“Minha relação com o tempo é a do comum das pessoas, nada simpática. Assisto à desmontagem do ser que ele construiu e que depois vai se divertindo em destruir, você acha isso engraçado?”

Esta foi a resposta de Carlos Drummond de Andrade a uma pergunta que lhe fiz, por carta, sobre a idade e o tempo, em 1986. Nesta segunda (31), ele completaria 109 anos, o que nos diria a respeito?

Por Christiane Marcondes*

Quando Carlos Drummond de Andrade morreu, em 17 de agosto de 1987, muitos amigos meus me trataram como viúva. A essa altura, eu e o Carlos – que é como a família dele, particularmente netos, o chamava – já tínhamos uma pequena história, nascida em novembro de 1985.

Nessa data, escrevi uma carta para ele, solicitando uma entrevista. Demanda injustificada, assumo, considerando-se que eu nem estava trabalhando em algum veículo jornalístico e mal tinha começado a ser “foca” na vida. Fui inspirada pelo Halley!

Em 1910, o cometa passou pela terra espalhando o medo infundado de que envenenaria a atmosfera, causando muitas mortes. Drummond tinha oito anos, acompanhou atentamente o episódio e, mais tarde, reproduziu-o em crônica.

A crônica serviu de prefácio para um livro de 1986, que falava sobre a volta do Halley naquele ano. Eu revisei o livro e, conversando com o editor, descobri que o poeta era muito acessível, tinha enviado, por carta, uma autorização para a publicação do texto, sem mais.

A primeira carta

Pedi e peguei o endereço do Drummond, caneta, muitas folhas de papel e me sentei à mesa, planejando o que dizer para despertar o interesse do Carlos por mim. Depois de muitas páginas rasgadas e abandonadas, baixei a censura e contei como aprendera tanto sobre a vida com ele.

Fui flechada por Drummond definitivamente aos 11 anos, quando reli “Quadrilha” em plena fase de paixão desenfreada não correspondida. Ali me convenci de que, no amor, a gente raras vezes acerta de primeira. Assinei a longa carta e mandei para os correios, me esqueci.

Voltando para casa, num fim de tarde, encontrei embaixo da porta um envelope manuscrito, no verso, numa etiqueta, as famosas iniciais CDA e o endereço da rua Conselheiro Lafayette. Abri e nem acreditei: “Sua carta é linda e uma carta assim é um retrato espiritual de quem a escreve”… Palavras dele, numa letra cuidadosa e familiar!!!

Drummond me respondeu brevemente, com a sua assumida economia de palavras, dizendo-se disposto a atender-me na entrevista solicitada, mas que fosse à distância, porque dezembro era um mês “febril de chuva e calor, compras e vendas, barulho,etc.”

Propôs: ” mande-me perguntas por escrito e eu, na calma do escritório à noite, responderei a tudo. Combinado?”

O alívio por ter escrito a carta certa (tantas vezes rascunhada, rasgada e reiniciada), e obtido a melhor das respostas, me travou. Eu não conseguia responder.

A segunda carta

Levei mais de um mês para lhe enviar as perguntas solicitadas “por mim mesma”, sofri ainda mais para escrever do que na primeira vez, tanto que só consegui formular sete perguntas.

Mas Carlos foi rápido no retorno, respondeu à minha atrasada carta com uma bronca discreta e uma reflexão:

“31 de janeiro de 1986

Cara Chris,

Já nem esperava mais receber as suas perguntas e concluí que, se elas não vieram, era porque as respostas seriam dispensáveis. Afinal, toda resposta, diante do silêncio de Jesus perante Pilatos, não é mesmo insignificante?”

(Não, pensei, não há nada de insignificante nas respostas de um homem que colocou uma pedra no caminho convencional da escrita)

A carta continuava: “mas você acabou me formulando sete questões e aqui estou tentando respondê-las, com o pior serviço datilográfico do mundo, perdoe.”

Seguiram-se as respostas, vou deixar de lado as questões e apenas apontar os temas que abordei, são eles:

Crônicas aposentadas

1) Deixei de escrever crônicas porque já me aborrecia fazê-las, depois de anos de militância. Tudo cansa, inclusive e principalmente escrever. Não busquei novos caminhos: apenas o silêncio.

Queima de diários

2) Não tenho mais diário, e no “Observador no Escritório” deixei claro que destruí o que mantive por muitos anos, na convicção de que é inútil deixar essa espécie de auto-retrato-retrato de coisas íntimas para a posteridade.

Anos que passam

3) Minha relação com o tempo é a do comum das pessoas, nada simpática. Assisto à desmontagem do ser que ele construiu e que depois vai se divertindo em destruir, você acha isso engraçado?

Sobre o suicídio (Pedro Nava, seu grande amigo, havia acabado de se suicidar)

4) O suicídio continua sendo para mim um dos maiores mistérios. Toda especulação em torno de suas notificações e significados continua vã, pois falta o testemunho do principal interessado, o suicida. A única coisa que posso dizer é que não o condeno.

Sobre o amor

5) É um aprendizado infinito, que a vida não deixa concluir.

Sobre agradar os fãs

6) Nunca tive pretensão de influir sobre qualquer público e se há leitores que me distinguem com essa simpatia, isso ocorre por conta exclusivamente deles. Isso me conforta, é claro, mas não me anima a escrever em determinado sentido.

Sobre Minas (onde nasceu)

7) Carrego Minas como um peso leve nas minhas costas, um peso de que não me livraria, mesmo que o quisesse (e não quero)

Perguntas respondidas, desculpou-se na despedida: “Fui muito rápido, Chris: Desculpe o mau jeito de nascença e receba um carinhoso abraço do Drummond (assinou).

Publicado no www.vermelho.org.br – 31/10/2011