Por José Leon Machado

Estive vários anos sem ler ou reler as obras de Miguel Torga. Agora, que ultrapassei os 40, fui às prateleiras da casa e nelas encontrei Os Bichos, os Contos da Montanha, os Novos Contos da Montanha e alguns volumes do Diário. Estavam todos adormecidos e bastou o meu sopro de leitor enfadado com o que ultimamente vou lendo para lhes dar vida.

A minha relação com o Torga teve, até ao momento, quatro fases. A primeira é da adolescência. Li aos quinze anos Os Bichos, o romance Vindima aos dezassete, alguns extractos do Diário e uns tantos poemas que tive de estudar no 12º ano.

O volume de Os Bichos fora-me emprestado por uma prima que tinha estudado a obra na escola. Uma vez que eu gostava particularmente de animais e arrogava-me de seu defensor, ela entendeu que talvez eu gostasse de o ler.

Li o prefácio e pouco percebi do que ali era dito. Era um português a que eu não estava habituado, com umas quantas palavras estranhas que me soavam mal. E depois havia uma passagem que particularmente me desagradava. Dizia o autor ao seu querido leitor: «um conto que te agradou, tem algumas probabilidades de agradar aos teus netos. Porque não hão-de eles tirar ninhos quando forem crianças? E se tal não acontecer, paciência: ficarei um pouco triste». Eu, que nunca tinha tirado um ninho e que me desagrava quando via os outros a fazê-lo, não poderia conceber, na minha consciência ecológica, que o Torga pudesse escrever uma crueldade destas: que ficaria triste se alguma criança não andasse a tirar ninhos.

Para quem não sabe, tirar ninhos é procurá-los nas árvores e nos arbustos e destruí-los depois de se lhes roubar os ovos ou as crias.

Depois do prefácio, que muito me decepcionou, iniciei a leitura dos contos. Senti um misto de amor e repulsa em quase todos eles. Eram contos bem construídos, com uma forte carga dramática, que entusiasmava a leitura. Além disso, os temas tratados, à volta dos animais que eu conhecia (touros, cães, gatos, galos, pardais, sapos, etc.), relacionavam-se com o contexto social em que eu fora criado – uma aldeia próxima de Braga, onde o convívio com os animais era frequente. Solidarizei-me com as dores dos animais. Não devo ter chorado com a triste história de Nero, o cão velho nos estertores da morte; da ovelha Mimosa, «prenha como uma vaca», morta à pedrada; do touro Miura morto na arena, ou do sapo Bambo espetado num pau por um menino «mau de natureza» (p. 59). Mas fiquei certamente comovido.

A minha repulsa ou rejeição pela obra Os Bichos vinha do facto de achar que no fundo o autor não sentia verdadeira piedade pelo sofrimento dos animais que ele descrevia. O senhor Nicolau, personagem de um dos contos com o mesmo título, era, a meu ver, o seu alter-ego. Miguel Torga, à maneira do senhor Nicolau, era um coleccionador de insectos «catalogados e suspensos num alfinete que lhes entrava nas costas e saía na barriga». A obra não passava, a meu ver, disso mesmo.

Por outro lado, parecia-me que, de certo modo, Miguel Torga falava do que não conhecia, ou conhecia muito superficialmente. Essa desconfiança surgiu-me quando, no conto «Jesus», ele refere que o Menino Jesus subiu a um cedro para colocar no ninho um pintassilgo que tinha caído. Eu sabia por experiência própria que os cedros tinham o tronco demasiado rugoso e a casca era tão cheia de arestas cortantes que se tornava impossível trepar por eles. Sabia também que as aves evitavam a nidificação nos cedros. Primeiro porque são árvores que expelem toxinas e segundo porque os ramos que crescem na vertical não permitem manter com segurança um ninho.

O conto sobre Vicente, o corvo que fugira da Arca de Noé e que desafiara Deus, passara-me, aos 15 anos, despercebido, talvez porque não o tenha entendido. Uma leitura mais recente levou-me a considerá-lo um dos melhores contos de Os Bichos.

Contam os Génesis que Noé, cumprindo uma ordem de Deus, juntou um casal de cada animal da terra que guardou na arca. Sobrevindo o dilúvio, a arca andou perdida nas águas. Quarenta dias depois, Noé, para saber quando baixariam as águas, soltou um corvo que saiu várias vezes. Depois soltou uma pomba e nunca mais soubemos nada do corvo. A pomba um dia voltou para a arca com uma folha verde de oliveira. Noé aguardou mais sete dias, soltou novamente a pomba, mas ela não regressou. Decidiu abrir o tecto da arca e constatou que a terra já estava seca.

Torga pegou em parte deste episódio bíblico e recriou-o. Em vez da pomba, é o corvo o protagonista. O corvo representa a persistência, a liberdade de acção, a iniciativa própria e a perspicácia; mas também a irreverência e a revolta. Quarenta dias depois de entrar na arca, farto daquela prisão e indignado com Deus, que punia os animais pelos pecados dos homens – «Que tinham que ver os bichos com as fornicações dos homens?» –, Vicente abriu as asas e partiu. Todos os outros animais ficaram pasmados com a ousadia do corvo. «O seu gesto foi naquele momento o símbolo da universal libertação».

O corvo é o alter-ego do autor, esse Orfeu rebelde que contraria os deuses, desobediente e destemido, cuja voz se não cala, cuja voz é a voz dos outros que não têm nem engenho nem audácia para erguerem a sua própria voz contra os deuses.

Sobre o romance Vindima, que li aos dezassete anos emprestado por um padre, pouco ou nada me ficou. Não voltei a lê-lo e por isso o que aqui possa dizer não tem qualquer relevância. Por essa altura lia o Garrett, o Herculano, o Camilo e o Eça de Queirós e o único romance que o Torga escreveu não me impressionou.

A segunda fase da minha relação com o Torga condiz com a entrada na universidade, onde me licenciei em Humanidades. Li por essa altura a colectânea de contos Pedras Lavradas e a obra Portugal. Foi com esta última obra que começaram os meus problemas com o Torga. Não gostei dos comentários depreciativos que ele fez sobre o Minho e os minhotos. Como eu escrevi na altura num trabalho que fiz para a cadeira de Cultura Portuguesa, «Torga dá-nos uma imagem do Minho extremamente esverdeada. Diz que era uma tolice “visitar a célula da nacionalidade com tanta folha nos sentidos”. “Quem poderia vislumbrar uma grandeza humana e telúrica soterrada por tanta parra sulfatada?”. E contrapunha: “A uma aguarela de ferrã e a um folclore domingueiro prefiro uma paisagem de fragas e uma roca singela”». Era um transmontano habituado a «um mar de pedras», «à terra nua que, parda como burel, tinha ossos e chagas». O «pesadelo verde», os «quilómetros de esmeralda» que tanto entediaram Torga na sua jornada pelo Minho, eram bons para ruminantes, vulgo vacas.

A descrição que ele faz da cidade de Braga é revoltante e eu, como bracarense, se tinha alguma consideração pelo autor de Os Bichos, perdi-a de todo. Não poderia simpatizar com um homem que dizia que Braga, entre muitas outras coisas desagradáveis, era «uma pequena e banal cidade de santeiros e seminaristas», de ruas vulgares onde «nos seus pobres monumentos se estampava a indigência criadora de oitocentos anos de cantochão». A opinião que Torga tinha de Braga, que poderia adaptar-se a qualquer outra cidade portuguesa onde houvesse um número significativo de igrejas (Braga, ao contrário do que se pensa, não tem mais do que qualquer outra – Évora, por exemplo, tem tantas ou mais do que Braga), a opinião que Torga tinha de Braga, dizia eu, era baseada em preconceitos.

A terceira fase foi quase de esquecimento e até de algum desdém. Descobri outros autores que eu considerava bem mais interessantes. Saliento o Vergílio Ferreira, o Saramago, o Cardoso Pires e o Lobo Antunes, para só falar dos portugueses.

Esta terceira fase durou mais de dez anos. Muito contribuiu o que se pensava nos meios literários e académicos, que tinham o Torga em muito pouca conta. Pese embora isso, li nesta fase os dois primeiros volumes do Diário. Não foi por gosto, mas por necessidade. Comecei a preparar a minha tese de doutoramento, que era sobre literatura autobiográfica, e senti-me obrigado a ler alguma coisa da diarística do Torga, pois teria forçosamente de falar dele. Os diários não me impressionaram, talvez pelo facto de o estilo ser demasiado burilado e o autor não entrar em grandes confidências, duas características que são contrárias ao estilo autobiográfico, onde o que escreve o faz de uma forma menos literária, mais ao correr da pena, e revela, ou procura revelar, os seus pensamentos mais íntimos.

Quando em 2001 publiquei a obra Fluviais, uma colectânea de contos aldeãos de inspiração minhota e transmontana, alguns críticos e académicos descobriram neles fortes influências torguianas. Não concordei. E não concordei por dois motivos. Primeiro porque escrever sobre a vida aldeã não é apanágio do Torga. Muitos outros autores se debruçaram sobre essa temática. Basta lembrar, por exemplo, o Eça de Queirós na Cidade e as Serras ou o Aquilo Ribeiro nas Terras do Demo. Segundo porque o Torga nunca foi para mim uma referência, um modelo enfim que eu desejasse imitar.

A última fase da minha relação com o Torga é a actual. Reli este ano, centenário do seu nascimento, Os Bichos e li pela primeira vez os Contos da Montanha, os Novos Contos da Montanha e a peça de teatro Terra Firme. Embora estes pequenos livros juntos não somem mais de quinhentas páginas, menos do que os actuais romances do António Lobo Antunes, foi uma verdadeira barrigada de Torga.

Alguns dos antigos e novos contos da montanha já os conhecia, no todo ou em parte, por tê-los lido em manuais escolares quando fui professor de Português no Ensino Secundário, no tempo em que o Torga ainda fazia parte dos curricula [1]. Mas a maior parte dos contos era-me desconhecida. Foi com grande proveito e exemplo, para usar uma expressão de Gonçalo Fernandes Trancoso, o nosso primeiro grande contista, que os li.

São contos fortes, esculpidos na pedra da condição humana do povo transmontano. As personagens, em geral planas, são obstinadas nos propósitos que as movem, com muito mau feitio, ou de mau talhe, fruto da vida dura que carregam como um peso imenso nas costas que se esforçam teimosamente por manter direitas. São personagens extintas, de um outro tempo, de um outro universo, incompreensíveis e anacrónicas nesta era da globalização.

Poderia referir meia dezenas de contos que me agradaram em particular, mas seria demasiado longo estar aqui a falar de cada um deles. Falarei apenas de um, «O Senhor», inserido nos Novos Contos da Montanha. É um dos contos mais extensos que o Torga escreveu e não é por caso que o autor o escolheu para encerrar o livro.

Começa o autor por descrever uma lavrada. Os homens regressando a casa com os bois estafados do trabalho, são chamados pelo sino da igreja a acompanhar o sagrado viático numa visita a uma doente. A hóstia segue nas mãos do Padre Gusmão debaixo do pálio, com o povo atrás a cantar. A procissão pára à porta do moinho do Fojo, onde a Filomena, a mulher do moleiro, se encontra às portas da morte por causa de um mau parto e sobretudo por falta de assistência médica adequada.

O padre Gusmão, vendo o estado em que a mulher se encontra, perguntou ao marido por que não foi chamar a parteira ou o médico. Naquelas circunstâncias, era deles que a mulher precisava, não dos serviços de um padre. O moleiro disse-lhe que a parteira nada podia fazer e eles não tinham dinheiro para pagar a um médico. O padre poisou o sagrado viático, tirou a estola e arregaçou as mangas. Perdido o pudor que de início o invadira, enterrou as mãos possantes no corpo da mulher e ajudou a criança atravessada a nascer. Com a criança a espernear nos seus braços, deu uma exclamação de triunfo. Nessa exclamação «havia qualquer coisa de herético que feria os sentimentos do moleiro. Mas por outro lado, nada o poderia comover mais do que ver o filho a espernear naquelas mãos poderosas, humanas, que o acabavam de roubar à escuridão do nada.» O padre compôs os paramentos, pegou no sagrado viático que não fora preciso ministrar e partiu.

Este conto é um dos mais interessantes escritor por Torga e um dos menos conhecidos, talvez pelo facto de a personagem principal ser um padre que, no seu pouco saber das coisas terrenas, consegue salvar uma mãe e um filho de morrerem por falta de assistência médica. O anticlericalismo português é por demais conhecido e pode ser ele a explicação para este conto ter passado despercebido. Confesso que fiquei bastante emocionado depois de o ter lido e, quando o reli para escrever o que aqui fica, senti de novo o tremor da emoção. Como isso me acontece muito raramente (costumo ser demasiado frio e crítico quando leio alguma coisa), só tenho de atribuir o mérito ao Miguel Torga, que me conseguiu emocionar.

Não fiquei a admirá-lo mais por causa deste conto. Fiquei, talvez, a respeitá-lo mais. Continuo a não lhe perdoar ter dito mal da minha terra.

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[1] As obras de Miguel Torga, aliás como obras de autores como Alves Redol e Manuel da Fonseca, inicialmente literatura para adultos, foram dados às crianças especialmente a partir de 1974. A esta espécie de literatura chama Isabel Jan em La Litterature Enfantine (Paris, Editions Ouvrières, 1977) literatura abandonada.