RICARDO REIS:

 

Por Elaine Cristina Câmara de Azevedo Maia
Departamento de Letras – UFRN

Resumo:
A ode é uma forma de composição poética que se originou na Roma Antiga, a qual se costumava cantar acompanhada pelo instrumento musical chamado lira. Em Roma, a ode era conhecida como “carmen” e foi cultuada por filósofos como Virgílio, Ovídio e Horácio. O trabalho ensaístico em questão tentará relacionar em uma pequena amostra de odes de Ricardo Reis e Horácio a correspondência estilística e filosófica com um dos maiores expoentes da poesia: o poeta Horácio.

Palavras-Chaves: Horácio; Ricardo Reis; Estilo; Filosofia.
A ode é uma forma de composição poética que se originou na Roma Antiga, a qual se costumava cantar acompanhada pelo instrumento musical chamado lira. A ode, palavra de origem grega, primitivamente significa “canto”. E a ode denomina composições líricas de tom normalmente solene e entusiasta, que podem falar de amor e de temas extremamente variados, desde os prazeres da mesa, notadamente o vinho, até celebrações de jogos olímpicos, Maussad Moisés fala, por exemplo, sobre os poemas de homenagens a: “pean, dedicado a Apolo e deuses benfeitores”, (…) “encômio, em homenagem aos vencedores, reis e príncipes” (MOISÉS, 1997: 265). Assim, por exemplo, se pegarmos o livro de Sátiras: Os Faustos de Horácio e Ovídio encontraremos a informação que revela a Carmem Secular do poeta Horácio, como sendo a mais conhecida, a qual tratava de:

um hino feito a pedido de Augusto para ser cantado pelos jovens romanos por ocasião das grandes festas tradicionais que se realizavam secularmente na grande cidade, e que o imperador quis celebrar no 10º ano de seu principado (17 A.C.). (HORÁCIO; OVÍDIO, 1964: VIII )

Em Roma a ode era conhecida como “carmen” e foi cultuada por filósofos como Virgílio, Ovídio e Horácio. O trabalho ensaístico em questão tentará relacionar em uma pequena amostra de odes de Ricardo Reis e Horácio, a correspondência estilística e filosófica de um dos maiores expoentes da poesia: o poeta Horácio.

As odes em geral, apresentam-se de forma complexa e variável, marcadas pelo tom elevado e sublime com que delineiam um assunto. Levando em consideração a forma, uma das odes mais conhecidas de Horácio é a Décima primeira do livro Um, (Ode I, 11) a Ode a Leuconoe, cujo valor estético está no estabelecimento de rimas quaternárias e na composição de estâncias regulares de quatro versos. Enquanto que a primeira ode, do livro de Ricardo Reis, é composta assim como a de Horácio, por uma série de estâncias iguais expressas em estrofes de seis versos, apresentando musicalidade leve, rimas toantes e versos em cinco sílabas de natureza popular, aparentando ser o heterônimo Ricardo Reis transfigurador da obra de Horácio, pois assimila o que foi de Horácio e modela, cria segundo sua habilidade.

Quanto ao conteúdo, à ode de Horácio citada acima expressa uma relação afetuosa com quem o eu empírico dialoga: Leuconoe. Segundo Jayme Ferreira Bueno, etimologicamente a palavra Leuconoe significa: “ingênua, pura, (Do grego leukós = branco, puro, limpo; e noós, por contração, nous = inteligência, alma, coração)”. Ao fim, na seguinte tradução de Jayme Ferreira Bueno, Horácio aconselha:

//que Júpiter te conceda, este que, agora, se desfaz/, /como espuma no mar Tirreno: prepara o teu vinho,/, /abrevia esperanças longas, porque o tempo é breve./, Ele nos foge enquanto falamos: colhe este dia,/, / porque sobre os vindouros dias nada saberemos.// ( Acesso em 18 de maio de 2011.)

A ideia desse poema rescindi, em parte, sobre o reconhecimento da brevidade da vida, sobre o ideal Epicurista de aproveitar cada momento, convencido de que a sabedoria está em gozar a vida pensando o menos possível. O que importa é viver o agora, o amanhã já não importa tanto. Nesse sentido, por acaso, se morremos a partir desse momento teremos aproveitado (vivido, sentido, sem que isso queira dizer que aproveitamos intelectualmente) o último momento.

No início da ode de Ricardo Reis há uma evocação a Alberto Caeiro, heterônimo este que pretende ver claramente o mundo exterior; embora saibamos que aquele tenha seu olhar frio e desencantado, este vive para sentir as coisas do mundo, que deixa de lado o ato reflexivo, racional, e a busca da objetividade do mundo. Segundo Leyla Perrone-Moisés: “Alberto Caeiro propõe o simples olhar para as coisas, sem nenhuma interrogação metafísica.” (NOVAES, 1988: 333); “Olhar de criança, olhar primeiro, olhar nítido, – para consegui-lo é preciso parar de pensar” (NOVAES, 1988: 334). Enquanto que Ricardo Reis é o poeta clássico, é aquele que como um médico enxerga o mundo, o primordial para ele é o pensar, refletir o mundo como objeto, porque só o olhar crítico é capaz de esclarecer o mundo. Ricardo Reis ensina a não viver na vida as tristezas e alegrias em todas as horas que perdemos, no entanto ensina a “decorrê-la”, a dinamar em vida o que passa, ou nascer, proceder, resultar: o saber que dinama das inteligências privilegiadas.

Quando o heterônimo dialoga com o mestre Alberto Caeiro, Ricardo Reis aparenta ser empiricamente fragmentário, pois pode chegar a compactuar em parte com a forma de ser de seu Mestre. Podemos refletir isso da seguinte maneira, da ingenuidade de colher flores, um ato um tanto sensorial, podemos tirar proveito, podemos aprender, porque por mais que esteja relacionado a um ato sensorial banal, que qualquer ser humano possa experimentar, o heterônimo Ricardo entende que a vida pode correr serenamente, sem necessariamente ter intenções de se viver intensamente (sensações contínuas, irreflexivas). Leyla Perrone-Moisés comenta que Ricardo Reis: “procura olhar o mundo desapaixonadamente, com um olhar distante sem envolver com o mundo” (NOVAES, 1988: 337). Nesse caso para enxergarmos sentido na vida é necessária a propensão do ser humano se provir de sabedoria (ser um ser reflexivo). Nesse sentido, o sentir de Caeiro passou a ser um elemento que pode vir a ser uma das formas de se chegar à sabedoria, mas não exatamente a própria. Em Ricardo temos: “/ Da vida iremos/, / Tranqüilos, tendo/, / Nem o remorso/, / De ter vivido.//”. (REIS, s/d: 15) Ou seja, o viver mundo, o sentir o mundo, irreflexivamente, deixou de ser requisito para se dizer que se é vivo. Para o heterônimo Reis faz mister pensar, criar, emanar sabedoria, para ao fim nem sequer pensar que não viveu (sem remorsos nesse sentido, porque tentou buscar a razão). Em outra estrofe ele recorda: “// O tempo passa,/ Não nos diz nada./ Envelhecemos./ Saibamos, quase/ Maliciosos,/ Sentir-nos ir.//.” (REIS, s/d: 14) Ou seja, o tempo ancora, não damos conta do que vivemos quando não refletimos, mesmo tendo vivido (sentir, de sensações passageiras) cada dia. A partir desse trecho Reis, poeticamente, pondera que não nos aproveitamos como deveríamos, não refletimos o chegar da sabedoria, para que “nasçamos” intelectualmente a cada experiência como uma criança, que maquina e descobre algo extraordinário em uma simples pedra que cruzou o seu caminho. Portanto, segundo Reis: “/Não vale a pena/, / Fazer um gesto./, / Não se resiste/” (REIS, s/d: 14); o gesto não nos importa, ele não nos faz resistir, o pensar, o refletir é o que nos fará ser tranquilos e plácidos. O poeta nesse caso cumpre o papel de imortalizar os mortos à medida que traz essa tradição incorporada ao seu texto para a modernidade.

Referências:

BORNHEIM, Gerd A. et al. O conceito de tradição. In: Cultura Brasileira: Tradição/ Contradição. Jorge Zahar/ Funarte: Rio de Janeiro, 1987 p. 15-29.
HORÁCIO; OVÍDIO. Sátiras: Os Faustos. V. IV. Trad. António Luís Seabra; António Feliciano de Castilho. Rio de Janeiro: W.M. Jackson, 1964. (Clássicos Jackson).
MOISÉS, Massaud. A criação literária: poesia. 13 ed. São Paulo: Cultrix, 1997. p. 256-285.
NOVAES, Adauto et al. Pensar é estar doente dos olhos. In: O olhar. São Paulo: Companhia de Letras, 1988. p. 327-346.
REIS, Ricardo. Odes. Ed Ática, s/d. (Coleção Poesia)
Acesso em 18 de maio de 2011.
Acesso em 18 de maio de 2011.
Acesso em 25 de Maio de 2011.
Imagens:
Acesso em 25 de Maio de 2011.
Acesso em 25 de Maio de 2011.