Discurso do Paraninfo das turmas concluintes do Centro de Ciências Exatas da UFRN. Prof. J. BARTOLOMEU CORREIA DE MELO, Coordenador do Curso de Química, na Solenidade Conjunta de Colação de Grau, em agosto de 1992.

Era uma vez, não faz tanto tempo, um país pobre e ignorante mas ainda risonho e franco. Lugar informal como pelada de praia, displicente como pagode de boteco. Nação assim vira-lata, sem orgulhos de origem, requintes de passadio nem luxos de caráter. Sua crença no trabalho e na justiça era frágil e confusa, embora nunca chegasse ao desespero cínico. Sabendo extrair graça da própria desgraça, sofria uma história nada exemplar, mas com chance de final feliz. Pois mesmo não tendo fama de séria, tinha carisma de pátria.

Terra assim de clima preguiçoso, temperado de malícia bastarda, feito conversa morna de camelô. Soprava d’além-mar uma simpática brisa de esculhambação venial. Vinha das matas um cheiro de marotices inócuas. Chegava das serras um murmúrio de safadezas quase indolores. De vez em quando, palavras vazias prometiam encher panelas, vergonhas escorregavam das caras para os bolsos… Porém, não era somente no jogo do bicho que valia o que estava escrito. Sacanagem era palavrão; malandragem, não.

Os velhos lembravam de tempos piores, os jovens improvisavam dias melhores. O povão ruminava os seus sonhos, baratos e sem atalhos, de quase respeitável singeleza. Anseios usados, mas nunca abusados, por barões, cartolas e bicheiros. Com calma gingada no andar e fé cabreira nos santos de barro, ia-se levando. Aqui-acolá, dava-se um jeitinho: De haver mais jovens na escola que na cadeia, mais fartura nos espíritos que fome nos olhares. Então, havia mais desejo os nos carinhos, mais verdade nos sorrisos, mais certeza nos abraços. Competência escanteava conveniência, inteligência driblava esperteza e todos findavam levando seu quinhãozinho de vantagem.

Euforia mesmo tinha a duração de um carnaval, pois tudo demais enjoa. No restante do ano, sobrava somente um otimismo ingênuo de copa do mundo, que ainda sempre dava para os gastos.

A gente humilde quase não tinha com quem contar. Mas havia camisas comuns dependuradas na porta dos barracos. Felicidade não tinha cor, somente trejeitos de namorada esquiva. Se nos campos choviam prantos, antes que brotassem mágoas, floria a poesia do verde se espalhando na plantação. E nos erros e acertos do povo-criança, ninguém tinha medo de ter esperança. Por isso, a juventude esperando saber a hora, tentou não esperar acontecer.

Porém; ai, porém… No dia primeiro de abril, qual ressaca de derrota do flamengo, surgiu goela abaixo um dragão de mamulengo. Aliás, um dragão-fêmea, uma dragona, de unhas vaidosas, além de enormes e tesudas tetas. Que nem os bichos surrealistas do filmes de glauberianos, não tinha pé nem cabeça, somente quepe e coturno. Coisa sem forma, com as tripas nos miolos, os miolos no rabo, o rabo no coração, o coração no fel, o fel na boca e a boca na trombeta, berrando que era filha da pátria. E, em nome de sua mãe,(a dela), pegava, matava e comia.

Pegou pela garganta a incauta liberdade e matou a inteligência com estúpidas torturas. Num mastigar truculento de suíno, comeu o futuro de minha infeliz geração.

Desafortunada geração de destemida e desvairada desventura. Linhagem valorosa, quase extinta, daqueles que morreram, nas selvas e porões, de maltrato ou de metralha.

Sonhos que apodreceram, no injusto anonimato da vala comum, sob um céu de estrelas de lata. Nomes que rebrotarão, sob o sol da justiça, para a seara da história.

No entanto, sem remorso nem tortura, safou-se das prisões uma degenerada cepa. Desavergonhada raça dos que receberam três dinheiros e renegam trinta vezes sua nojenta impostura. Despudorada linhagem do dedo sujo em riste, na acusação fajuta e nas bancadas espúrias dos desgovernos.

Desqualificada linhagem dos que não disseram que sim nem que não. Desprezível raça daqueles que hoje proclamam vergonha de permanecerem vivos. Porém no fundo, bem no fundo, apenas se arrependem de não se terem também vendido.

Desmotivada linhagem de reponderados ânimos, que esperou no amadurecimento quase apático, o conforto rançoso da acomodação. E desobrigada de rebeldia ou heroísmo, calou-se aos trinta anos, com boca-de-feijão. Desconforme grupo, no qual quadradamente me enquadro, inofensivo na derrota, irrelevante na vitória. Sou daqueles que agora amargam o dilema flácido dos que não arriscaram nem petiscaram. Despreparada raça que ainda geme sem fazer força, citando sisuda a síndrome de Rui Barbosa. Vendo triunfarem as nulidades, sem nunca aprender a ser desonesta.

Para não dizer que não falei de mudanças, digo que o tempo esqueceu diferenças, endureceu corações, acordou sonhos e desgastou ideais. O pais ficou mais pobre e ignorante, mais bisonho e fraco. Esperança anda arredia atrás de alguma porta; felicidade está vasqueira, no fundo de algum baú. A grande revolução não foi romântica, porém semântica. Jeitinho virou mutreta, que virou cambalacho, que virou maracutaia. Os discursos agora não convencem, apenas confundem. Panelas vazias prometem encher palavras, os bolsos se envergonham da cara dos bancos. Passou o tempo, mudou o clima. A brisa fede, as safadezas doem, um alarido sem-vergonha vem das bandas dum jardim. Agora, malandragem é palavrão, sacanagem, não.

Até Macunaíma, por questão de caráter, andou pensando em emigrar.

A dragona, de barriga cheia e peitos vazios, alegando dores nas costas e fedor no povo, resolveu placidamente aposentar-se. Os barões cochicharam mineiramente com os cartolas que, por baixo dos panos, consultaram os bicheiros, buscando certeza naquela esquisita vontade.

Então, tangeram a boiada para as ruas, gritando com ardor varonil: “Xô, dragona, passa, direto e já!” E ela fugiu garbosamente, pela porta dos fundos, para os confins esquecidos da história. Nesse dia de aleluia, fizeram uma farra com um boi do maranhão, recitando versos de cordel de inusitada autoria.

Mas barriga vazia não tem lógica nem memória, somente roedeira de fome. É impulsiva como sede de justiça, inconseqüente como paixão juvenil, alucinada como olhar de desatino. Aquele olhar esquisito, de beato nordestino, alumiando sandice, profetando chuva de leite e mel. Pois, com revolta nos gestos e presságios na voz, surgiu das profundezas do nada um santo guerreiro, se afamando salvador.

Grotesco D.Quixote-motoqueiro, com cacoetes de tartaruga ninja. Além da triste figura do seu escudeiro careca e bigodudo, ancho de pança, personagem furtiva e parda. Porém, como alegria de pobre, tudo durou pouco. De repente, o mocinho justiceiro, furta-cor que nem camaleão de rabo preso, encantou-se em dragão-macho, daquilo roxo. Bicho novo e agressivo, modernoso todo, filhote de dragona com monstro de seriado japonês.

Esse dragão, faixa-preta a tiracolo, não pega não mata nem come; só cheira… Porém, igual a um morcego, sinistro e negro, vampiriza o salário, a saúde, a educação e a paciência. E depois ronca e bufa mentiras fedorentas, chafurda e respinga lama colorida na cara quebrada e na testa latejante do eleitorado. A dragona, cara-de-mau, tirou o time de campo; o boi-bumbá queria revanche no jogo, deram prorrogação. O dragão cara-depau, fica fazendo cera catimbada, querendo comprar o juiz, mesmo debaixo das vaias da galera. Suprema humilhação, para o resto de compostura dos pequenos safados da minha geração.

O povo, pés descalços, repisa as mesmas agudas pedras, nos mesmos caminhos reprometidos como novos. Descamisado, o chicote da miséria recortando-lhe as magras costelas, não come mel, mastiga abelhas, chorando sobre o leite derramado. Traído, sofrido e mal-pago. Se esse povo, coitado, soubesse, ao menos, ler e não apenas crer, pediria anulação desse gorado pacto de salvação, por erro essencial de pessoa.

Mas, felizmente, desta vez, os anos rebeldes precedem os anos dourados. A nova geração, que julgavam apenas adestrada para a alienação do consumismo inconseqüente, sem a palavra pátria no seu restrito vocabulário, distinguiu fedor de cheiro e passado de futuro. Como no conto de Andersen, que a televisão nunca contou, a juventude clamou nas ruas que o rei vaidoso estava nu, com a mão no bolso do povo. E, nesse país de pornochanchadas, nunca se viu nudez mais indecente. Até os garotos grafiteiros, sem pena, pediram empichamento, em dia de luto e aIegria. Então, os políticos desceram do muro, subiram no muro, pularam o muro e atiraram a primeira pedra… Afinal, não há pecado mais ofensivo e menos perdoável do que mamar sozinho.

Caros formandos:

Sou portador das felicitações de todos os mestres da vossa vida. Falo agora por todos, que mais vos dariam, se mais lhes fosse dado, pelo bem dos homens e pelo belo dos ideais. Mas estas palavras são também ofertadas àqueles, da vossa subestimada geração, aos quais, por doloso desprezo ou venal desrespeito, também foi negado o pão do espírito; a educação. Deploro por essa imensa e jovem força de trabalho, que jamais partilhará dos saberes e sabores duma ceia acadêmica como esta daqui e dagora.

Orgulho-me dos jovens da minha terra, filhos espirituais do meu honrado ensino. Envaideço-me pelos formados no desvelo das minhas lições precárias, mas sobretudo sinceras.

Ao sentir-me por vós igualado ou mesmo superado, exulto o contento de minha discreta missão. Se não atingirmos a plenitude, pelo menos, fujamos da mediocridade. Fostes adiante do vosso tempo; bem além do que parecia permitir o estreito espaço cívico herdado dos vossos pais e mestres. Nossa escaldada geração de reprimidos ânimos, que, de tanto proibida de amar a pátria ao seu próprio modo, olha ainda com assombrada incredulidade o horizonte ético onde raia a liberdade. Apontamos mas não seguimos vossa trilha, no receio neurótico de perder nossas minguadas conquistas. Portanto em nome dessa minha geração, quase perdida no tiroteio retórico das demagogias, recito-vos humildemente meu Ato de Contrição.

Meus queridos jovens aqui ou aquém presentes: Eu, professor, quarentão assumido e conformista arrependido, confesso agora à juventude brasileira, toda-poderosa na força dos ideais e bem aventurada na transparência dos gestos, que estou roído de inveja pelo vosso amor quase inconseqüente à liberdade e morrendo de despeito pela vossa imprevisível rebeldia.

Sei que pequei, por muitas vezes, contra vossa espontânea natureza, por pensamentos prepotentes e palavras desdenhosas. Mascarado na minha caretíce, pequei também por atos incoerentes e preconceituosas omissões, Por minha culpa, quis ser dono da verdade, por minha culpa, sufoquei tantas desculpas; por minha máxima culpa, esqueci que também fui jovem e fiquei à-toa na vida, somente esperando a morte chegar.

Mas creio, com renovada convicção, na benevolência dos que já sabem indignar-se, mas protestam com pacífica alegria. Confio com renascida boa-fé, no perdão quase displicente de quem ainda não cristalizou ressentimentos, mas já aprendeu a odiar a injustiça. Portanto, peço e rogo que a santa juventude da minha terra, julgue-me com a grandeza do seu coração, nem sempre ponderado, mas sempre reto e caridoso.

E para que minha adulta consciência, calejada em pessimismo e hipocrisia, retorne à limpidez dos meus antigos sonhos, esperançoso ponho aos vossos pés sem descaminhos o que sobrou da minha alma adolescente. Imploro a vós, juventude sempre virgem de malícia e corrupção, a maravilhosa graça de convosco reaprender o resto do meu destino. E novamente, alegria pintada no rosto, ao vosso lado invadir as praças, caminhando contra o vento e cantando coisas de amor.

Eram estas as nossas palavras e também o nosso grato aplauso.

Viva aos “caras-pintadas”!!