A ORIGEM

A fundação da Paraíba, ao contrário do que muitos pensam, deu-se no dia 4 de novembro de 1585, em conseqüência de um pacto de paz firmado entre o índio Piragibe, cacique dos Tabajaras e  Martim Leitão, no dia 3 de agosto do mesmo ano.

A data 5 de agosto é atribuída em memória do desembarque de João Tavares a fim de escolher o local onde seria construído o Forte que deu origem a cidade.

Segundo o historiador Horácio Almeida, “João Tavares no dia do desembarque não fez mais do que dar umas voltas em terra para verificação do sítio recomendado por Martim Leitão. Nem mesmo o local do Forte escolheu pois essa atribuição não era de sua competência.

O dia 5 de agosto ficou valendo por ser esse o dia da invocação à Nossa Senhora das Neves, nome esse atribuído ao seu primeiro batismo.”

Três anos depois, no Governo de Frutuoso Barbosa (1588/1591), a cidade passou a ser chamada de Filipéia de Nossa Senhora das Neves e foi atribuída a Frutuoso, “a idéia bajulatória de mudar o nome da cidade em homenagem ao rei da Espanha e Portugal , Felipe II.”

Em 1634, tivemos a invasão Holandesa e mais uma vez foi mudado para Frederica, em honra a Frederico, príncipe de Orange.

Depois da restauração, tomou o nome de Parahyba que manteve por quase trezentos anos, até ser substituído, em 1930, pelo nome de João Pessoa, o quinto do seu batismo.

É esta a ordem cronológica do batismo:

1º) Nossa Senhora das Neves……………1585/1588        3 anos

2º) Filipéia de N.Srª. das Neves…………..1588/1634     46 anos

3º) Frederica……………………………………1634/1654       20 anos

4º) Parahyba…………………………………….1654/1930    276 anos

5º) João Pessoa………………………………..1930               77 anos

Como se vê, a nossa História já começa equivocada desde a data de sua fundação, na medida em que se adotou o 5 de Agosto como data de seu aniversário. Na verdade, a pedra fundamental que deu origem a cidade foi colocada no dia 4 de novembro do mesmo ano.

A partir de agora, faremos um estudo da mudança do seu último nome para uma maior reflexão, tentando resgatar principalmente os fatos que contribuíram para isto.

 

 

COMO ACONTECEU ESTA MUDANÇA?

 

Alguns historiadores atribuem ao poeta Américo Falcão a infeliz idéia de violentar o nosso passado, interrompendo uma História de quase 300 anos. O fato é que, no dia 1º de setembro de 1930, trinta e sete dias após a morte de João Pessoa, realizou-se uma Sessão na Assembléia Legislativa na tentativa dessa grotesca mudança.

Depois de brigas, vaias, pedradas e assovios a sessão foi interrompida por falta de segurança. Uma nova sessão foi aberta quando alunos da Escola Normal, patrocinados pela mídia e o fanatismo desenfreado da comoção que ora vivenciavam , atiraram ovos nos deputados oposicionistas forçando mais uma vez o encerramento da Sessão.

Foi só na terceira tentativa, sem a presença dos deputados da oposição e numa medida ditatorial e de visível imposição, que a Assembléia aprovou no dia 4 de setembro do mesmo ano a mudança do nome da nossa capital, da nossa bandeira e do Palácio do Governo que passou a ser chamado Palácio da Redenção.

Segundo Lourdinha Luna, historiadora e ex-secretária de José Américo de Almeida, em nota esclarecedora publicada no Jornal Correio da Paraíba, ”o Presidente em exercício, Álvaro de Carvalho, reuniu-se com os secretários José Américo, Ademar Vidal, o Chefe de Policia Severino Procópio, o comandante da PM Cel. Elisio Sobreira, os deputados Severino Lucena, Antônio Botto, Genésio Gambarra, o prefeito municipal José D’Ávila Lins e outros auxiliares.

Compareceram ainda o cabeça do Movimento, o poeta Américo Falcão, a professora Rita Miranda e o cônego Matias Freire o mais exaltado do encontro.

Segundo Lourdinha, o presidente passou a palavra a José Américo e o mesmo sugeriu que se prestasse todas as homenagens a João Pessoa, mas que se preservasse a designação do nome da nossa cidade.

Na hora prevaleceu o bom senso, porém os três inconformados saíram às ruas arrebanhando adeptos para a causa que defendiam. Pressionaram a Assembléia pela aprovação da Lei que alijava a designação Parahyba e entronizava João Pessoa, norma que Álvaro de Carvalho não sancionou e devolveu ao Poder Legislativo para que a promulgasse.”

Infelizmente o veto foi derrubado pela Assembléia Legislativa  e realizada a mudança.

Já o projeto que instituiu a nova bandeira, foi uma propositura do deputado campinense Generino Maciel.

Essa atitude, porém, não foi absorvida pela nossa História. O fato de não ter havido um plebiscito ou consulta da população faz com que não exista, até hoje, um consenso em relação a esta última mudança.

A pergunta é: Será que João Pessoa merece esta homenagem?

É o que veremos a seguir.

QUEM É JOÃO PESSOA?

 

 

João Pessoa não é de João Pessoa.

João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque nasceu em 24 de janeiro de 1878, na cidade de Umbuzeiro, morreu em Recife em 26 de julho de 1930 e foi enterrado no dia 08 de agosto na cidade do  Rio de Janeiro.

Passou a sua infância entre Cabaceiras e Guarabira e, aos 12 anos, viajou com seu tio, Epitácio Pessoa, para o Rio de Janeiro.

A sua passagem pela nossa cidade foi meteórica, quando estudou Humanidades no Lyceu Paraibano e se alistou ao Quartel no 27º Batalhão de Infantaria.

Aos 18 anos ingressou na Escola Militar do Rio de Janeiro.

Durante a Guerra dos Canudos acontecida na Bahia em 1897, os cadetes se rebelaram contra o presidente Prudente de Morais. Embora João Pessoa não tenha participado deste movimento, foi punido junto aos demais soldados.

Depois de anistiado, foi incorporado ao 4º Batalhão de Artilharia de Posição, na cidade de Belém do Pará, onde viveu com seu primo João Pessoa de Queiroz uma das piores fases de sua vida. Sem dinheiro e aquartelado, economizavam até na comida.

Segundo seu primo João Pessoa de Queiroz, em carta enviada de Paris e publicada no livro de Joaquim Inojosa, vale a pena conferir trechos do seu depoimento sobre essa difícil fase de suas vidas. Vejam o depoimento do seu primo:

“Minha amizade com Joca (era assim que João Pessoa era chamado por seus familiares) era grande e vivíamos na maior camaradagem e intimidade de verdadeiros irmãos. Os vencimentos que recebíamos de soldados eram juntos formavam uma só receita e íamos gastando cautelosamente para que ele desse para nos alimentar durante o mês. Continuando a vida que levávamos e sem vermos um futuro em nossa frente, tratamos de dar baixa do Exército e, para isso, nos entendemos com o comandante da região, que nesse tempo era o general Sotero e Menezes, militar digno e amigo dos ex-alunos, fazendo ver a ele a nossa situação e que não víamos futuro continuando como soldados de tarimba do Exército. Com a proteção deste amigo, conseguimos a baixa, Joca antes de mim.

Depois de paisanos, o Dr. Antônio Camilo de Holanda conseguiu uma colocação para mim como ajudante de despachante e para o Joca como auxiliar de uma mercearia, denominada Mercearia Farias.

Nos nossos empregos íamos vivendo, quando um dia Joca,que era dado à libertinagem, teve contato com uma peruana de classe muito baixa tendo apanhado moléstias muito sérias e graves a ponto de não poder andar, ficou quase entrevado e nas portas da morte.

Vendo eu que meu primo e grande amigo viria fatalmente morrer à mingua, resolvi procurar o eminente Dr. José Paes de Carvalho, então governador do Pará,  e lhe pedir uma passagem  para o primo enfermo.O Dr. Paes de Carvalho forneceu-me a passagem para a Parahyba em um vapor do Lloyd  e eu com o auxilio do meu amigo e testemunha do meu casamento Visconde José Augusto Correia que era agente o Lloyd consegui que o Joca embarcasse (…)

Ao criado de bordo, que se ocupava do camarote em que viajava o Joça, dei-lhe de gratificação a única importância que tinha no bolso 20$000, e uma carta para minha tia, pedindo-lhe para gratificar o portador generosamente, caso seu filho chegasse com vida em Cabedelo.

Não recomendei o Joca ao seu pai, porque o Joca era inimigo figadal dele, com quem não falava e por duas vezes havia tentado assassiná-lo, sendo uma das vezes impedido de fazê-lo pelo então alferes do exército Juvenal Espínola, genro do Dr. Cunha Lima, influência política de valor na Paraíba.

O Juvenal Espínola para impedir que esse crime fosse praticado, foi forçado a efetuar a prisão de Joca e recolhê-lo ao Quartel do 27º, onde ele era praça destinado a Escola Militar.

Joca chegou à Paraíba com vida e, retirado de bordo, sua boa mãe conseguiu com todo sacrifico e carinho salva-lo da morte. A sífilis subiu à cabeça e ele ficou muito tempo atacado e sempre mal de saúde, iniciou um tratamento rigoroso.

Com a saúde melhorada foi para o Recife onde se matriculou na Faculdade de Direito e ali concluiu o curso (“…)”

Essa carta do seu primo mostra bem o temperamento desequilibrado e rancoroso de João Pessoa que, além de tentar assassinar o próprio pai, mais tarde, a o se tornar governador esquece os favores e amizade do primo que ajudou a salvá-lo da morte, tornando-se um dos seus inimigos mais ferrenhos.

Aos 27 anos, João Pessoa casou-se, constituiu família e foi morar no Rio de Janeiro. A sorte sorriu para ele ao se tornar o homem de confiança de seu tio Epitácio Pessoa.

A sua função consistia em representar o tio junto aos Poderes da República, intermediando verbas e discutindo providências das autoridades paraibanas. Foi pelas mãos de Epitácio que tornou-se Auditor da Marinha e mais tarde Ministro do Supremo Tribunal Militar.

A chegada de João Pessoa em nossa História foi marcada de divisões e derramamento de sangue, embora ele nunca tenha sido um revolucionário.

A bem da verdade, João Pessoa nunca teve identidade com a nossa cidade, nunca foi eleito pelo nosso povo e o seu curto e tumultuado governo só fez gerar traumas que até hoje permanecem no  inconsciente coletivo.

COMO  JOÃO PESSOA VIROU GOVERNADOR

 

 

Em 1928 quando se aproximava o dia da escolha para o novo Presidente da Província(*), o governador João Suassuna resolveu consultar o ex-presidente Epitácio Pessoa, líder político da Paraíba, para comunicar o seu apoio a Júlio Lyra, candidato natural a sua sucessão.

A “Oligarquia Epitacista”, surgida em 1915, estava em pleno declínio. Foi quando Epitácio Pessoa viu nessa consulta a possibilidade concreta de fortalecer esta oligarquia através da indicação de seu sobrinho para governar a Paraíba.

Epitácio tinha João Pessoa como seu sobrinho predileto. A ele nada faltava. Da mesma forma, João Pessoa devia toda sua trajetória ao ex-presidente e muitas vezes não poupava de elogios perante seus correligionários. Certa vez chegou a confidenciar em uma roda de amigos que “se não fosse tio Epitácio, eu, meus irmãos, meus primos, não passaríamos de reles carregadores nas alfândegas do Recife.”.

Em virtude dessa relação, João Pessoa obedecia às vontades do tio, independente de erros ou acertos que pudessem acontecer.

Finalmente no dia 03 de janeiro de 1928, Epitácio Pessoa escreve para João Suassuna vetando o nome de Júlio Lyra e indicando o nome do seu sobrinho para governar a Paraíba.

Segundo José Octávio em seu livro “A Paraíba e a década de 20” o escritor Ariano Suassuna examinando a questão, compreendeu que, “ ao permitir a ascensão de João Pessoa, seu pai (João Suassuna) cometeu o maior erro político de sua carreira quando abriu oportunidade a que assumisse proporções dramáticas naquele confronto cidade-sertão que se esboçara no seu governo e que iria culminar na luta de Princesa em 1930.”

Foi dessa forma, através da imposição do tio e a concordância do ex-governador João Suassuna, que João Pessoa finalmente é nomeado presidente da Província.

O GOVERNO DE JOÃO PESSOA

 

João Pessoa assumiu no dia 22 de outubro de 1928 e seu governo durou apenas 1 ano e 9 meses.

Temperamental e arrogante agia com uma severidade que não poupava ninguém. Enxugou a máquina administrativa e provocou a reforma tributária instituindo vários impostos. Evidentemente aumentou a arrecadação e pagou as dívidas, porém muitos destes impostos eram inconstitucionais.

A briga familiar entre os seus primos João Pessoa de Queiroz e Francisco de Queiroz foi exatamente por causa de dois destes impostos que foram depois derrubados pelo Supremo Tribunal de Justiça.

No seu programa de obras, reformou o Palácio do Governo, mas para isto demoliu a velha Igreja da Conceição construída há mais de 200 anos entre o Palácio do Governo e a Faculdade de Direito. Foi nessa Igreja que Dom Pedro II, em uma de suas raras passagens pela Paraíba assistiu a Missa do Galo na véspera do Natal de 1859.  Construiu o Pavilhão do Chá, na Praça Venâncio Neiva; alargou a Rua Maciel Pinheiro; ampliou o edifício da Imprensa Oficial; construiu o campo de aviação e calçou algumas ruas. Deu início à construção do Paraíba Palace Hotel derrubando o casarão de azulejos de três pavimentos, um patrimônio histórico de extrema importância, onde funcionava o Jornal Correio da Manhã, e concluiu a abertura da estrada que levava ao litoral, hoje Avenida Epitácio Pessoa, obra começada no Governo de Camilo de Holanda, e só urbanizada no Governo de José Américo de Almeida, em 1956.

No interior do estado, pouca coisa fez, construindo a Ponte de Gurinhém e da Batalha, em parceria com a Usina São João e abriu duas estradas vicinais.

Segundo Oswaldo Trigueiro no seu livro “A Paraíba e a Primeira República”, João Pessoa “precisando de recursos para restaurar as estradas instituiu um pedágio que era cobrado com rigor militar. Para isto mandava colocar porteiras em todas as estradas, mesmo as federais, e passou a cobrar taxas para veículos de toda natureza. Dessa taxação não escapava nem carroça de boi, nem cavalo. Para ir à feira dentro do próprio município, as pessoas tinham que cumprir esta rigorosa obrigação fiscal pagando por cada cavalo, de carga ou de montaria, a importância de 300 réis.”.

Essa tributação irracional lhe fez ficar conhecido como “João Porteira”.Mais tarde, essa cobrança foi suspensa ainda, no seu governo, através de habeas-corpus concedido pelo Superior Tribunal de Justiça a requerimento do então jovem advogado  Fernando Nóbrega.”

João Pessoa fez a reforma da Polícia e colocou José Américo de Almeida como Secretário de Segurança. Vários tenentes foram nomeados e prefeitos substituídos de acordo com sua conveniência. Nem mesmo os correligionários do seu tio Epitácio foram poupados, causando constrangimentos desnecessários  e sendo motivo de muitas reclamações.

Desconfiado em excesso, via em cada funcionário da Fazenda Estadual um sonegador dos dinheiros públicos. Sem qualquer prévia averiguação, costumava demitir e estampar em letras garrafais no jornal oficial o nome do funcionário por ele julgado. Em 90% dos casos errou, mas não teve a humildade de se retratar.

Segundo o livro do Dr. Joaquim Moreira Caldas, “nessa ação opressora, exonerou delegados, prendeu e expulsou da Força Pública oficiais e soldados, demitiu promotores que apresentaram sentenças contrárias ao seu interesse.

Extinguiu comarcas, removeu magistrados, suspendeu e demitiu de suas funções vários juizes. Com perversa acusação de desonestidade, foram vitimas dessa tragédia judiciária vários membros da Magistratura vindo alguns deles a falecer por desgosto ou abatimento moral.”

Segundo Fernando Melo em seu livro “João Pessoa – uma biografia”, “Epitácio sabia do temperamento forte, autoritário e desaforado do seu sobrinho. O fato de o novo governante da Paraíba mexer com as estruturas, dando uma vassourada, era do seu conhecimento. Epitácio devia ter em mente poder controlar os ímpetos do sobrinho quando ele se excedesse.De qualquer forma sabia o risco que corria e terminou assistindo o desenrolar dos acontecimentos com João Pessoa deixando de obedecê-lo.”

Rancoroso e perseguitivo, brigou com quase todos os segmentos e instituições da sociedade. Com a Igreja não foi diferente, quando tentou vincular obrigatoriamente o casamento civil com o religioso. Até hoje não se sabe o porquê João Pessoa, orientado pelo seu tio Epitácio, quis também retirar a expressão “Em Nome de Deus” da Constituição, recebendo de imediato o  protesto por parte da Arquidiocese.Os deputados foram enfáticos ao dizerem: ”Entre Epitácio e Deus, nós preferimos ficar com Deus.

Na verdade João Pessoa quis derrubar conceitos e costumes enraizados há anos e, evidentemente, encontrou resistência. Seria até um bom administrador se não fosse um péssimo político

Se era contraditado, como afirmava o próprio José Américo de Almeida, “tornava-se ríspido, sarcástico e irresistível”.

Por várias vezes João Pessoa fora advertido pelo seu tio Epitácio e pelo Chefe de Segurança José Américo.

Há um grande exagero na valorização do Governo João Pessoa, na opinião de alguns historiadores que definem o ex-presidente como o “grande timoneiro”, “o reformador” ou ainda o “maior de todos.” Isto é um grande equívoco provocado pela manipulação dos fatos, informando apenas um lado e omitindo a verdadeira História.

A maioria das obras de João Pessoa ficaram inacabadas e só foram concluídas no governo de Antenor Navarro por causa do confronto provocado pela Aliança Liberal, durante a sucessão presidencial de 1930. Segundo vários historiadores, nos seis últimos meses de seu governo, toda verba arrecadada no estado serviu apenas para reforçar a Policia e equipar os revoltosos em suas lutas sangrentas e desnecessárias.

É inconcebível  que um Estado pobre como o nosso tenha enviado dinheiro até para o Rio Grande do Sul para patrocinar a compra de armamentos e munição.

Da mesma forma que, no início do seu governo, conseguiu sanear as dívidas e as finanças do Estado, no final da sua gestão, deixou a Paraíba em completa miserabilidade, sem nenhum recurso financeiro nos cofres públicos.

O Jornal União tornou-se um instrumento a mais em suas perseguições. Segundo Oswaldo Trigueiro “(…) publicava-se toda sorte de intrigas e vingança. Muitas delas eram de cunho pessoal.

As recomendações e censuras de Epitácio tornaram-se insistentes e incômodas, mas João Pessoa não deu importância e nem tão pouco mudou o estilo do seu Editorial.”

Podemos dizer que João Pessoa fez um governo contraditório e ao mesmo tempo deixou marcas irreparáveis na Paraíba que poderiam ser evitadas se não fosse a sua postura autoritária e truculenta.

A MENTIRA DO NEGO

Existia antigamente um rodízio de poder entre os Estados de São Paulo e Minas Gerais, e a cada 4 anos era contemplado um presidente de um destes Estados.Era a chamada  Política Café – com – Leite. São Paulo, por produzir café,  Minas por ser o maior produtor de leite. Em 1930, seria a vez de Minas Gerais lançar Antônio Carlos como candidato a presidente, porém Washington Luís resolveu quebrar este pacto para apoiar a candidatura paulista de Júlio Prestes.

A quebra deste sistema fez com que Minas Gerais se aliasse ao Rio Grande do Sul, lançando Getúlio Vargas como candidato de oposição ao Governo Federal.

É bom lembrar que, em nenhum momento, a Paraíba foi contatada ou lembrada para fazer parte dessa aliança até porque éramos um Estado sem representação eleitoral e que, portanto, não teria peso algum a nível nacional.

Epitácio Pessoa sabendo dessa articulação entre Minas Gerais e o Rio Grande do Sul, foi ao Palácio do Catete propor ao Presidente Washington Luis uma terceira força, tendo recebido a resposta negativa do então Presidente.

Segundo Fernando Melo no seu livro “João Pessoa – Uma Biografia”, Epitácio teria ficado ressentido com o “Não” recebido pelo Catete e, conseqüentemente, lançado João Pessoa “às feras”. Na verdade João Pessoa, no íntimo, queria apoiar a candidatura de Júlio Prestes, mas foi convencido pelo tio a acatar a Aliança Liberal.Toda articulação foi feita entre os dois através de códigos telegráficos para que ninguém tivesse acesso à comunicação.

Há, inclusive, uma carta de João Pessoa direcionada aos amigos do Rio de Janeiro agradecendo a lembrança do seu nome para ser candidato a vice de Getúlio Vargas, onde dizia não aceitar tão importante cargo por não se achar merecedor.

Dois dias depois desta carta, o então Senador Epitácio Pessoa passou-lhe um telegrama impondo mais uma vez o seu sobrinho a compor chapa com Getúlio Vargas, induzindo o seu governo a fazer parte desta Aliança.

É importante que saibam disto:  quando se fala no NEGO que existe em nossa bandeira como uma atitude de João Pessoa em negar apoio a Washington Luís e Júlio Prestes não se passa de mais um exagero histórico.

O que aconteceu na verdade foi uma articulação política mal sucedida que culminou com a divisão de seu partido e de seus correligionários.

É bom lembrar que alguns dias antes da data oficial (29 de julho de1929), que ficou conhecida como o Dia do Nego, já se sabia da decisão de João Pessoa em dar apoio a Aliança Liberal. Quiseram certamente valorizar esta atitude comparando com o “Dia do Fico”, o que é uma grande mentira.

O Nego, inclusive, não foi encontrado em nenhum documento da época e nem tão pouco está no seu telegrama comunicando a posição da Paraíba na sucessão presidencial de 1930.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O ACIRRAMENTO POLÍTICO

 

 

Após João Pessoa negar apoio a candidatura de Júlio Prestes criou-se dentro do próprio partido uma divisão natural de seus correligionários, já que muitos deles discordavam dessa decisão.

A situação ficou ainda pior quando, ao se aproximar da eleição do dia 1º de março de 1930, em uma reunião do Partido Republicano da Paraíba, acontecida a 16 de fevereiro do mesmo ano, João Pessoa determinou que nenhum de seus candidatos a deputado e senador poderia concorrer à eleição, estabelecendo uma nova regra para, segundo ele, dar oportunidade as novas lideranças.

Seria até uma atitude inovadora e compreensível de um governo progressista, porém João Pessoa errou ao abrir exceção para o seu primo Carlos Pessoa permitindo que ele fosse o único  candidato entre os excluídos. Essa atitude provocou de imediato uma revolta entre os seus aliados que, a partir daquele momento, passaram a ser seus adversários.

A reação sistemática do ex-deputado José Pereira ao ver o amigo João Suassuna prejudicado por João Pessoa já apontava que o choque seria inevitável.

Por sua vez, os candidatos excluídos no processo da eleição lançaram-se em chapa própria.

A esta altura, a oposição, capitaneada por Heráclito Cavalcanti, passou a ser beneficiada pelo Governo Federal e para cada cargo retirado de um liberal, dois perrepistas eram sacrificados.

João Pessoa sabendo que iria perder as eleições tratou de colocar a policia para monitorar o pleito. Segundo o Dr. Joaquim Moreira Caldas, no seu livro “Porque João Dantas assassinou João Pessoa”, “João Pessoa praticou todos os desatinos que se possa imaginar. Mandou assaltar cidades, empiquetou estradas para os eleitores oposicionistas não se aproximarem das urnas, invadiu municípios, perturbou as eleições, organizou mesas clandestinas, recusou fiscais, não aceitou protestos, dominou no pleito pelo terror mandando espingardear adversários e incendiar suas casas.”

Várias batalhas foram travadas começando por Teixeira. O movimento se espalhou por Piancó, Imaculada, Pombal, Catolé do Rocha, e Monteiro. Assim é que no dia primeiro de março de 1930 foi deflagrada a Revolta de Princesa, quando mais de 2.000 homens armados tentaram transformar a região em território livre e independente com direito a jornal, hino e bandeira.

A Paraíba virou um pandemônio e o acirramento político, a partir daquela data, só veio a se agravar, tornando o governo de João Pessoa insustentável e violento.

REVOLTA DE PRINCESA:

JOÃO PESSOA   X   JOSÉ PEREIRA

José Pereira era dono de vasto prestigio no sertão paraibano.

Com a morte de seu pai, Cel. Marcolino Pereira Lima, José Pereira foi obrigado a interromper os estudos para assumir a chefia da família, da política e de seus negócios.

É bom esclarecer que José Pereira era aliado de Epitácio Pessoa e sempre acompanhou a sua orientação política. Automaticamente apoiou Epitácio na escolha do nome de João Pessoa para governar a Paraíba.

A sua amizade com Epitácio Pessoa era tanta que mandou erguer uma estátua de corpo inteiro em frente a sua residência, na praça principal da cidade, como forma de homenagear seu grande amigo.

Após a reunião do Partido Republicano da Paraíba, onde João Pessoa decidiu excluir os nomes de seus aliados (entre eles o ex-governador João Suassuna, que também era amigo pessoal de José Pereira), o coronel insistiu em opinar  na formação de  uma nova chapa.

A posição de João Pessoa, no entanto, foi mantida, provocando um visível atrito entre os dois.

Segundo o escritor Josué Sylvestre em seu livro “Da Revolução de 30 à queda do Estado Novo”, “ficou celébre a entrevista mantida no Palácio do Governo, quando João Pessoa fez seguidas provocações a José Pereira e que culminou com a pergunta:

 

- “ É verdade que o senhor tem cangaceiros na sua fazenda?”

Irritado, mas sem perder a classe, o Cel. respondeu:

- “Lá não estão cangaceiros e sim eleitores de seu tio

Epitácio”

Segundo José Américo nas suas memórias, João Pessoa teria chamado José Pereira diretamente de cangaceiro e que este só não reagiu violentamente porque José Américo teria feito um gesto para o coronel  sertanejo deixar  ‘prá lá” .

A bem da verdade, o Cel. José Pereira tinha um batalhão de provisórios sediado em Princesa por sua iniciativa, desde o governo de João Suassuna, com o propósito de combater o cangaceirismo na região e ajudar a polícia, que na época era completamente deficitária.

Certa vez ao ser intimidado por Lampião que ameaçou invadir a região de Princesa, o coronel mandou-lhe um recado:

“ – Pode vir que eu coloco só as mulheres para aniquilá-lo”

Mesmo com as relações estremecidas, ao se aproximar das eleições de 1º de março, João Pessoa fez uma visita a Princesa, onde foi recebido com festa, homenageado e inclusive sendo seu hóspede. Achava o coronel que João Pessoa teria revisto a sua posição.

A irritação de José Pereira ficou ainda mais acirrada quando, após João Pessoa ter viajado, recebeu através de um assessor a confirmação das candidaturas por ele impostas, sem ao menos ter havido um diálogo entre os dois.

Dois dias depois dessa visita, José Pereira telegrafou a João Pessoa inconformado com a chapa “oficializada pelo presidente em ato unipessoal, comunicando ao mesmo tempo a sua decisão de romper politicamente.”

Da mesma forma a família Dantas rompeu em solidariedade ao seu parente e  amigo João Suassuna,  também excluído da lista dos candidatos.

Confirmado o rompimento, segundo ainda o livro de Josué Sylvestre e vários outros escritores “João Pessoa adotou imediata e enérgicas providências de represálias. Ordenou a ida para Princesa de um contingente da Policia Militar, que haveria de substituir a guarnição ali destacada, orientando a tratar o coronel não mais como correligionário e sim como perigoso inimigo. Ao mesmo tempo acionou em Campina Grande o tenente Ascendino Feitosa e recomendou a imediata “ocupação” de Teixeira, terra da família Dantas.

Várias tentativas de conciliação foram feitas partindo de João Suassuna e do próprio Epitácio, na possibilidade de um acordo político, porém João Pessoa foi intransigente e preferiu partir para a luta armada.

Da mesma forma, José Pereira não deixou por menos e resolveu enfrentar a Policia de João Pessoa acreditando numa possível intervenção federal, fato que não aconteceu.

Começava ali uma verdadeira guerra entre perrepistas e liberais que durou cerca de seis meses e até hoje é considerada como o maior derramamento de sangue em toda a história da Paraíba.

 

 

 

A MORTE DE JOÃO PESSOA

 

A desavença entre João Pessoa e João Dantas começou a agravar-se com um fato insignificante.

Segundo Osvaldo Trigueiro no seu livro “A Paraíba na Primeira República”, “quando João Dantas já havia deixado a capital apareceu ali seu irmão Joaquim Dantas, pessoa de condição modesta, que nunca se envolveu em política e há dezessete anos residia no Rio de Janeiro. A ele jamais se imputou provadamente a pratica de qualquer ato ilegal.

Sem nenhuma causa aparente a policia mandou prendê-lo e enviou-o para Piancó, ficando retido por mais de  30 dias na sede do Comando das Operações contra Princesa.

O fato transtornou João Dantas que passou um telegrama para João Pessoa responsabilizando-o por qualquer eventualidade que acontecesse ao irmão.

Desse telegrama originou-se a polêmica de extrema violência: o jornal A União, órgão oficial do Governo, passou a atacar João Dantas em linguagem agressiva que era respondida por ele através do Jornal do Comércio no mesmo tom.”

O uso do jornal A União era uma prática constante que João Pessoa utilizava para denegrir a imagem de seus adversários.

Contra o ausente João Dantas, porém, a ação policial foi ainda mais cruel.

Assim é que, “enquanto acontecia a polêmica, a policia arrombou a  residência de João Dantas – um sobrado na Rua Duque de Caxias- a pretexto de procurar armas que não foram encontradas. Essa deligência, praticada de forma absurda, foi ruidosamente noticiada pelo órgão oficial.”

Não satisfeita com a desnecessária violência, a policia, dias depois, voltou à casa de João Dantas, destruiu os movéis,queimou arquivos e objetos pessoais, revistou todos os papéis e documentos que ali se encontrou e arrombou um cofre que estava fechado.

“No dia seguinte o órgão oficial publicava várias cartas apreendidas, as quais eram interpretadas como comprometedoras da honrabilidade da família. Além disso, informava aos leitores que no cofre também haviam sido encontradas cartas amorosas e um diário intimo, que não publicavam por serem imorais, mas que ficavam na redação à disposição de quem os quisesse ler.”

Uma verdadeira exposição foi montada e visitada durante dias por um sem número de curiosos que formavam filas intermináveis. As cartas envolviam o seu pai Franklin Dantas, amigos e clientes do advogado,além de sua namorada Anayde Beiriz, professora conceituada, poetisa e feminista politizada que teve também a sua honra agredida.

A repercussão deste fato ainda estava em evidência quando, a 26 de julho, João Pessoa foi ao Recife para, segundo a imprensa, visitar o Juiz Federal Cunha Melo.

Alguns escritores porém atribuem a viagem de João Pessoa a um encontro com a cantora lírica Cristina Maristany. No momento turbulento em que se encontrava era natural a presença de uma companhia feminina como forma de confidenciar suas angústias.Tanto é que esteve na Joalheria Krauser e comprou uma jóia,  possivelmente para presenteá-la.

Várias evidências levam a pensar que realmente era esse o motivo de sua viagem.A primeira delas é o fato de João Pessoa querer viajar sozinho dispensando, inclusive, a companhia de seu irmão Oswaldo.

Naquele momento o governador viajar para Recife seria muito perigoso já que Pernambuco era um celeiro de seus inimigos.

Os impostos implantados pelo seu governo nas mercadorias vendidas na Paraíba fez várias empresas daquele Estado passarem por dificuldades financeiras e muitas delas chegaram a falência.

Uma outra questão que ficou no ar: já que ele voltaria no mesmo dia, por que passou o cargo para o seu vice Álvaro de Carvalho?

João Dantas vinha num bonde de Olinda para Recife quando viu a notícia na primeira página de A União.

Ao ver a noticia publicada no Jornal oficial da Parahyba, João Dantas desceu do bonde onde se encontrava, voltou a sua residência e se armou de um revólver. Percorreu várias ruas da cidade até que viu o automóvel do Governo da Parahyba estacionado na esquina da Rua Nova com Abreu e Lima, fazendo crer que o presidente estava na Confeitaria Glória.

Ao penetrar na Confeitaria, reconheceu o presidente que despreocupadamente tomava chá na companhia de três amigos.Eram eles Agamenon Magalhães, Caio Abreu e… “Falta o nome do 3º personagem!!!!”

Aproximou-se da mesa e encarando o presidente  disse-lhe: ”Eu sou João Dantas”. Logo em seguida, disparou três tiros, matando o governador.

No primeiro tiro a bala não explodiu, o que leva a crer que a munição era velha ou há muito tempo o revólver não havia sido utilizado.

O corpo de João Pessoa foi levado para uma farmácia próxima da Confeitaria onde minutos depois não resistiu aos ferimentos.

Como afirma Trigueiro, “os fatos acima não justificam o crime, mas o explicam como fruto de questão pessoal”.

 

 

 

 

 

 

 

O ENTERRO

 

Após o resultado das eleições e a vitória de Júlio Prestes como o novo presidente do Brasil, Assis Chateaubriand, que era amigo e conterrâneo de João Pessoa, tentou estimular os setores mais agressivos da Aliança Liberal a não aceitar os resultados pacificamente.

A exploração do cadáver de João Pessoa foi, portanto, o maior pontapé para que se instalasse a Revolução.

Embalsamaram seu corpo, que desfilou em carro aberto em Recife durante 2 dias e em seguida mais 2 dias na Parahyba, como era chamada nossa cidade.

Estava tudo certo para no dia 31 de julho seguir viagem de avião com destino ao Rio de Janeiro, onde seria sepultado.Foi dada a informação no entanto que o Presidente eleito, Julio Prestes, que se encontrava na Europa, estava regressando para o Brasil.

O corpo de João Pessoa foi então colocado em um navio para coincidir propositadamente com a chegada do novo  Presidente do Brasil ao Rio de Janeiro.

Em cada porto uma manifestação e um discurso eram feitos inflamando a população para um levante.

Enquanto isso, a mídia nacional, capitaneada por Assis Chateaubriand, tratou de esquentar várias matérias na revista O Cruzeiro e em jornais de todo o país culpando o Governo Federal pela morte de João Pessoa.

Os aliancistas (ou liberais como queiram) que, em sua maioria, já tinha aceitado a derrota das urnas, começaram a se reagrupar e gradativamente construir a conspiração que levou ao inicio da Revolução.

Nunca se viu em toda a História do Brasil um oportunismo tão incoerente em torno de um cadáver.

É como afirmou na época, o jornalista Barbosa Lima Sobrinho: “Nenhuma caravana política, de tantas que percorreram o Brasil na campanha aliancista, pode fazer pela causa o que esse funeral vai conseguindo. João pessoa vivo foi uma voz contra a Revolução. João Pessoa morto foi o verdadeiro articulador do movimento revolucionário”

Na verdade transformaram a morte de João Pessoa na principal bandeira da Revolução e o que era um crime passional passou a ser um crime político

MORTES E REVOLUÇÃO

 

 

Após o enterro de João Pessoa e a “farra política em torno de seu cadáver”, a mídia continuou a lançar o ódio e a fúria em busca de um levante revolucionário.

Casas de perrepistas eram destruídas e incendiadas, famílias se refugiavam em quartéis para não serem mortas, mercadorias eram saqueadas e confiscadas pela própria policia, e carros depredados ou simplesmente incendiados.

Os presos foram soltos e orientados a perseguir ou fuzilar todos os perrepistas como forma de garantir a liberdade.

O cheiro de sangue e de morte predominava nas ruas enquanto a população era obrigada a colocar luto ou a bandeira da Aliança Liberal em suas residências sob pena de sofrerem represálias.

Segundo José Américo de Almeida em seu livro”O Ano do Nego”, “os dias que mediaram entre a morte de João Pessoa e a vitória da Revolução de 30, formaram um quadro vivo da loucura coletiva.Gritavam os fanáticos: Morte aos inimigos de João Pessoa!”

Nesse clima de total descontrole, várias famílias fugiram para outros Estados deixando para trás toda uma história, muitas delas, construídas com sacrifício.

Enquanto isso, João Dantas e seu cunhado Augusto Caldas permaneciam presos em Recife à espera de julgamento.

É bom lembrar que Augusto Caldas foi preso apenas pelo fato de ter se comunicado com João Dantas no dia do crime. O seu contato seria para levar ao Jornal do Comércio a resposta que João Dantas escrevera ao afronto publicado por João Pessoa no jornal A União, no dia anterior.

No dia 4 de outubro, finalmente, é lavrada a vitória da Revolução com a morte do general “Lavoisiére”, a rendição do 22º Batalhão, a destituição de Washington Luís e a conseqüente ascensão de Getúlio Vargas que, diga-se de passagem, foi um dos maiores ditadores do Brasil.

No dia 6 de outubro, dois dias depois da vitória dos revoltosos, João Dantas e seu cunhado Augusto Caldas foram barbaramente assassinados.

É bom lembrar também que, mesmo João Dantas assumindo toda responsabilidade pelo crime cometido, Augusto Caldas, não foi poupado pela fúria pessoísta sendo morto covardemente  pelos correligionários de João Pessoa.

A mídia tentou encobrir o crime anunciando ter sido um suicídio. Pior: disseram que João Dantas teria matado seu cunhado Augusto Caldas e, logo em seguida, cometido o suicídio.

A farsa foi desmascarada logo após o suicídio do fotógrafo Louis Pierreck.

Louis Pierreck era um conceituado fotógrafo francês radicado em Recife. Foi ele um dos primeiros a chegar no local do crime, na enfermaria-cela onde se encontrava os corpos de Dantas e Caldas e ali fotografou tudo. Pierreck, no entanto, foi obrigado a tirar novas fotografias, trocando as posições dos corpos e manipulando a cena para dar a impressão de ter havido luta corporal entre os dois, seguido de suicídio. Depois de acatar esta ordem expedida pelos correligionários de João Pessoa, Louis Pierreck entrou em profunda depressão e não agüentou o peso da consciência, vindo a cometer suicídio em seu apartamento.

A mentira foi descoberta depois que foi encontrado em seu cofre particular um envelope lacrado e bem embalado contendo as fotografias originais e verdadeiras deste bárbaro e duplo assassinato.

Fim trágico aconteceu também ao pai do escritor e dramaturgo Ariano Suassuna, o ex-governador João Suassuna, quando foi morto com um tiro pelas costas, na cidade do Rio de Janeiro, em represália pela morte de João Pessoa.

Da mesma forma, Anayde Beiriz, impossibilitada de viver e sendo constantemente perseguida, acabou cometendo suicídio.

 

PERSONAGENS ENVOLVIDAS NA TRAGÉDIA

 

 

JOÃO DUARTE DANTAS

Nasceu em Mamanguape no dia 12 de junho de 1888.Foi criado e educado por sua avó. Aos dezesseis anos cursou Humanidades no Lyceu Paraibano, formou-se em Direito em Recife e iniciou-se como jornalista no Jornal Pernambuco*. Inteligente e culto dedicou-se à advocacia. Com seu amigo João da Mata, conquistou várias glórias nas lutas forenses.Ele, João da Mata e José Américo de Almeida chegaram a morar juntos.Sempre respeitado,era polido no trato, alegre e comunicativo.Não jogava, não bebia e não tinha vícios. Seus atos nunca o caracterizaram como violento ou arbitrário.

A sua atitude  em matar João Pessoa foi exclusivamente de caráter pessoal. Foi transformado pela mídia em bandido, perverso, violento e sanguinário. Em nenhum momento deixou de assumir o terrível ato por ele praticado, demonstrado coragem e assumindo suas conseqüências.

“Os que lhe diziam violento não sabiam compreender que essa manifestação de egoísmo foi um excesso de zelo pela honra da família.”

Na verdade João Dantas foi cometido por um surto ao ver o seu diário intimo, e as cartas de sua namorada Anayde Beiriz expostas para toda população num total desrespeito contra a honra e a moral de sua família. Nada justifica, porém explica!

ANAYDE BEIRIZ

 

Nasceu na Parahyba, em 18 de fevereiro de 1905, em maio de 1922 foi diplomada como professora pela Escola Normal sendo a primeira de turma. Em dezembro de 1925, vence o concurso de beleza promovido pelo Correio da Manhã.

Intelectual, alegre e comunicativa, podemos dizer que foi uma das primeiras mulheres a quebrar tabus diante uma sociedade hipócrita e preconceituosa.

Ensinou na Escola de pescadores em Cabedelo e não teve grandes oportunidades na vida.

Seu namoro com João Dantas começou em 1928.

Após a tragédia da Confeitaria Glória, tentaram culpá-la como pivô da morte da morte de João Pessoa. Foi taxada de prostituta e difamada pelas mesmas pessoas que matavam e incendiavam casas.

Segundo José Joffily, “Anayde padeceu comprimida dentro dos acanhados limites de uma sociedade governada por grupos oligárquicos de mentalidade agro pastoril, padecimento que só cessou quando Anayde se livrou da vida”

Sua vida virou um inferno, tendo de se esconder de casa em casa para não ser apedrejada.

Perseguida, Anayde Beiriz refugiou-se no Asilo Bom Pastor, em Recife, no dia 22 de outubro, suicidando-se por envenenamento no mesmo dia e sendo sepultada como indigente.

ERA MESMO ESTE O NOME DO JORNAL????

NÃO FOI SEPULDADA COMO INDIGENTE.

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O QUE MUITOS NÃO SABEM

o   Das cidades litorâneas a nossa capital é a única que teve origem às margens de um Rio – O Rio Parahyba.

o   João Pessoa nunca foi presidente da República como muitos pensam. A denominação Presidente era atribuída aos governadores da época que eram chamados Presidentes de Províncias.

o   Em seu curto Governo na Paraíba não houve sequer a presença de uma primeira dama. Sua família continuou morando no Rio de Janeiro e esteve na Paraíba apenas 3 vezes e em férias.

o   O NEGO, escrito em nossa bandeira não foi encontrado em nenhum documento da época, sendo essa atitude questionada e, posteriormente confirmada como uma articulação política.

o   João Pessoa não morreu pelo nosso Estado e nem tão pouco queria Revolução. Detestava essa palavra. Se não tivesse sido assassinado por João Dantas jamais entraria para a História.

o   João Pessoa nunca foi um mártir ou um herói. A mídia transformou seu cadáver na bandeira da revolução, culpando o Governo Federal pela sua morte.

o   João Pessoa foi nomeado pelo seu tio Epitácio Pessoa para governar a Paraíba. Nunca teve o voto dos paraibanos para ocupar o cargo.

o   Durante a caçada aos perrepistas pelas forças liberais, capitaneadas pela Policia de João Pessoa, muitas famílias tiveram que se exilar em quartéis para não serem mortas ou apedrejadas.

o   A Polícia de João Pessoa costumava invadir residências e estabelecimentos comerciais saqueando tudo que tinha pela frente. Mercadorias, bens materiais e até carros eram confiscados ou destruídos.

o   Muitos presos foram soltos para ajudar a Polícia nessas ações, o que aumentou ainda mais a violência e o derramamento de sangue.

o   O ex-governador João Suassuna, pai de Ariano Suassuna, foi morto pelas costas em represália à morte de João Pessoa.

o   João Dantas e o seu cunhado Augusto Caldas não praticaram suicídio. Ao contrário do que os historiadores tendenciosos contam, foram mortos na penitenciária do Recife por correligionários de João Pessoa, mesmo tendo havido  a vitória da Revolução.

o   Durante as disputas e o acirramento político em 1930, as casas dos perrepistas eram marcadas com “X” e o estabelecimento onde houvesse essa marca fatalmente seria incendiado ou destruído.

o   O medo e a angústia imperaram em 1930 e muitas famílias tiveram que fugir da Paraíba interrompendo uma tradição que só trouxe prejuízos ao nosso crescimento.

o   Muita gente foi obrigada a colocar luto pela morte de João Pessoa ou vestir a cor da bandeira do partido liberal sob pena de sofrer repressão, perseguições ou até mesmo mortes.

o   Anayde Beiriz suicidou-se nas dependências de um Convento em Recife. Seu corpo foi autopsiado, a pedido da mesma, para provar a sua virgindade. Mesmo assim a sua família continuou sendo perseguida tendo que fugir da Paraíba.

o   Com a mudança do nome da capital e a bandeira do Estado, a nossa História foi jogada no lixo em um total desrespeito ao povo paraibano.

o   O projeto que mudou a nossa bandeira, apresentado pelo deputado campinense Generino Maciel, ainda chegou a ser vetado por Álvaro de Carvalho,( presidente que ocupou a vaga deixada por João Pessoa), porém o veto foi derrubado pela Assembléia Legislativa.

o   Várias fazendas dos perrepistas foram incendiadas, as plantações destruídas e os animais mortos pela fúria pessoísta.

o   A cidade, na época dessa mudança, tinha apenas 60 mil habitantes e 78% da população era analfabeta e fácil de ser manipulada.

o   Após a morte de João Pessoa a população foi obrigada a se ajoelhar diante de seu retrato sob pena de sofrer retaliações ou perseguições.

o   Quase todos os arquivos da época foram queimados para encobrir a verdade, inclusive livros e documentos foram recolhidos e destruídos.

o   Uma História de sangue e de luto jamais deveria ser lembrada como motivo de orgulho.

 

FRASES QUE REVELAM A VERDADEIRA HISTÓRIA

 

“João Pessoa? Com franqueza, Epitácio,essa escolha que você acabou de fazer é um verdadeiro desastre.O João não possue qualidades para bem governar seu Estado.Ele vai esfacelar seu partido.Será o último presidente que você fará na Parahyba

( Opinião do senador do Rio Grande do Norte,Sr. João Lyra quando

foi comunicado o nome de João Pessoa para presidente da                       Parahyba)

“ – Está com medo? ( pergunta João Pessoa)

– Eu, medo? Não significa que eu não entre na luta com

entusiasmo e decisão, mas uma coisa eu digo: a

Paraíba vai sofrer horrores, o futuro dirá.”

 

( Diálogo entre João Pessoa e José Américo de Almeida dias antes da

decisão em negar apoio ao candidato do catete Júlio Prestes)

 

“Estou só dizendo.E Deus queira que me engane. A

brincadeira vai custar-nos caro.Pode escrever.”

 

( José Américo de Almeida para João Pessoa)

“Tudo no Governo atual é assim: com força, o homem é valente e por tudo quer brigar. Não sei na verdade o que lhe dizer como protesto às misérias escritas pela “A União” contra vocês. Essa conduta incentivada pelo meu tresloucado irmão, tem me doído n’alma pelo descritério e injustiça. Motivando a estúpida agressão,bem que eu lhes dizia,há meses, irmos ter a frente do Estado um indivíduo intolerável, um desvairado”

 

( Joaquim Pessoa, irmão de João pessoa em carta para os primos Queiroz)

 

“Doutor esse meu sobrinho é assim mesmo. Ele vai mudar de roupa pra sair, o dia está claro, o céu está límpido, mas quando termina a toilette, uma nuvem toldou a fase do sol e vai chover… É quando basta para o homem praguejar com Deus.”

( Epitácio Pessoa definindo o sobrinho para o Sr. Francisco Alexandrino de Mello que lhe fora levar a mágoa da agressão que recebeu João Pessoa)

“Eles não querem harmonizar os interesses, pois fiquem sabendo que iremos ter muito sangue derramado contra eles, principalmente o Heráclito, irei até  à calúnia.”

( João Pessoa, aos seus aliados em visível recado aos oposicionistas)

“É preciso agirmos sem delongas e com máximo de violência para logo esmagá-los”

( João Pessoa aos seus auxiliares ao mesmo tempo que transmitia ordens severas contra …...??????……………… de Princesa e Teixeira)

“Todo membro da família Dantas que encontrar com armas na mão, fuzile.”

(Telegrama de João Pessoa a Ascendino Feitosa,delegado de Policia em Campina Grande que comanda ação policial em Teixeira)

“O ambiente de luta suprimia a sensibilidade despertando instintos violentos.Ter tantas mortes nas costas era uma carta de recomendação.”

 

( José Américo de Almeida )

“Seu Matias, porque não me matam?”

( João Pessoa no auge do desespero abrindo-lhe o coração numa confissão dolorosa)

 

“Se não fosse tio Epitácio, eu meus irmãos, meus primos não passaríamos de reles carregadores nas alfândegas do Recife.”

 

( João Pessoa)

 

“Prefiro dez vezes a vitória do Sr. Júlio Prestes à melhor das revoluções.”

( De João Pessoa para o Padre Marcos Penna durante a caravana liberal na campanha de 1930)

“ – Sou eu o único responsável pelo ato delituoso que conscientemente pratiquei”

– Mas Dr. Dantas, o senhor cometeu o maior crime do mundo!”

- Sim, Dr. João Paes, depois que recebi a maior ofensa do Universo!”

(João Dantas perante a Comissão Judiciária em seu interrogatório após o assassinato de João Pessoa)

“Deixem este inocente que não tem culpa do meu ato.Voltem-se contra mim,só contra mim,pois sou eu o único responsável pela ação que de consciência pratiquei”

( João Dantas em seus últimos momentos tentando livrar seu cunhado Augusto Caldas da fúria pessoísta que o matou)

“Não acredite em suicídio; o que o povo está dizendo é uma verdade; eles não se suicidaram; eles foram mortos.”

( Sr. Aluízio de Moura,tenente do 21BC em declaração após a morte de João Dantas e Augusto Caldas)

“ Aceitei tal encargo a principio certo da ignomínia praticada por João Dantas, de parceria com outros elementos coniventes com o crime,mas hoje vejo as dificuldades que iria encontrar para acusá-lo, pois o ato criminoso foi de caráter pessoal e, convenhamos, ele tinha algumas razões…”

( Sr. Arthur Marinho – Advogado da família Pessoa contratado para auxiliar a acusação contra João Dantas)

“ – Cândido Marinho, como é que você denunciou Augusto Caldas,um rapaz inocente naquele caso?

-  Acredite, Coaracy, que o fiz de fato, sem base.Denunciei-o porque tive medo de morrer”

 

( Diálogo entre Coaracy de Medeiros e o promotor Cândido Marinho que acusou Augusto Caldas de cúmplice do crime praticado por João dantas levando-o a morrer inocentemente)

 

PORQUE RESGATAR A HISTÓRIA?

 

 

Nós não queremos mudar!

A mudança na verdade aconteceu em 1930, quando pela força e pressão, trocaram o nome da capital e a bandeira do nosso Estado. Queremos sim, a restauração. Voltar às nossas origens que foram interrompidas e usurpadas em um total desrespeito a nossa História.

Imagine se por causa de uma morte Belo Horizonte passasse a ser denominada Tancredo Neves, Salvador passasse a ser Antônio Carlos Magalhães ou Maceió, futuramente, fosse denominada Renam