João da Mata Costa

“Mais um dia … E é o mês de Agosto,
Mês de Itajubá e o meu
Conquanto irmãos no desgosto
Foi mais feliz: já morreu”
(Esmeraldo: Mês de Agosto)

Introdução

A sede de conhecimento do homem é ilimitada. Esmeraldo era um desses curiosos insaciáveis. Um homem de um saber amplo e profundo. A limitação da vida faz dessa busca de conhecimento uma dolorosa e angustiante contingência. Esmeraldo quer saber tudo, e ver na vida e obra do outro uma forma de aprendizado e lição. O livro é a sua matéria. Em “ Modus Vivendi”, o poeta faz a sua profissão de fé: Para o meu tédio curar ( mal que, aliás, não tem cura), / Ponho-me a ler e a estudar, / Cultivo a literatura Esmeraldo tem pressa e escreve tudo que sabe e leu em sua vasta e diversificada biblioteca de um médico de província. Felizmente, para a cidade de Natal, parte dessa rica biblioteca que leva o nome de seu famoso proprietário encontra-se atualmente na Capitania das Artes, ali na rua onde morava o escritor Câmara Cascudo. Esmeraldo Siqueira escreveu em torno de duas dezenas de livros. Neles convivem o homem de ciências e o poeta lírico. Escreveu entre outros livros: Caminhos Sonoros, Trovas Pretéritas, Taine e Renan, Variações em Prosa, Gregos e Latinos na literatura, Sugestões da Vida e dos Livros, etc. Esmeraldo é um homem irascível e muitas vezes impiedoso na sua crítica ferina a alguns escritores locais e estrangeiros. Sua pena é afiada e não faz concessões.

“Se eu respeitasse o jumento/ Mesmo o bravio e coiceiro, / Adeus meu divertimento / Alegre humor galhofeiro….”

Um Agrippino Grieco potiguar, com algumas limitações. Um poeta que sabe escrever bem. Nem sempre um bom prosador é um bom poeta, observa Esmeraldo. De minha parte, prefiro o Esmeraldo prosador e aguçado leitor dos clássicos. Um Esmeraldo que tem necessidade de mostrar toda a sua erudição e faz uma babel de suas citações e comentários. A Teoria da Evolução se une com a economia. A biologia com as ciências naturais.

O escritor comenta sobre o papel da Universidade e do ensino Básico. São compilações com comentários e análises bibliográficas relevantes sobre a vida e a obra dos escritores. Informações curiosas e instigantes são reveladas, muitas vezes de forma aleatória e sem a profundidade e sistematização de um erudito. Esmeraldo é um Spenceriano que tudo quer saber. Sinto falta das referencias bibliográficas e justificativas das fontes referidas. Alguns autores citados são poucos conhecidos e, isso, pode ser um mérito, ou desinformação. O autor é um poliglota e faz citações abusivas (sem traduções) em latim, francês, italiano, Inglês e outros idiomas.

Esmeraldo foi professor de Francês e uns dos fundadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que está completando 50 anos. Esmeraldo dá palestras, aula da saudade e escreve para uma terra de poucos interlocutores. Homem de poucos amigos e um exemplo de escritor sagaz que não faz concessões.

Os prefácios são geralmente inúteis e supérfluos, diz Esmeraldo no prefácio ao livro “A Canção da Montanha”, do grande poeta Othoniel Meneses. Sem uma crítica consistente a literatura não avança. A literatura potiguar se ressente do elogio fácil de amigos, ou do silencio sepulcral da maioria. O crítico e escritor Esmeraldo ajuda e desvelar o tênue tecido da hipocrisia de algumas carcaças e pérolas literárias. Em Bem- aventurados …, ele destila o veneno:

Os asnos são divertidos,
Asnos bípedes, é claro,
Todos se julgam sabidos,
Dotados de senso raro.

A melhor forma de homenagear um poeta e escritor é lê-lo criticamente. No centenário do poeta Esmeraldo Siqueira, nascido a 16 de agosto de 1908 (Vila Nova, atual Pedro Velho-RN) escrevemos esse artigo enfatizando um lado menos conhecido do poeta e escritor Esmeraldo: o crítico literário. Uma forma de lembrar essa grande figura que conheci flanando e poetando na urbe potiguar, e agora o tenho na companhia dos livros. Um poeta saudoso da bucólica cidade; “Nesta hoje terra de cimento armado / já fui um
venturoso potentado” (Romancete).

Um poeta ambulante a distribuir seus poemas e trovas. Esmeraldo pertence àquela classe de escritores que lêem muito. Um escritor que conhecia profundamente a literatura local e universal. Um homem plural que não via sentido na separação entre o saber científico e literário. Opinou sobre tudo e todos. Nesse artigo fazemos uma breve antologia das opiniões do crítico literário Esmeraldo sobre alguns escritores e poetas locais, e outros temas relacionados com a literatura. Uma forma de tornar mais conhecida a rica literatura norte-riograndense. São florilégios pinçados da obra multi-facetada desse profícuo escritor. Um autêntico Esmeraldo a iluminar e realçar com sua lente aguda o vasto e pouco conhecido oceano da literatura potiguar e universal. Um convite para a leitura dos nossos poetas e escritores

A poesia Esmeraldina é ferina com a humanidade e suas fraquezas, vícios e hipocrisia.

“A mediocridade infesta / Os arraiais literários. / Asnos exibem na testa
/ Triunfos extraordinários.
Dão-se prêmios repetidos / A livros que valem nada, / De versos
desenxabidos / Ou prosa vazia e aguada (Áurea Mediocritas).
Poesia é verdade e “jurar que é fingimento tudo que o poeta diz / Não tem
nenhum fundamento, / É afirmação infeliz”.

Terminamos o artigo com um poema do Esmeraldo “Brasilae Jumentorum” que
faz um cumprimento irônico a todos os jumentos do Brasil. Aliás; os
burros, asnos, muares e jumentos participam com muita freqüência da fauna
poética do poeta. Esmeraldo não espera recompensa por sua poesia. É um
solitário que escreve para viver. E vive porque escreve. O poeta Esmeraldo
não finge, e toda a sua poesia toca na solidão de sua existência já
descrente do amor dos homens e dos guizos fáceis da mediocridade.

Epitáfio

Amou o belo e a verdade
Sem crer no Céu nem no Inferno
Do mundo, em vez de saudade.
Sente agora alívio eterno

 

 

A PENA IMPIEDOSA DO ESMERALDO DEL SITU IN NATAL

Polycarpo Feitosa

Os contos e romances são de leitura amena. Ele não gaguejava escrevendo.
Sua pena era ágil, corria sem esforço.

Segundo Wanderley

Foi, no Brasil, o maior imitador de Castro Alves.

Lourival Açucena

O livrinho que o instituto histórico publicou reúne 46 composições do
poeta perfeitamente legíveis todas elas, embora nenhuma capaz de
entusiasmar-nos. Esses versos valiam e valem mais na voz dos cantadores.

Obs: Lourival foi um grande modinheiro e algumas de suas letras foram
musicadas em belas canções.

Auta de Souza

A poetisa teria sido amada em qualquer parte civilizada do mundo, tal a
encantadora pureza dos seus versos. Ela havia lido os românticos
brasileiros e, da França, seu ídolo era Alphonse de Lamartine.

Manoel Virgílio Ferreira Itajubá

Natalense da beira do Potengi, foi também, apesar de semi-analfabeto, um
lídimo poeta.

João Lins Caldas

Adotou as formas tradicionais de poetar. Depois tornou-se modernista.
Sobressaiu nas duas maneiras, porque a natureza o dotara de imaginação e
sensibilidade excepcionais.

Juvenal Antunes de Oliveira

Nascido em Ceará Mirim, compôs hinos e canções que tiveram consagração
popular.

Abner de Brito

Caicoense Talentoso. Tremendamente desorganizado, o poeta só nos legou um
livro, de título “Ossário”, cujos versos ninguém sabe por onde andam, pois
nunca foram publicados. (Esmeraldo em “Do meu reduto Provinciano”)

Henrique Castriciano

A franqueza nos obriga a elogiar mais a sua prosa. Os versos nos parecem
guindados, desprovidos de espontaneidade quase sempre, sem belas imagens
nem delicadezas poéticas.

Othoniel Meneses
(In prefácio à primeira ed. de “A Canção da Montanha”)

A que escola poderá ser filiado este novo livro de Othoniel Meneses?
Não importa a discussão das escolas literárias.
Classificar o poeta nesta ou naquela escola é questão de segunda ordem.
- Othoniel é passadista? É modernista? É futurista?

Só interessa saber se ele é de fato um poeta, desses que trazem do berço a
estrela da predestinação, a vivencia que os torna capazes de romper os
véus das aparências e revelar segredos do ser, como os grandes inspirados,
cujo canto reproduz os esplendores do universo visível e invisível. Só
interessa saber se, de acordo com o pensamento de Platão, ele foi tocado
do desejo das Musas e pôde aproximar-se do santuário da poesia, porque o
verdadeiro poeta ultrapassa a arte e o seu canto é a expressão de uma
“divina loucura”, e não o que os sábios mais esforçados poderiam realizar.
Os versos de Othoniel, sejam da adolescência, da juventude, ou da
maturidade, atestam esse destino privilegiado.
….

“A glória poética de Othoniel Meneses é tão sagrada para o RN como a de
Auta de Souza e Ferreira Itajubá”.

ANTOLOGIAS

Ezequiel Wanderley

Perpetrou bons versos na mocidade, e em toda a sua existência amou
profundamente a literatura. Teve em 1922 a feliz idéia de publicar a
coletânea “ Poetas do Rio Grande do Norte”.

Rômulo Wanderley

Querendo ampliar e melhorar o plano do livro do Ezequiel, deu a lume o
“Panorama da poesia Norte-Riograndense”. Apesar dos encômios do
prefaciador, o livro padece de mil faltas e defeitos: nenhum rigor na
seleção dos autores e dos poemas, erros de datas, de nomes, etc. A obra
assim, recomenda mal as nossas letras.

O ESMERALDO ERUDITO

Idioma

Um povo que se preza e deseja continuar como nação unida e soberana deve
cuidar carinhosamente do seu idioma, defendendo-o sem descanso de
deformações e deturpações perigosas que o transformem num instrumento
bárbaro a serviço do estrangeiro, em detrimento da alma e do espírito da
pátria. A língua é uma herança que deve passar mais ampla e aperfeiçoada
de geração em geração, rica no seu vocabulário e nas suas expressões,
dotada de clareza e propriedade sempre maiores, capazes de refletir
meridianamente o grau de civilização e de cultura daqueles que a falaram.

Estilo

O estilo, nas letras, não depende somente da cultura lingüística. Da
educação, e do estudo dos melhores modelos. Quantos que temos conhecido
percorrem longamente esses caminhos e não lograram aprender o segredo do
estilo! Notória é a incapacidade de escrever ou falar bem da quase
totalidade dos que se diplomam nos cursos superiores.

Ensino (o lombrosiano)

Não se deve esperar muito do valor moral do ensino. A educação poderia ter
um valor absoluto? Devemos pensar nas taras, nas predisposições
congênitas, nas faculdades positivas ou negativas trazidas do berço. Tanto
é impossível é educação fazer milagre, como em botânica obter, por
exemplo, que um cajueiro produza mangas.

Literatura (na ANL discursando sobre Castro Alves, uma de suas paixões)

Uma literatura é organismo vivo que se nutre e precisa assimilar elementos
estranhos, tanto mais quanto for capaz de bem digeri-los. Caso esteja
decrépita, terá o dilema: indigestão ou inanição. Mas, noutra hipótese,
terá de rejuvenescer à custa de sangue novo.
Veja-se a França do começo do século XVII. Corneille teve de superar as
bagatelas do Hotel de Rambouillet ao influxo das letras da Espanha e
Molière, sob a influência da Itália. No século XVIII, que teria sido da
França sem os escritores ingleses?

O POETA DAS QUADRINHAS FERINAS, para o bem e para o mal.

Brasilae Jumentorum
In Poemas do Bem e do Mal – inéditos e recentes 1984

Mais uma vez quero cumprimentar
Os jumentos de sorte no Brasil,
Celeiro mundial, hoje sem par,
Dessa garbosa espécie tão gentil.

Por toda parte, em todos os setores.
Da vida nacional, ei-los felizes:
São médicos, dentistas, professores,
Boticários, agrônomos, juizes.

Na militar carreira ou na política,
Gozam de imunidades, valem ouro,
E ai de quem, arriscando qualquer crítica,
Mostre em seus atos o menor desdouro.

O clero é outro exemplo edificante
Dessa prosperidade jumental.
Mas, no mesmo sentido, o protestante.
Não fica atrás como valor rival.

E o populacho, o anônimo rebanho.
Que se esfalfa no campo ou na oficina,
Estranho ao bem-estar, ao gozo estranho,
Incapaz de entender a própria sina?

O povo é isto, a plebe, a populaça,
A ralé, a gentalha, o João Ninguém
Pratica o futebol, ama a cachaça,
Crê no padre Romão como convém.

Natal, 10 de AGOSTO DE 2008.
Dedico esse artigo ao meu querido pai,
morto prematuramente há 22 anos, nesse dia