Por Eduardo Gosson (*)

* Poeta e Historiador. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN. Presidente da União Brasileira de Escritores – Seccional do RN.

SUMÁRIO
PARTE 1 – POR QUE CANTARES FAZ PARTE DA BÍBLIA?
1.1. Árvore genealógica do rei Salomão
1.2. O Palácio e o Templo
1.3 A Erosão do Reino
1.4. Salomão e os livros de sabedoria
1.4.1. Provérbios
1.4.2. Eclesiastes
1.4.3 . A Sabedoria de Salomão
PARTE 2 – POESIA E POESIA ERÓTICA (O CÂNTICO DE SALOMÃO)

2.1. Poesia
2.2. Poesia Erótica
2.3. O Cântico de Salomão
2.4. Poesia em Cantares
2.5. Erotismo em Cantares

PARTE 3 – CONCLUSÕES

A grande pergunta dos estudiosos da Bíblia versa acerca da inclusão de Cantares ( que é um livro erótico) no texto sagrado, que fala sobretudo de moral, conduta ética e salvação.
O presente trabalho é uma tentativa, modesta, de responder essa pergunta.

1.1. Árvore genealógica do rei Salomão
Em Hebraico Salomão significa “pacífico”, filho e sucessor do rei Davi. Reinou de 970 a 931 a. C. Ao contrário do pai, que era um simples pastor que chegou ao poder, Salomão foi educado como príncipe, tendo uma educação formal da melhor qualidade. Sua mãe chamava-se B etsabéia, sendo o segundo filho do casal.

1.2. O Templo e o Palácio

O Templo e o Palácio que o rei Salomão construiu, e que hoje resta apenas o Muro das Lamentações, durou 20 anos, tendo a decisiva colaboração do fenício Hiran, que lhe forneceu arquitetos, operários, madeira e ouro. Localiza-se ao norte de Jerusalém no ponto mais elevado, no local da eira que Davi havia comprado por 50 siclos de prata (hoje em dia se encontra a esplanada conhecida como Haram-es-sharif, que inclui o Domo da Rocha e a mesquita de Al-Acsa). Consta que 80 mil homens trabalharam nas obras e outros 30 mil foram enviados à Feníncia (hoje, Líbano) para cortar a madeira das florestas de cedros e pinheirais das montanhas.

1.3. A Erosão do Reino

Segundo a Bíblia (1 Rs 11,4): “Quando ficou velho, suas mulheres desviaram seu coração para outros deuses e seu coração não foi mais todo de Iahweh, seu Deus, como fora o de Davi, seu pai”. Os historiadores, por sua vez, acentuam as coisas mundanas: excesso de luxo, desperdício e um harém com 700 esposas e 300 concubinas.

1.4. Os livros do rei Salomão

Salomão foi considerado o homem mais sábio do seu tempo. É o pai da literatura sapiencial hebraica. Essa modalidade literária floresceu nas culturas antigas do Oriente Próximo, sob a forma de provérbios, parábolas, fábulas, enigmas e poemas. Os livros sapienciais são: Provérbios, Jó e Eclesiastes. A Sabedoria de Salomão e a Sabedoria de Jesus, filho de Sirac (também conhecida como Eclesiástico) – foram incluídas nas Bíblias Grega e Latina, mas classificadas como Apócrifos na Bíblia Protestante. Também lhe foi atribuído a autoria de Cântico dos Cânticos.

1.4.1. Provérbios

O livro é uma antologia de provérbios escritos em contextos diferentes. A primeira parte contém 375 máximas e a segunda 128 máximas. Eis alguns famosos:
“Anda, preguiçoso, acha a formiga; observa o seu proceder, e torna-te sábio”.
“Um anel de ouro no focinho de um porco é a mulher formosa sem bom senso”.
“Quem poupa a vara odeia seu filho, aquele que o ama aplica a disciplina”.
“Mais vale um prato de verdura com amor, do que um boi cevado com ódio”.

1.4.2. Eclesiastes
Pelo conteúdo e pela linguagem do livro, ele parece ter sido escrito por um intelectual judeu do século III ª C, durante o período helenístico. O autor se refere a si próprio em Hebraico como Coélet, significando aquele que se apresenta diante de um assembléia ou Kahal. Percebe-se, no texto, que Coélet possui uma mente brilhante porém pessimista. Nota-se a influência da filosofia grega, especialmente Epicuro:
“Observo que não há felicidade para o homem a não ser alegrar-se com suas obras:essa é a sua porção, pois quem lhe mostrará o que vai acontecer depois dele?” (Ecl 3, 22). Para, mais adiante perguntar: “ Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?” (Ecl 1, 2-3). Esse texto é muito lido nas sinagogas durante a Festa dos Tabernáculos”.

1.4.3. A Sabedoria de Salomão

Refere-se a um compêndio filosófico escrito anonimamente em grego no século I ª C. Seu conteúdo fala da sabedoria tradicional do povo judeu. Seu autor é um intelectual de Alexandria.

II – POESIA E POESIA ERÓTICA
2.1. Poesia
A palavra poesia vem do grego (poíesis) e significa a “Arte de escrever em verso” (1). O poeta e ensaísta T.S. Eliot é mais incisivo ao conceituar e definir poesia e a função do poeta:
“afirmo que a poesia, mais do que a prosa, diga respeito à expressão da emoção e do sentimento, não pretendo dizer que a poesia necessite estar desprovida de conteúdo intelectual ou significando, ou que a grande poesia não contenha mais esse significado, ou que a grande poesia não contenha mais esse significado do que a poesia menor (…) a tarefa do poeta, como poeta, é apenas indireta com relação ao seu povo: sua tarefa direta é com sua língua, primeiro para preservá-la, segundo para distendê-la e aperfeiçoá-la”. (2)
2.2. Poesia Erótica
Segundo o renomado poeta e tradutor de
poesia, José Paulo Paes, em Poesia Erótica:
“supor que um poema erótico digno do nome de poema vise tão-só a excitar sexualmente os seus leitores equivale a confundí-lo com pornografia pura e simples”. (3)
Mais adiante, com sabedoria, o autor supra-citado distingue claramente o erótico do pornográfico:
“Efeitos imediatos de excitação sexual é tudo quanto, no seu comercialismo rasteiro, pretende a literatura pornográfica. Já a literatura erótica, conquanto possa eventualmente suscitar efeitos desse tipo, não tem neles a sua principal razão de ser. O que ela busca, antes e acima de tudo, é dar representação a uma das formas de experiência humana: a erótica”. (4)

2.3. O Cântico de Salomão
(Heb. Shir há-Shirim)
A suposta autoria do rei Salomão é pura ficção. Esse poema foi elaborado por volta do século III ª C. Sua forma é a de uma série de pequenos cânticos ou poemas, destinados a serem entoados pelo noivo e pela noiva em uma festa de casamento, parte como diálogo e parte separadamente.
A obra não tem nenhuma relação com a religião e sua inclusão na Bíblia, à primeira vista, é intrigante. Os rabinos interpretam o trabalho como uma esmeralda alegoria da relação entre Deus (o noivo) e a esposa de Israel ( a noiva). Os padres da Igreja viram uma alegoria entre Jesus e a Igreja.

2.4.Poesia em Cantares

“Eu sou a rosa de Sharom, o lírio dos vales” (Cap. 2).
“Qual o lírio entre os espinhos, tal é a minha amiga entre as filhas”. (v.2).
“Qual a macieira entre as árvores do bosque, tal é o meu amada entre os filhos; desejo muito a sua sombra e debaixo dela me assento; e o seu fruto é doce ao meu paladar” (v.3).
“aparecem as flores na terra, o tempo de cantar chegou e a voz da rola ouve-se em nossa terra”
“A figueira já deu os seus figuinhos, e as videiras em flor exalam o seu aroma. Levanta-te, amiga minha, formosa minha, e vem”. (v.13).
“O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta o seu rebanho entre os lírios”. (V.13).
2.5.Erotismo em Cantares
Capítulo 1
“Beije-me ele com os beijos da sua boca;porque melhor é o seu amor do que o vinho”. (v 2).
“Leva-me tu, correremos após ti. O rei me introduziu nas suas recâmaras. Em ti nos regozijaremos e nos alegraremos; do teu amor nos lembraremos; mais do que
do vinho; os retos te amam”. (v.4).

Capítulo 4
“Os teus lábios são como um fio de escarlata, e o teu falar é doce; a tua fronte é qual pedaço de romã dentre as tuas tranças”. (v. 3).
“ Os teus peitos são como dois filhos gêmeos da gazela, que se apascentam entre os lírios”. (v. 4).
“que belos são os teus amores, irmã minha! Ó esposa minha! Quanto melhores são os teus amores do que o vinho! E o aroma dos teus bálsamos do que o de todas as especiarias”. (v. 10).
“Favos de mel manam dos teus lábios, ó minha esposa! Mel e leite estão debaixo da tua língua, e o cheiro dos teus vestidos é como o cheiro de Líbano”. (v.11).
Capítulo 7
“Que formosos são os teus pés nos sapatos, ó filha do príncipe! As voltas de tuas coxas são como jóias, trabalhadas por mãos de artista”.
“O teu umbigo, como uma taça redonda, a que não falta bebida; o teu ventre, como monte de trigo, cercado de lírios”.

 

III – CONCLUSÕES

Por que Cantares, que é um livro diferente dos demais, está na Bíblia?
Primeiro, porque Deus permitiu e, segundo, o erótico faz parte da vida. A religião judaica e a cristã valorizam o prazer sexual dentro do casamento; outras religiões, como o islamismo, só permite para o homem; as mulheres, em alguns países, tem o clitóris arrancado para não sentirem prazer. Outras religiões na Índia só permitem o sexo para a reprodução.
O Padre Fábio, em sua coluna semanal no jornal O Poti, diz:
“sem Eros não há paixão sexual, a relação será frígida, sem fogo, moribunda. Um casal em sua interação e expressões afetivas, destinados que somos à realização plena da sexualidade, junto com o amor da amizade e do companheirismo das alegrias e tristezas da vida, só se sustentará, se esse impulso erótico, for uma realidade material e espiritual em suas camas”.(5).

Portanto, amados e amadas, é preciso erotizar a vida!

 

IV – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. HOLLANDA, Aurélio Buarque. Dicionário da Língua Portuguesa, 1998.
2. ELIOT, T.S. De Poesia e Poetas. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.
3. PAES, José Paulo. Poesia Erótica. São Paulo: Companhia do Bolso, 2006.
4. idem, pági. 15.
5. FÁBIO, Padre. Fé e Cidadania. In O Poti de 21.01.2007.
6. Bíblia Sagrada. São `Paulo: Scripturae Publicações, 2002.
7. JOAN, Comay. Quem é quem no Antigo Testamento. Rio de Janeiro: Imago, 1998.
8. JOSEFO, Flávio. História dos Hebreus. Casa Publicadora das Assembléias de Deus, vol. 1, 1999.
9. HIRSCH, Abel-Hirsch .Eros (Conceitos de Psicanálise). Rio de Janeiro:Relume Dumará, 2005.
10. WIERSBE, Warren W. Poéticos. São Paulo: Geográfica Editora, 2006.