BREVÍSSIMAS CONSIDERAÇÕES. (1)

Prof. Eduardo Gosson

  1. Introdução.

Começaríamos por perguntar: existe uma Literatura Norte-riograndense? Sim, da mesma forma que existe uma literatura francesa, inglesa, alemã…
Comparada com outras literaturas, a norte-rio-grandense é novíssima: tem apenas 200 anos. Nem por isso apresenta menor vitalidade.

  1. Os primórdios.

Quando o poeta Lourival Açucena (1827 – 1907), o nosso primeiro vate, começou a derramar versos sobre a cidade, Natal era uma aldeia com poucas ruas, precisamente quatro, que convergiam para a rua grande, hoje Praça André de Albuquerque.
Durante os oitenta anos em que viveu, foi o nosso poeta oficial. Colaborou ativamente n’ O Recreio, a primeira publicação literária da província (de março a dezembro de 1861) e em inúmeros jornais da época. Uma boa parte de sua produção poética perdeu-se em jornais que não mais existem; outra parte foi recuperada por Luís da Câmara Cascudo em Poesia ( Natal, 1927).
Embora esteticamente defasado, sendo arcádico em pleno parnasianismo, os seus versos fixaram o início da nossa Literatura. Para Cascudo, Lourival Açucena “ foi um dos raríssimos devotos do cotidiano, amando as alegrias miúdas e diárias, insiginificantes em sua expressão material mas poderosíssima de energia inspiradora”. (2)
Magoado porque lhe fora negada uma vaga para Deputado, pelo Dr. Amaro Bezerra, o poeta fez os versos A Política ( 1862), de grande atualidade em nossos dias:

I
Você pergunta, yayá,
Por que deixei a política?
Você quer saber de tudo,
Você é muito analítica.
Pois bem, eu lhe digo:
Ouça o que eu refiro,
Porque nesse jogo
Já fechei o firo…
Mas, olhe, menina,
Que dos meus arcanos
Não quero que saibam
Gregos nem Troianos…
Já ouviu, yayá?

II
Esses arautos políticos,
Quer de uma, quer de outra grei,
Quando estão de baixo gritam:
“ Viva o povo” – “ Abaixo o Rei”!
Mas, o sábio Rei,
Que conhece tudo,
Faz que não entende,
Fica surdo e mudo;
E o povo que idéia
Não tem dos negócios
Vai crendo nas loas
Dos tais capadócios…
Já ouviu, yayá?
Prometem ao pobre povo
Um governo angelical,
A terra da promissão,
Um paraíso ideal…
Porém, quando grimpam,
Cessam as cantigas
E tratam somente
De suas barrigas.
E nem mais conhecem
Aquele bom moço
Com quem já viveram
De braço ao pescoço…
Já ouviu, yayá?
Prometem casa da Índia,
Cabedais, mundos e fundos:
Mas, quando estão no poleiro:
- Viva Dom Pedro Segundo!
Seja liberal
Seja puritano,
Traz o povo sempre
Num completo engano.
Gregos e Troianos
Procedem assim…
Eu vou debulhando
Tintim por tintim…
Já ouviu,yayá?

(…)

V
Enquanto esperam maré,
Oh! Que afeto! Oh! Que doçura!
Mas, quando embarcam na lancha,
Quando gás!… quanta impostura!
E toda carícia
Veste-se em orgulho,
E a massa fina
Reduz-se a gorgulho.
Eu de rapapés
Estou escarmentado,
E de farrambambas
Muito escabriado…
Já ouviu, yayá?

VI
Nas vésperas da eleição,
Vão à casa do compadre,
Dão beijos no afilhado,
Rompem sedas à comadre…
E o pobre diabo
Entra na rascada,
Tomando sopapos,
Servindo de escada.
Eles vão p’ra Corte
E o compadre fica
Bebendo jucá,
Ou dose de arnica…
Já ouviu, yayá?

VII
Propalam grandes idéias,
Proclamam belos princípios,
Arrotam patriotismo,
Por todos os municípios.
Tudo isto é pirraça
isto tudo é peta,
É toda a questão
L’ argent na gaveta:
Ou, então, galgar-se
O mando, a grandeza,
Para, lá de cima,
Calcar-se a pobreza…
Já ouviu,yayá?

VIII
Morra Pedro e viva Paulo,
Com muita festa p’ra festa,
Com pouco mais: – Viva Pedro,
Morra Paulo que não presta.
Quanta inocência
E Contradição!…
Oh! Que mastigado
Que especulação!…
Quem isto negar
Terá boa fé?!…
Nega de finório,
Ou de pai-mané…
Já ouviu,yayá?

 

IX
Hoje, Sancho é muito bom…
Amanhã, Sancho é ruim…
Já fica sendo um demônio
Quem foi ontem serafim.
Eu não os entendo,
Eu não os percebo,
E, nesta enredada,
Se os percebo,cebo!…
Por isto, safei-me,
Sem bulha e arenga,
E livre-me Deus
da tal estrovenga…
Já ouviu,yayá?

1884

  1. A Modernidade.

Entre Lourival Açucena e Jorge Fernandes (a quantidade de versejadores é infinita), fazia-se literatura romântica e parnasiana. A modernidade só acontecia em 1927 com o Livro de Poemas. Todos os elementos da vida moderna ( o automóvel, o telégrafo, o telefone, as fábricas, as buzinas) estão presentes nesta poética. Para Maria Lúcia Garcia, in Jorge Fernandes: A Poética do Riso, “ Jorge vê com olhos de voyeur as coisas que fazem a sua realidade cultural e eleva-as à condição de palavra- poesia(…). O primitivo da terra natalense dos anos 20, integrado ao estrangeirismo dos novos signos,construtores da futura sociedade, reflete a própria dialética do modernismo: a mescla do estrangeirismo e do primitivo cantado na poesia Pau-Brasil e na Antropofagia”.
O que define a poética de Jorge Fernandes é o estilema onomatopéia. Estão presentes, também, outros elementos: o coloquialismo, o neologismo, grafismos para-concretos (como no poema rede), liberdade métrica e ritmos, justaposições invertidas não lexicalizadas, conforme podemos ver-ouvir-ler:
Sobre o açude
Pinicando no terreiro
Perseguindo gaviões badalando dezenas
de sinetas
Revoando em bando no espaço incendiado
do sertão sem nuvens
Num alvoroço de alarme:
té… téo! … té… téo! …
Téo … te-téo…
té-téo …té-téo!
té …téo … te-téo!
té-téo! …        Te-téo …

Jorge Fernandes foi um grito solitário na província, pagando com o ostracismo o seu antenamento contemporâneo. Só veio a ser descoberto na década de 70, numa edição organizada por Veríssimo de Melo. A partir daí não parou de ser redescoberto, existindo diversas teses e livros sobre o poeta.
Entre as décadas de 40 e 50 tivemos outros escritores que retomaram a estética modernista: Antônio Pinto de Medeiros com o livro Um Poeta À-toa (1949) e Zila Mamede publicando Rosa de Pedra (1953). O primeiro completamente esquecido, precisando urgentemente ser reabilitado. Quem escreveu versos como Ato de Fé merece ser devidamente estudado:

Creio na infinita procura
E nos caminhos ardentes
Creio nos mistérios da carne
E no limbo das idéias
Creio no silêncio das fronteiras
E no tumulto das sombras
Creio na mágica do tempo
E na divindade das forças
Creio no trono de Judas
E na redenção dos anjos caídos.

Zila Mamede, por sua vez, teve mais sorte e hoje se encontra devidamente estudada. No livro Navegos, que é uma reunião da sua produção poética, há um estudo do poeta  Paulo de Tarso.
A sua poética se caracteriza pela musicalidade, pelos cortes narrativos bruscos e pela concreticidade, como no poema A Ponte:

Salto esculpido
sobre o vão
do espaço
em chão
de pedra e aço
onde não permaneço
– passo.

    1. Ficção.

Neste terreno a nossa produção tem sido bem menor, porém não menos significativa.
Luís Carlos Wanderley é considerado cronologicamente o nosso primeiro romancista, tendo publicado Mistérios de um Homem Rico ( romance de sentido regionalista). Em seguida vêm Aurélio Pinheiro (Macau) e Antônio de Souza (Gizinha), ambos epígonos da estética do Realismo.
O salto qualitativo se daria décadas depois, com Eulício Farias de Lacerda em O Rio da Noite Verde (1973) e com Tarcísio Gurgel em Os de Macatuba ( 1975), ambos construtores de novas linguagens.
As suas obras literárias se inserem dentro da concepção de que: “ A obra literária se constrói como uma rede de relações diferenciais firmadas com os textos literários que a antecedem, ou são simultâneas, e mesmo com sistemas não-literários”. (4)
Nelas, a tradição e a vanguarda estão dialogando permanentemente, criando novas linguagens.

 

  1. Conclusão.

Duzentos anos, em se tratando de tempo, é muito pouco. Contudo, em sua juvenil idade, a nossa produção literária não fica a dever nada às grandes literaturas. Devemos ter orgulho dos nossos escritores.

 

 

NOTAS

(1) É membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN – IHGRN e presidente da União Brasileira de Escritores do RN – UBERN.

(2) Texto apresentado na IV Feira de Sebos/I Feira da Leitura na Praça André de Albuquerque ( de 09 a 13 de setembro de 1996).

  1. Luís da Câmara Cascudo, Lourival Açucena, in: Revista do IHGRN, vols. LVI-LVII-LVIII, Anos 1964-65-66.

 

(4) Maria Lúcia Garcia, Jorge Fernandes: A Poética do Riso. Texto mimeografado, apresentado no II Curso de Literatura Norte-Rio-Grandence, em 13.05.1992.

    • Yuri Tynianov, Da Evolução Literária.