais passageiros, para um contato de apresentações. Foi, então extremamente rápido o seu dialogo com o comandante Blacknaff;

–“Como te chamas, camaradas? Indagou o comandante.

– “Willian Shakespeare, de Stratford on Avon.

– “E o que é que tu fazes? Prosseguiu o comandante.

O leitor do livro percebe então, o que se passou, como um relâmpago, no cérebro do jovem inglês. O que ele então estava começando a fazer eram pequenas peças de teatro, inventando ou recriando personagens, improvisando situações, articulando textos e diálogos, sobretudo. Precisava, sobretudo, ligar essa atividade intelectual a um sentido prático, e de algum modo ligado às atividades de mercância e lucro dos demais companheiros de viagem. Comunicação literária e dramática, sobretudo, também deveria ser comércio, — teria refletido, num ímpeto o jovem inglês. Então, tranquilamente, respondeu, à repetição da pergunta pelo comandante:

– “O Comércio de Palavras”. “Meu pai fazia o das lãs”.

Conclusão maliciosa do comandante Blacknaff: — “Ah! Farsante,

vejo que tu és um preguiçoso palrador. Daí esta tua calvície precoce”.

Termina aqui o episódio shakespeareano. Mas uma indagação, uma reflexão impertinente restou no meu espírito de leitor: — “que fazemos todos nós, grandes escritores ou poetas ou pequenos escribas provincianos, mesmo nós professores, de maior ou menor projeção, — quando falamos ou lançamos no papel a nossa pequena prosa a nossa modéstia poesia, como Deus e a natureza no-las deram? E desejamos e procuramos transmiti-las aos outros, da mesma maneira que procuramos nos outros, tantas vezes, respostas às nossas indagações e às incertezas? Comunicação é comércio, insisto no nobre sentido desta última palavra.

Pedindo perdão aos manes de Shakespeare, mas com a maior sem-cerimônia brasileira, trouxe-lhe a resposta magnífica e insubstituível para a capa nordestina do livro provinciano, “O Comércio das Palavras”. Para esta atitude pretensiosa, tenho apenas uma explicação, é contar humildemente como faço agora; todo o episodio fabuloso.

Meus senhores e minhas senhoras.

Numa oportunidade como esta, tão significativa, muito me apraz evocar também o nome e a obra do maior romancista do Rio-Grande-do-Norte. Aurélio Pinheiro, que escolhi, aliás, numa oportunidade propícia, patrono d eminha cadeira a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras.

Médico e escritor, viveu e trabalhou em varias regiões deste nosso país. Seu primeiro romance, “O Desterro de Umberto Saraiva”, de 1926, foi editado na livraria Clássica, de Manaus. A este se seguiu “Gleba Tumultuária”, editado igualmente em Manaus, e na mesma editora, em 1927, “A Margem do Amazonas” é de 1937, editado pela Companhia Editora Nacional, integrando a coleção “Brasiliana”, volume 86. Segue-se “Em busca do Ouro”, publicado pela editora “A noite”, em 1938, do Rio de Janeiro. E enfim, o romance “Macau”, sem data na página apropriada, mas certamente também 1938, pela Andersen Editora, Rio, com 2ª edição pela Fundação José Augusto (de Natal) e presença Editora (Rio, 1984).

Quando “Macau” foi publicado não teve a repercussão merecida. Daí o reparo do critico Agripino Grieco, temido e respeitado pela sua autoridade literária em todo país. Ao romance “Macau”, assim se referiu, entre elogios nos seguintes termos: — “de outros romances se tem falado de mais, deste se tem falado de menos”, exprimindo assim, sua estranheza pelo quase silêncio com que a critica o recebeu. Aurélio foi e continua o maior romancista do Rio Grande do Norte. Trago-lhe aqui, mais uma vez as minhas homenagens e o meu respeito.

Outro escritor potiguar de minha admiração e de minha devoção particulares, que igualmente recordo aqui é Otacílio Alecrim, filho da cidade de Macaíba, líder de sua geração na Faculdade de Direito do Recife, no final da década de vinte e começos da de trinta, cujo grande livro “Província Submersa”, de espírito e emoção renanianos, — estudante símbolo e expressão de seu tempo, — tempo revolucionário na política e nas letras, pelo talento, pelo espírito e pela verve, a quem o provecto professor Luis Delgado chamava “o espantoso Sr. Otacílio Alecrim”, e que, em 1948 (chamo vossa atenção para este detalhe aqui neste ambiente tão significativo), faria em Paris, uma conferencia sobre Proust no “Pen Clube” da França, de que era associado. De sua memória falo longamente sobre o 1ª volume de “O Comércio das Palavras”, num grato testemunho de sua personalidade, de sua condição humana invulgar.

Cabe-me, a esta altura, já no final do caminho desta oração protocolar, agradecer ao Pen Clube do Brasil, sobretudo na pessoa de seu presidente Marcos Almir Madeira, a honra que me foi conferida, da integração de meu nome no quadro social da instituição. Professor universitário, advogado de relevo profissional e pessoal, ligado aos mais altos órgãos da educação e da cultura do Rio de Janeiro e de outros setores do país, sua condição de homem de Letras, romancista e ensaísta, certos aspectos da obra e da personalidade de Machado de Assis e de Euclides da Cunha foram por ele estudados, bem como de alguns estrangeiros, como Victor Hugo, Fernando Pessoa e Garcia Lorca. Seu último livro, “”Homens de Marca”, revela, igualmente, o observador e o analista atentos de nossa realidade brasileira, com projeções de alcance psicológico e humano indiscutíveis.

Marcos Almir Madeira, com sua experiência, igualmente, de organização das mises-en-scènes adequadas, escolheu para saudar-me, nesta oportunidade, a escritora e poetisa Heloísa maranhão.

Heloísa é carioca de nascimento, como sabeis e também de vivências literárias e pessoal. Suas origens e suas raízes, no entanto, se encontram no Rio Grande do Norte descendente que é da antiga ilustre estirpe dos Albuquerque Maranhão. Sua linhagem familiar remonta assim, aos tempos bravios da conquista da terra. Há portugueses e índios nas distancias coloniais de sua família. Jerônimo de Albuquerque é tanto um índice histórico como uma referencia familiar, inconfundível às gentes do Rio Grande do Norte.

Neta de Pedro Velho, o fundador da República no nosso Estado, sobrinha-neta de Alberto Maranhão, cujos dois mandatos honram e enobrecem a província potiguar, — é de acreditar-se que sempre lhe foi presente ao espírito e à natureza humana aquele sentimento que Nabuco denominava “o arroxo do berço”. Basta ler seu livro “Florinda”, — sua aventura e sua saga especificamente norte-rio-grandense, — essa, ou seja, uma viagem a Natal, transformada literalmente num itinerário sentimental, — páginas que vivem e repercutem além do texto escrito, para vê-la e senti-la em sua verdade interior, ao contato e no contexto da terra e da gente ancestrais.

ANTES DE “FLORINDA”, Heloísa escreveu, ainda em 1979, o romance “Lucrécia”, publicado em 1985, pela editora Civilização Brasileira, e livro premiado pela Academia Brasileira de Letras. Por essa época ela teve um de seus contos publicados na Holanda, após uma seleção internacional dos 19 melhores contos de autoria feminina do ano.

Tive e tenho agora, novamente, nas mãos e sob os olhos todos os seus romances: –“Castelo Interior e Moradas” (1979), “Florinda” (1981), “Dona Leonor Teles” (1985), “A Rainha de Navarra” (1986), “Adriana”, (1990). Todos participam, nos seus textos, dessa condição mágica que é a sua marca pessoal de escritora, de seu estilo plástico e envolvente. E só Deus sabe (nem mesmo ela, presume-se) o que se está elaborando permanentemente em seu cérebro inquieto e visionário, em sua ardente e fina sensibilidade. Há sempre qualquer coisa de feérico, de alegórico, nas suas historias, conduzidas por belos impulsos criadores e irrecusáveis. Depoimentos de valor e de crédito sobre sua obra não faltam: ai estão os de Tristão de Ataíde, Antonio Carlos Vilaça, Reinaldo Bairão, Virgilio Moretzhom, por exemplo.

Resta-me, agora, neste final, agradecer a presença dos conterrâneos amigos que, aqui, vieram prestigiar a cerimônia da minha posse. Essas presenças muito me comovem e me trazem ao espírito e ao coração o sentimento da terra comum.