Por Eduardo Gosson (01)

Ao iniciarmos neste 14 de Março (Dia Nacional da Poesia) um breve balanço sobre a Geração Alternativa, gostaríamos, inicialmente de ver o significado destas duas palavras.

Segundo o filósofo Ortega y Gasset:

“uma geração é um período ou zona de datas abrangendo cerca de quinze anos que se distribuem sete anos antes e sete depois de um ano central assinalado como época determinante e característica: pertencem à mesma geração os indivíduos surgidos na mesma zona de datas. A afinidade entre os homens da mesma geração provém de viverem forçosamente num mundo que lhes oferece a mesma estrutura (ou conjuntura), os mesmos sistemas, as mesmas experiências (ou vivências)”.

Para o filólogo Antonio Houaiss a palavra alternativa, é a “escolha entre duas possibilidades”. O poeta T.S. Eliot, por sua vez, afirma:

“a tarefa do poeta, como poeta, é apenas indireta com relação ao seu povo: sua tarefa direta é com sua língua, primeiro para preservá-la, segundo para distendê-la e aperfeiçoá-la”.

Com essas premissas é que poderemos entender o que foi a Geração Alternativa. Essa geração ficou espremida entre a vanguarda Concretista e a turma do Poema-Processo, movimentos com arsenais teóricos de alta complexidade.

A Poesia Marginal, fruto da Geração Alternativa, teve seu marco inicial em 1967 com Flávio Nasimento editando 500 exemplares de seus poemas, prefaciado por Torquato Neto e Chico Buarque, seguindo-se Xico Chaves com seu Pássaro Verde, mimeografado.

Em 1970, em Londrina, Paulo Nassar mimeografava seus poemas Cantos de eclipse.

Em 1971, Chacal e Charles lançavam no Rio de Janeiro 100 exemplares de seus poemas.

Em 1972, ocorreu o suícidio de Torquato Neto e o Poema-Processo encerrava o movimento com o documento Parada – opção tática.

O ano de 1975 assistiu ao nascimento de diversos jornais e revistas de vida curta (Escrita, Navilouca, Totem, O Saco, Equipe, entre outras).

Em 1976, em Natal/RN, J. Medeiros lançava a revista-envelope Povis. Novos poetas surgiam: João da Rua, Aluízio Mathias, João Barra, Venâncio Pinheiro, Dácio Galvão, Jóis Alberto e muitos outros.

Analisando a produção desse período, o poeta Glauco Mattoso, afirma:

“Ao contrário da última corrente de vanguarda (o poema-processo) e de seus antecedentes concretos fundamentais, a poesia marginal não apresenta qualquer homogeneidade, prática ou teórica. Não há um trabalho coletivo ou grupal orientado e posicionado contra ou a favor de determinados conceitos. Se existem traços comuns à maioria dos autores da década, são eles a desorganização, a desorientação e a desinformação. E mais: a despreocupação com o próprio conceito de poesia e o descompromisso com com qualquer diretriz estética resultaram numa espécie de displicência”. (In O que é poesia marginal).

Procuraram retomar Oswald de Andrade com o poema-piada. Com uma substancial diferença: o poeta modernista conhecia bem a língua portuguesa, ao passo que os da Geração Alternativa desconheciam-na. Usavam um vocabulário baseado na gíria e no linguajar chulo, e de uma sintaxe isenta das regras de gramática, tal como na língua falada. Façamos algumas comparações:
agente

Quartos para famílias e cavalheiros
Prédios de 3 andares
Construídos para esse fim
Todos de frente
Mobiliados em estilo moderno
Modern Style
Água telefone elevadores
Grande terraço sistema yankee
Donde se descortina o belo panorama
Da Guanabara
(Oswald de Andrade)

são Paulo
do teu passado tupi
só resta
o rápido som
da pavra aqui
(Régis Bonvicino)

velhice
o netinho jogou óculos
na latrina
(Oswald de Andrade)

 

pra Tânia

Antes que Fortalea cresça
nos trairemos 3 vezes
E morreremos os dois
um de medo
o outro de solidão
Mas continuaremos
a nos encontrarmos
e a nos beijarmos
no calçadão da beira-mar
como se estivéssemos vivos
(Moreno)

maturidade

O Sr e a Sra Amadeu
participam a V. Exa.
O feliz nascimento
De sua filha
Gilberta
(Oswald de Andrade)

Poesia não utópica
Pru meu avô (Deoclecio)

Na casa do meu avô
os morcegos taciturnos
os agouros da coruja
na morte de minha avó
(Harrison Gurgel)

 

 

 

pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
(Oswald de Andrade)

Let’s go

Quando eu chorar
não tolere
não espere sangrar
também não me socorra
mas se mova
quando eu morrer
cave a cova
(Antonio Ronaldo)

3 de maio

Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi
(oswaldo de Andrade)

Vinte Tragos

fiz versos
entre fumaças de cigarro
te procurei
em minha carteira de cigarros
não te encontrei
tinha fumado os vinte cigarros
(a carteira ficou vazia)
(lula)

Conforme podemos observar nos poemas supracitados, o Mestre Oswald de Andrade fez pioneiramente e muito melhor a poesia-síntese, o poema-piada. Portanto, nenhuma novidade debaixo do Sol. A Geração Alternativa não fez a escolha entre duas possibilidades, nem cumpriu os mandamentos de T.S. Eliot. Como no poema de Carlos Drummond de Andrade, ficou com a pedra no meio do caminho.

(1) É membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN – IHGRN e Presidente da União Brasileira de Escritores do RN – UBE/RN.