VIVIANE DE SANTANA PAULO

Ali Ahmad Said Esber, aliás Adonis, é atualmente o maior expoente da poesia árabe contemporânea, considerado um indispensável elo entre as culturas do Oriente e Ocidente, um intelectual que não teme questionar os dogmas e axiomas arraigados na cultura árabe, assim como a atual realidade político-social do Ocidente. O poeta sírio-libanês é pouco conhecido no Brasil. Em muitos países ele não é tão popular como o palestino Mahmud Darwisch (1941-2008), a argeliana e diretora de cinema, Assia Djebar (1936), ou o egípcio Nahgib Mahfuss, primeiro árabe a ganhar o Prêmio Nobel de literatura. Nascido em 1930 em Kassabin, uma aldeia ao noroeste da Síria, Adonis testemunhou a independência deste país. Ainda era estudante de filosofia, em Damasco, quando organizou passeatas e manifestações contra o exército francês. Foi detido onze meses devido às arriscadas atividades políticas junto ao Partido Popular Sírio. Casou-se com a crítica-literária Khalida Said e, em 1956, rumou a Beirute, cidade liberal, onde trabalhou como professor de universidade e jornalista. Em 1957, junto com o poeta Youssef El-Khal, fundou a revista vanguardista Shi’r (Poesia), com a finalidade de renovar a lírica árabe através de traduções da poesia mundial, sobretudo a ocidental, como os poemas de Hörderlin, Rilke, Whitman, Pound, Eliot, Paz, entre outros.
Federico Arbós Ayuso, tradutor de Adonis para o espanhol, escreve em seu ensaio Tres calas em la producción poética de Adonis, que, logo depois da Segunda Guerra Mundial, poetas como Nazik al-Mala-ika e Badr Sakir al-Sayyab publicaram poemas em versos livres. A consolidação desse movimento iniciado em Bagdá adquiriu repercussão imediata na Síria, Palestina e Egito. Por sua vez, o historiador da literatura árabe, Luwis Áwad y Muhammad Mandur, havia publicado na revista al-Katib al-Misri, em 1945, no Cairo, vários artigos sobre escritores vanguardistas ingleses, especialmente um ensaio sobre T. S. Eliot, o que influenciou consideravelmente a produção poética da época.
Voltando à revista Shi’r, a orientação estritamente ocidental e o radicalismo nacionalista de Youssef El-Khal fizeram com que a revista deixasse de ser publicada em 1964. Três anos depois Adonis funda a revista Mawaqif (Posições), juntamente com o poeta Kamal Abu Deeb. Entre 1960 e 61, Adonis estuda em Paris com o apoio de uma bolsa. Enquanto alguns de seus colegas se exilaram na Alemanha (como o libanês Fuad Rifka), ou seguiram para os países de língua inglesa (como os iraquianos Badr Shakir As-Sayyad e Abdul Wahhab al-Bayyati), Adonis busca refúgio em Paris, onde vive desde 1986, sem abandonar Beirute, para onde viaja constantemente.
O nome Adonis é mais conhecido como uma divindade da mitologia grega, era um belo jovem que foi disputado por Afrodite e Perséfone. Quando caçava Adonis foi ferido mortalmente por um javali. Algumas versões contam que foi o deus Ares, amante de Afrodite, que enciumado transformou-se em um javali e desferiu um golpe fatal em Adonis. Após sua morte a deusa do submundo, Perséfone, e a deusa do amor, Afrodite, disputaram o belo jovem. Zeus se interpôs e concedeu que Adonis permanecesse com Afrodite quatro meses, outros quatro com Perséfone e os restantes ele seria livre. O mito simboliza o ciclo da semente, da vegetação que morre no inverno e renasce na primavera. A origem do mito não vem da Grécia e sim da Síria, onde Adonis era cultuado sob o nome semita de Tamuz. Era um deus jovem, unido à vida, à morte e à ressurreição, estando associado ao calendário agrícola. O nome Adonis também é procedente do mundo semítico – originário do semita Adonai, que significa “meu Senhor”. É, em suma, um deus que congrega elementos de várias origens.
A fama do poeta se deve ao seu primeiro livro Cantos de Mihyar, o Damasceno (Aghâni Mihiâr al-Dimashqî, Beirute, 1961), considerado um divisor de águas da literatura árabe. Influenciada pela mitologia grega, a poética deste livro é voltada ao universalismo moderno, embora a sua base, a recepção e muitas metáforas residam no mundo árabe e proporcionem um certo estranhamento aos não nativos desta cultura. Lendo profundamente deparamos, entretanto, com as questões filosóficas do homem moderno. Adonis é um assíduo leitor de Nietzsche e Heidegger. Há neste livro vários poemas dedicados a Ulisses, fazendo alusão à viagem não como destino, mas a própria viagem enfatizando o significado da aventura, da exploração do desconhecido e da eterna busca de si mesmo. A construção dos poemas assemelha-se a uma colagem, imbuída de metáforas que resvalam no expressionismo e surrealismo. Segundo Stefan Weidner, tradutor de Adonis para o alemão: “ao contrário da poética árabe clássica, na qual o mais importante é a clareza e a habilidade na formulação e, sobretudo, a meta de agradar, a difícil compreensão da densa linguagem produzida e propagada por Adonis é considerada produtiva no momento de interpretação de cada leitor”. Para Weidner, Mihyar é um parente espiritual de Zaratustra. Weidner considera o livro um testemunho importante da recepção de Nietzsche no mundo árabe. Cantos de Mihyar, o Damasceno é dividido em sete partes constituídas de poemas em prosa. Mihyar de Adonis possui várias facetas, uma delas pode ser do rebelde e herege Mihyar al-Daylami, poeta árabe de origem persa. Somente na primeira parte Mihyar aparece na terceira pessoa, como uma apresentação ao leitor, nas partes restantes Mihyar fala em primeira pessoa. Não se trata aqui da primeira pessoa do poeta, como é característico na poesia árabe que desconhece a separação do eu-lírico do autor. Na poesia árabe quando um poema é escrito em primeira pessoa, esta é exclusivamente o autor. Entretanto, Mihyar não é Adonis, trata-se aqui do eu-lírico independente do autor. Para o leitor árabe uma revolução.
Adonis escreve em árabe. A tradução em língua romana de Cantos de Mihyar, o Damasceno surgiu na Espanha, em 1968, dois anos depois da publicação do original. A primeira coleção publicada em idioma inglês data de 1971, nos Estados Unidos, intitulada The Blood of Adonis. A obra Libro de las huidas y mudanzas por climas del día y de la noche (Kitâb al-Tahawwulât wal-Hijra fî Aqâlîm al-Nahâr wal-Layl, Beirute, 1965), ou simplesmente Livro das metamorfoses e da migração pelas regiões do dia e da noite, traduzida para o espanhol em 1993, dá continuidade à introdução de mitos extraídos da mitologia grega, de elementos modernos mesclando-os à forma tradicional árabe, utilizando versos livres e poemas em prosa. Para falar deste livro, Federico Arbós Ayso menciona a obra Metamorfoses, do poeta latino Ovídio, e a transformação de Dafne em uma árvore sagrada, ao fugir da perseguição de Apolo. Em Livro das metamorfoses e da migração pelas regiões do dia e da noite o protagonista é o omíada Abderrahmán, o Imigrante (Abd al-Rahmān al-Dājil), fundador de Córdoba em meados do sec. VIII. A árvore é o motivo central nesta obra, simbolizando o homem, e suas reflexões, e a natureza. Imagem que aparece em “árbol de adentro” de Octavio Paz, e “a árvore da vida”, de Goethe. As raízes e os galhos, as transformações do tempo, as folhas, flores e os frutos, e as transformações causadas pelo tempo ilustram as mudanças no corpo do homem, a mudança física, e a espiritual. A árvore é um dos temas simbólicos mais ricos e difundidos, representa a fertilidade, abundância e imortalidade, e a vida. Ela está unida ao mundo subterrâneo, às profundezas, através das raízes. O tronco está aliado à superfície da terra e as folhas alcançam as alturas, significando as relações com o mundo celeste, divino. Também no poema Um túmulo para Nova York, a árvore aparece como o símbolo que traduz a poética de Adonis: “Digo e repito:/ minha poética é uma árvore, e entre galhos e galhos e folhas e folhas/ encontra-se apenas a maternidade do tronco./ Digo e repito:/ a poesia é a rosa dos ventos./ Não o vento, mas a direção do vento,/ não a rotação, mas o circular./ Assim desfaço as regras e para cada momento refaço uma nova./ Assim me aproximo e não me distancio./ Parto e não regresso./ Emigro para as ondas e setembro.”
A coletânea O Teatro e os Espelhos (al-Masrah wa-l-Maraya), lançada em 1968, contém poemas longos, repleto de símbolos, associações e menções a poetas, filósofos e personagens medievais. Este é o meu nome é considerado por Weidner a obra mais radical de Adonis, em que, logo de início, nos primeiros versos, ele quebra completamente com as normas da poesia árabe, criando versos sem verbo, interrompidos, avulsos:
Extirpar toda verdade           aqui está o meu fogo
Nenhum sinal permanece     meu sangue é o sinal
Este é o meu início
Ocupo o teu leito                       teus membros giram à minha volta Terra
correnteza do Nilo   afastamo-nos e sedimentamo-nos tu te infundiste no meu sangue
Este é o meu nome retrata a Guerra dos Seis Dias através de uma imagem abstrata de faces e máscaras, cadáveres, deserto e soldados. Mas não só a destruição e a guerra são reproduzidos aqui, também a paixão, o amor e a vida adquirem voz. É o caso do poema Metamorfoses de um amante:
Líber, Libera, Phallus
(No mar do amor, no mar o navegar do vento, e
no livro dos corpos o mundo inteiro é uma letra.
(…)
Serei colhido debaixo de teu seio, enxuto
E tu és minha mirra e minha água
Cada fruta é uma ferida e um caminho a ti
Eu te atravesso – tu és minha morada
Eu te habito – tu és minhas ondas
Teu corpo é um mar, cada onda uma vela
Teu corpo é uma primavera, cada vinco uma pomba que pronuncia o meu nome
Em teu corpo juntam-se todos os meus membros
Em um labirinto, inebriante segue o meu caminho.
(…)
Outro poema deste livro a ser destacado é o já mencionado Um túmulo para Nova York (1965-1971), o mais famoso e traduzido. A temática aqui é o cotidiano cosmopolita da cidade, uma crítica ao capitalismo, a política exterior dos EUA, ao consumismo, ao imperialismo norte-americano, sobretudo o imperialismo exercido sobre os países do Oriente. O poema evoca Johnson e Nixon, como também poetas árabes e personagens de As Mil e uma noites. Trata-se de uma enxurrada de impressões, seguindo a tradição dos modernistas, escrito em versos livres e longos, divididos em dez capítulos, que mesclam associações díspares e surrealistas para descrever uma viagem ao inferno. Como a de Virgílio na Divina Comédia, o inferno aqui é a cidade de Nova York. Adonis emprega a intertextualzação, o palimpsesto e aproxima a linguagem da oralidade. Neste poema ele desenvolve um novo estilo em que cria um tempo cultural transitório. As múltiplas culturas são as propulsoras da criatividade e inovação e impedem a repetição de costumes e continuidade. Um túmulo para Nova York foi escrito na ocasião de uma viagem do poeta a esta cidade, na época da Guerra dos Seis Dias, em 1967, época em que Kadafi comandou o golpe de Estado contra o rei Ídris I, em 1969, e eliminou as bases militares norte-americanas e inglesas no país –, Kadafi negava o capitalismo e marxismo –, época da derrota do movimento para a libertação da Palestina, resultando na matança dos refugiados palestinos na Jordânia, em setembro de 1970, e época do movimento anti-imperialismo norte-americano surgido na América Latina, encabeçado pelos revolucionários Fidel Castro e Che Guevara. Seguem alguns trechos do extenso poema:
(…)
Nova York
Uma civilização com quatro patas. Cada direção é um crime
ou um caminho para o crime. E na distância:
o lamento dos afogados.
(…)
Nova York – Wall Street – 125. Street – 5. Avenue
Uma cabeça de medusa ergue por entre os ombros. Um mercado
de escravos de todos os povos. Homens, que vivem como plantas em jardins de vidro.
Miseráveis, invisíveis, dissipados como poeira na pele do vazio – vítimas,
que se consomem em espirais.
O sol é uma marcha fúnebre.
E o dia um tambor negro.
(…)
Nova York
Uma mulher – a estátua de uma mulher
Em uma mão ela segura os farrapos, que são chamados de liberdade
Os pedaços de papel que chamamos de História
E com a outra estrangula uma criança, que se chama Terra
Nova York
Corpo de uma mulher com a cor do asfalto.
(…)
Nova York
uma mulher de feno e uma cama que balança entre o vazio e o vazio. (…)
(…)
E confesso: Nova York, no meu país a ti pertence a cabana e a cama
o trono e o crânio. E tudo encontra-se à venda: o dia e a noite
A pedra negra de Meca e a água do Tigre. (…)
E digo: desde João Batista cada um carrega a sua cabeça decepada
em um prato e espera um segundo nascimento. (…)
(…)
Eu te descubro, oh fogo, minha capital,
eu te descubro, poesia.
E seduzo Beirute. Veste-me como uma vestimenta e eu a visto como uma vestimenta. (…)
(…)
Tua neve carrega a noite, tua noite carrega os homens
Como se fossem morcegos moribundos. Cada parede em ti é um cemitério,
Cada dia uma cova escura que carrega o pão negro e um prato negro, com o qual
Ela esboça a História da Casa Branca:
Harlem: o lixo é um banquete para as crianças
As crianças são um banquete para as ratazanas. (…)
(…)
Harlem
O tempo fenece e tu és as horas
Ouço as lágrimas, como o rumor do vulcão
Vejo as bocas que comem os homens como pão
Tu és a mancha que apagará a imagem de Nova York
Tu és a tempestade que passará como uma folha
(…)
Nova York = IBM + metrô
Da lama e do crime tu te originaste
Na lama e no crime te findarás
Nova York = um buraco na manta da Terra
Por onde flui a correnteza da insanidade
Harlem, Nova York fenece e tu és as horas.
(…)
Entre Harlem e Lincoln Center
Eu caminho como um número a esmo nos desertos presos entre os dentes do alvorecer
De um dia negro. (…)
Vista através do prisma de um poeta árabe Nova York é uma mulher impetuosa. O poema não apenas ilustra a confusão e crueldade da cidade, mas também a sua vitalidade e atraente dinâmica.
O capítulo nove é dedicado a Walt Whitman, poeta que viveu em Nova York e influenciou grande parte dos poetas modernistas: “vejo as cartas a ti voarem no ar sobre as ruas de Manhattan. Cada letra é/ uma balança cheia de gatos e cães. O século XXI está para os gatos e cães,/ para os homens está a extinção:/ é o século norte-americano!”. E nomes de poetas clássicos árabes, como Urwa Ibn al-Ward, Abu al-Ala, aparecem ao lado de revolucionários, Ho Chi Minh, Che Guevara, Castro, Lenin, Max, Mao Tse Tung.
Ao analisar Um túmulo para Nova York os estudiosos não deixam de fazer referência ao poema de Garcia Lorca, Poeta em Nova York, escrito entre 1929 e 1930, traduzido para vários idiomas, o qual também faz menção ao distrito de Harlem, ao poeta Whitman e à Revolução de Cuba: “¡Ay, Harlem! ¡Ay, Harlem! ¡Ay, Harlem!/ No hay angustia/ comparable a tus rojos oprimidos,/ a tu sangre estremecida dentro del eclipse oscuro,/ a tu/ violencia granate sordomuda en la penumbra,/ a tu gran rey prisionero, con un traje de conserje.” Para o leitor brasileiro a obra de Mário de Andrade, Pauliceia Desvairada, publicada em 1922, contendo os mesmos princípios modernistas da colagem, é, da mesma forma, um ponto de referência. Aqui a protagonista é São Paulo, a cidade cosmopolita, consumista, palco de uma burguesia cínica e hipócrita. “Pauliceia – a grande boca de mil dentes;/ e os jorros dentre a língua trissulca / de pus e de mais pus de distinção.”
O espaço geográfico, para Adonis, “é um território da cultura e criatividade, independentemente da região política, na qual vivemos”. Para quem considera a poesia não apenas um gênero ou uma forma de arte, mas uma maneira de pensar, quase uma revelação mística, para Adonis a política e literatura sempre estiveram estreitamente unidas, em suas afirmações, ideias, críticas e visão de mundo. Segundo ele: “poesia não pode ser feita de modo a se adequar à religião ou uma ideologia, ela proporciona um conhecimento que é explosivo e surpreendente.” Defensor do laicismo, ele rejeita as tradições intolerantes e oclusas, e é contra os dogmas que propagam o monoteísmo. Em um artigo no jornal alemão Die Zeit, ele declarou: “sempre quando a religião não impõe nada, a cultura árabe é magnífica. Tudo o que é isento de religião na cultura árabe é extraordinário”. E para o jornal O Globo: “Se você quer criar poesia verdadeiramente nova, é preciso combater as ideias herdadas da religião, porque criar é ser livre de toda ideologia e de todo pensamento a priori.” A religiosidade na poesia deste poeta sírio-libanês envolve a esfera mística, é a busca do homem em sanar as questões imanentes envolvendo a vida, como a morte, o amor, a busca da identidade, “como uma criação permanente, em um movimento contínuo até chegar à identidade do outro”. Contemporâneo do já falecido Edward Said, nem sempre concordava com o amigo: “O que Said enfatiza corretamente é um estereótipo do Oriente que existe no Ocidente, mas a meu ver isso está ligado a uma visão política e não cultural. Muitos intelectuais ocidentais combateram esses estereótipos. Alguns deles conhecem a cultura e a história árabe muito melhor que a maioria dos árabes e deixaram obras monumentais.”
A rosa

Pegue uma rosa
Deposite-a como um travesseiro
Depois
Misture o absurdo
Com a lama
Pegue a bomba
Em tua posse
Depois
Pegue uma rosa
Chame-a de canto
E cante-a para o mundo
(A face do mar)
(…)
Cresces por todos os lugares
Cresces nas profundidades
Tu és para mim como fonte
Entregas-te como árvore
E eu
Suspenso nas torres do sonho
À minha volta minhas imagens
Ansiava segredos e com eles preenchia as lacunas do dia
Gravei no teu corpo a brasa do meu corpo
Escrevi-te sobre os meus lábios e meus dedos
Esbocei-te sobre a minha fronte, transformei o alfabeto e a pronúncia e propaguei as diferentes formas de leitura
(…)
Líber, Libera, Phallus
um filete de luz matinal, amarga nos olhos, nos desperta
desmancha os nós dos cílios
a luz hasteia no nosso corpo uma colina e bandeira
e a chama salta nos travesseiros
o dia anuncia a noite – desperte!

A ti zarpo com o barco do meu corpo
Exploro a terra oculta no mapa dos sexos
Avanço
Recubro minha passagem com talismãs e sinais
Exalo fumo com o meu denso balbuciar
Com fogo e tatuagem
Sou uma onda e acredito, tu és a praia:
Tuas costas é a metade de um continente
Meus quatro pontos cardeais estão abaixo de teus seios
Estou em torno de ti como uma árvore
(Metamorfoses de um amante)
A antologia Árbol del Oriente, lançada em Madri, em 2010, reúne poemas de 1957 a 2007. Em 2011, surge na Alemanha a antologia Metamorfoses de um amante (Verwandlungen eines Liebenden), contendo poemas de 1958 a 1971. Neste mesmo ano, Adonis é prestigiado com o Prêmio Goethe da cidade de Frankfurt am Main. Na opinião dos jurados trata-se aqui de “um poeta verdadeiramente universal”.

Viviane de Santana Paulo (Brasil, 1966). Poeta e ensaísta, residente na Alemanha. Publicou Passeio ao longo do Reno (2002), Estrangeiro de mim (2005), e Depois do canto do gurinhatã (2010). Contato: vsantanapaulo@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras de Floriano Martins (Brasil), artista convidado desta edição de ARC.

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VIVIANE DE SANTANA PAULO | Adonis da Arábia

 

Ali Ahmad Said Esber, aliás Adonis, é atualmente o maior expoente da poesia árabe contemporânea, considerado um indispensável elo entre as culturas do Oriente e Ocidente, um intelectual que não teme questionar os dogmas e axiomas arraigados na cultura árabe, assim como a atual realidade político-social do Ocidente. O poeta sírio-libanês é pouco conhecido no Brasil. Em muitos países ele não é tão popular como o palestino Mahmud Darwisch (1941-2008), a argeliana e diretora de cinema, Assia Djebar (1936), ou o egípcio Nahgib Mahfuss, primeiro árabe a ganhar o Prêmio Nobel de literatura. Nascido em 1930 em Kassabin, uma aldeia ao noroeste da Síria, Adonis testemunhou a independência deste país. Ainda era estudante de filosofia, em Damasco, quando organizou passeatas e manifestações contra o exército francês. Foi detido onze meses devido às arriscadas atividades políticas junto ao Partido Popular Sírio. Casou-se com a crítica-literária Khalida Said e, em 1956, rumou a Beirute, cidade liberal, onde trabalhou como professor de universidade e jornalista. Em 1957, junto com o poeta Youssef El-Khal, fundou a revista vanguardista Shi’r (Poesia), com a finalidade de renovar a lírica árabe através de traduções da poesia mundial, sobretudo a ocidental, como os poemas de Hörderlin, Rilke, Whitman, Pound, Eliot, Paz, entre outros.

Federico Arbós Ayuso, tradutor de Adonis para o espanhol, escreve em seu ensaio Tres calas em la producción poética de Adonis, que, logo depois da Segunda Guerra Mundial, poetas como Nazik al-Mala-ika e Badr Sakir al-Sayyab publicaram poemas em versos livres. A consolidação desse movimento iniciado em Bagdá adquiriu repercussão imediata na Síria, Palestina e Egito. Por sua vez, o historiador da literatura árabe, Luwis Áwad y Muhammad Mandur, havia publicado na revista al-Katib al-Misri, em 1945, no Cairo, vários artigos sobre escritores vanguardistas ingleses, especialmente um ensaio sobre T. S. Eliot, o que influenciou consideravelmente a produção poética da época.

Voltando à revista Shi’r, a orientação estritamente ocidental e o radicalismo nacionalista de Youssef El-Khal fizeram com que a revista deixasse de ser publicada em 1964. Três anos depois Adonis funda a revista Mawaqif (Posições), juntamente com o poeta Kamal Abu Deeb. Entre 1960 e 61, Adonis estuda em Paris com o apoio de uma bolsa. Enquanto alguns de seus colegas se exilaram na Alemanha (como o libanês Fuad Rifka), ou seguiram para os países de língua inglesa (como os iraquianos Badr Shakir As-Sayyad e Abdul Wahhab al-Bayyati), Adonis busca refúgio em Paris, onde vive desde 1986, sem abandonar Beirute, para onde viaja constantemente.

O nome Adonis é mais conhecido como uma divindade da mitologia grega, era um belo jovem que foi disputado por Afrodite e Perséfone. Quando caçava Adonis foi ferido mortalmente por um javali. Algumas versões contam que foi o deus Ares, amante de Afrodite, que enciumado transformou-se em um javali e desferiu um golpe fatal em Adonis. Após sua morte a deusa do submundo, Perséfone, e a deusa do amor, Afrodite, disputaram o belo jovem. Zeus se interpôs e concedeu que Adonis permanecesse com Afrodite quatro meses, outros quatro com Perséfone e os restantes ele seria livre. O mito simboliza o ciclo da semente, da vegetação que morre no inverno e renasce na primavera. A origem do mito não vem da Grécia e sim da Síria, onde Adonis era cultuado sob o nome semita de Tamuz. Era um deus jovem, unido à vida, à morte e à ressurreição, estando associado ao calendário agrícola. O nome Adonis também é procedente do mundo semítico – originário do semita Adonai, que significa “meu Senhor”. É, em suma, um deus que congrega elementos de várias origens.

A fama do poeta se deve ao seu primeiro livro Cantos de Mihyar, o Damasceno (Aghâni Mihiâr al-Dimashqî, Beirute, 1961), considerado um divisor de águas da literatura árabe. Influenciada pela mitologia grega, a poética deste livro é voltada ao universalismo moderno, embora a sua base, a recepção e muitas metáforas residam no mundo árabe e proporcionem um certo estranhamento aos não nativos desta cultura. Lendo profundamente deparamos, entretanto, com as questões filosóficas do homem moderno. Adonis é um assíduo leitor de Nietzsche e Heidegger. Há neste livro vários poemas dedicados a Ulisses, fazendo alusão à viagem não como destino, mas a própria viagem enfatizando o significado da aventura, da exploração do desconhecido e da eterna busca de si mesmo. A construção dos poemas assemelha-se a uma colagem, imbuída de metáforas que resvalam no expressionismo e surrealismo. Segundo Stefan Weidner, tradutor de Adonis para o alemão: “ao contrário da poética árabe clássica, na qual o mais importante é a clareza e a habilidade na formulação e, sobretudo, a meta de agradar, a difícil compreensão da densa linguagem produzida e propagada por Adonis é considerada produtiva no momento de interpretação de cada leitor”. Para Weidner, Mihyar é um parente espiritual de Zaratustra. Weidner considera o livro um testemunho importante da recepção de Nietzsche no mundo árabe. Cantos de Mihyar, o Damasceno é dividido em sete partes constituídas de poemas em prosa. Mihyar de Adonis possui várias facetas, uma delas pode ser do rebelde e herege Mihyar al-Daylami, poeta árabe de origem persa. Somente na primeira parte Mihyar aparece na terceira pessoa, como uma apresentação ao leitor, nas partes restantes Mihyar fala em primeira pessoa. Não se trata aqui da primeira pessoa do poeta, como é característico na poesia árabe que desconhece a separação do eu-lírico do autor. Na poesia árabe quando um poema é escrito em primeira pessoa, esta é exclusivamente o autor. Entretanto, Mihyar não é Adonis, trata-se aqui do eu-lírico independente do autor. Para o leitor árabe uma revolução.

Adonis escreve em árabe. A tradução em língua romana de Cantos de Mihyar, o Damasceno surgiu na Espanha, em 1968, dois anos depois da publicação do original. A primeira coleção publicada em idioma inglês data de 1971, nos Estados Unidos, intitulada The Blood of Adonis. A obra Libro de las huidas y mudanzas por climas del día y de la noche (Kitâb al-Tahawwulât wal-Hijra fî Aqâlîm al-Nahâr wal-Layl, Beirute, 1965), ou simplesmente Livro das metamorfoses e da migração pelas regiões do dia e da noite, traduzida para o espanhol em 1993, dá continuidade à introdução de mitos extraídos da mitologia grega, de elementos modernos mesclando-os à forma tradicional árabe, utilizando versos livres e poemas em prosa. Para falar deste livro, Federico Arbós Ayso menciona a obra Metamorfoses, do poeta latino Ovídio, e a transformação de Dafne em uma árvore sagrada, ao fugir da perseguição de Apolo. Em Livro das metamorfoses e da migração pelas regiões do dia e da noite o protagonista é o omíada Abderrahmán, o Imigrante (Abd al-Rahmān al-Dājil), fundador de Córdoba em meados do sec. VIII. A árvore é o motivo central nesta obra, simbolizando o homem, e suas reflexões, e a natureza. Imagem que aparece em “árbol de adentro” de Octavio Paz, e “a árvore da vida”, de Goethe. As raízes e os galhos, as transformações do tempo, as folhas, flores e os frutos, e as transformações causadas pelo tempo ilustram as mudanças no corpo do homem, a mudança física, e a espiritual. A árvore é um dos temas simbólicos mais ricos e difundidos, representa a fertilidade, abundância e imortalidade, e a vida. Ela está unida ao mundo subterrâneo, às profundezas, através das raízes. O tronco está aliado à superfície da terra e as folhas alcançam as alturas, significando as relações com o mundo celeste, divino. Também no poema Um túmulo para Nova York, a árvore aparece como o símbolo que traduz a poética de Adonis: “Digo e repito:/ minha poética é uma árvore, e entre galhos e galhos e folhas e folhas/ encontra-se apenas a maternidade do tronco./ Digo e repito:/ a poesia é a rosa dos ventos./ Não o vento, mas a direção do vento,/ não a rotação, mas o circular./ Assim desfaço as regras e para cada momento refaço uma nova./ Assim me aproximo e não me distancio./ Parto e não regresso./ Emigro para as ondas e setembro.”

A coletânea O Teatro e os Espelhos (al-Masrah wa-l-Maraya), lançada em 1968, contém poemas longos, repleto de símbolos, associações e menções a poetas, filósofos e personagens medievais. Este é o meu nome é considerado por Weidner a obra mais radical de Adonis, em que, logo de início, nos primeiros versos, ele quebra completamente com as normas da poesia árabe, criando versos sem verbo, interrompidos, avulsos:

Extirpar toda verdade           aqui está o meu fogo

Nenhum sinal permanece     meu sangue é o sinal

Este é o meu início

Ocupo o teu leito                       teus membros giram à minha volta Terra

correnteza do Nilo   afastamo-nos e sedimentamo-nos tu te infundiste no meu sangue

Este é o meu nome retrata a Guerra dos Seis Dias através de uma imagem abstrata de faces e máscaras, cadáveres, deserto e soldados. Mas não só a destruição e a guerra são reproduzidos aqui, também a paixão, o amor e a vida adquirem voz. É o caso do poema Metamorfoses de um amante:

Líber, Libera, Phallus

(No mar do amor, no mar o navegar do vento, e

no livro dos corpos o mundo inteiro é uma letra.

(…)

Serei colhido debaixo de teu seio, enxuto

E tu és minha mirra e minha água

Cada fruta é uma ferida e um caminho a ti

Eu te atravesso – tu és minha morada

Eu te habito – tu és minhas ondas

Teu corpo é um mar, cada onda uma vela

Teu corpo é uma primavera, cada vinco uma pomba que pronuncia o meu nome

Em teu corpo juntam-se todos os meus membros

Em um labirinto, inebriante segue o meu caminho.

(…)

Outro poema deste livro a ser destacado é o já mencionado Um túmulo para Nova York (1965-1971), o mais famoso e traduzido. A temática aqui é o cotidiano cosmopolita da cidade, uma crítica ao capitalismo, a política exterior dos EUA, ao consumismo, ao imperialismo norte-americano, sobretudo o imperialismo exercido sobre os países do Oriente. O poema evoca Johnson e Nixon, como também poetas árabes e personagens de As Mil e uma noites. Trata-se de uma enxurrada de impressões, seguindo a tradição dos modernistas, escrito em versos livres e longos, divididos em dez capítulos, que mesclam associações díspares e surrealistas para descrever uma viagem ao inferno. Como a de Virgílio na Divina Comédia, o inferno aqui é a cidade de Nova York. Adonis emprega a intertextualzação, o palimpsesto e aproxima a linguagem da oralidade. Neste poema ele desenvolve um novo estilo em que cria um tempo cultural transitório. As múltiplas culturas são as propulsoras da criatividade e inovação e impedem a repetição de costumes e continuidade. Um túmulo para Nova York foi escrito na ocasião de uma viagem do poeta a esta cidade, na época da Guerra dos Seis Dias, em 1967, época em que Kadafi comandou o golpe de Estado contra o rei Ídris I, em 1969, e eliminou as bases militares norte-americanas e inglesas no país –, Kadafi negava o capitalismo e marxismo –, época da derrota do movimento para a libertação da Palestina, resultando na matança dos refugiados palestinos na Jordânia, em setembro de 1970, e época do movimento anti-imperialismo norte-americano surgido na América Latina, encabeçado pelos revolucionários Fidel Castro e Che Guevara. Seguem alguns trechos do extenso poema:

(…)

Nova York

Uma civilização com quatro patas. Cada direção é um crime

ou um caminho para o crime. E na distância:

o lamento dos afogados.

(…)

Nova York – Wall Street – 125. Street – 5. Avenue

Uma cabeça de medusa ergue por entre os ombros. Um mercado

de escravos de todos os povos. Homens, que vivem como plantas em jardins de vidro.

Miseráveis, invisíveis, dissipados como poeira na pele do vazio – vítimas,

que se consomem em espirais.

O sol é uma marcha fúnebre.

E o dia um tambor negro.

(…)

Nova York

Uma mulher – a estátua de uma mulher

Em uma mão ela segura os farrapos, que são chamados de liberdade

Os pedaços de papel que chamamos de História

E com a outra estrangula uma criança, que se chama Terra

Nova York

Corpo de uma mulher com a cor do asfalto.

(…)

Nova York

uma mulher de feno e uma cama que balança entre o vazio e o vazio. (…)

(…)

E confesso: Nova York, no meu país a ti pertence a cabana e a cama

o trono e o crânio. E tudo encontra-se à venda: o dia e a noite

A pedra negra de Meca e a água do Tigre. (…)

E digo: desde João Batista cada um carrega a sua cabeça decepada

em um prato e espera um segundo nascimento. (…)

(…)

Eu te descubro, oh fogo, minha capital,

eu te descubro, poesia.

E seduzo Beirute. Veste-me como uma vestimenta e eu a visto como uma vestimenta. (…)

(…)

Tua neve carrega a noite, tua noite carrega os homens

Como se fossem morcegos moribundos. Cada parede em ti é um cemitério,

Cada dia uma cova escura que carrega o pão negro e um prato negro, com o qual

Ela esboça a História da Casa Branca:

Harlem: o lixo é um banquete para as crianças

As crianças são um banquete para as ratazanas. (…)

(…)

Harlem

O tempo fenece e tu és as horas

Ouço as lágrimas, como o rumor do vulcão

Vejo as bocas que comem os homens como pão

Tu és a mancha que apagará a imagem de Nova York

Tu és a tempestade que passará como uma folha

(…)

Nova York = IBM + metrô

Da lama e do crime tu te originaste

Na lama e no crime te findarás

Nova York = um buraco na manta da Terra

Por onde flui a correnteza da insanidade

Harlem, Nova York fenece e tu és as horas.

 (…)

Entre Harlem e Lincoln Center

Eu caminho como um número a esmo nos desertos presos entre os dentes do alvorecer

De um dia negro. (…)

Vista através do prisma de um poeta árabe Nova York é uma mulher impetuosa. O poema não apenas ilustra a confusão e crueldade da cidade, mas também a sua vitalidade e atraente dinâmica.

O capítulo nove é dedicado a Walt Whitman, poeta que viveu em Nova York e influenciou grande parte dos poetas modernistas: “vejo as cartas a ti voarem no ar sobre as ruas de Manhattan. Cada letra é/ uma balança cheia de gatos e cães. O século XXI está para os gatos e cães,/ para os homens está a extinção:/ é o século norte-americano!”. E nomes de poetas clássicos árabes, como Urwa Ibn al-Ward, Abu al-Ala, aparecem ao lado de revolucionários, Ho Chi Minh, Che Guevara, Castro, Lenin, Max, Mao Tse Tung.

Ao analisar Um túmulo para Nova York os estudiosos não deixam de fazer referência ao poema de Garcia Lorca, Poeta em Nova York, escrito entre 1929 e 1930, traduzido para vários idiomas, o qual também faz menção ao distrito de Harlem, ao poeta Whitman e à Revolução de Cuba: “¡Ay, Harlem! ¡Ay, Harlem! ¡Ay, Harlem!/ No hay angustia/ comparable a tus rojos oprimidos,/ a tu sangre estremecida dentro del eclipse oscuro,/ a tu/ violencia granate sordomuda en la penumbra,/ a tu gran rey prisionero, con un traje de conserje.”Para o leitor brasileiro a obra de Mário de Andrade, Pauliceia Desvairada, publicada em 1922, contendo os mesmos princípios modernistas da colagem, é, da mesma forma, um ponto de referência. Aqui a protagonista é São Paulo, a cidade cosmopolita, consumista, palco de uma burguesia cínica e hipócrita. “Pauliceia – a grande boca de mil dentes;/ e os jorros dentre a língua trissulca / de pus e de mais pus de distinção.”

O espaço geográfico, para Adonis, “é um território da cultura e criatividade, independentemente da região política, na qual vivemos”. Para quem considera a poesia não apenas um gênero ou uma forma de arte, mas uma maneira de pensar, quase uma revelação mística, para Adonis a política e literatura sempre estiveram estreitamente unidas, em suas afirmações, ideias, críticas e visão de mundo. Segundo ele: “poesia não pode ser feita de modo a se adequar à religião ou uma ideologia, ela proporciona um conhecimento que é explosivo e surpreendente.” Defensor do laicismo, ele rejeita as tradições intolerantes e oclusas, e é contra os dogmas que propagam o monoteísmo. Em um artigo no jornal alemão Die Zeit, ele declarou: “sempre quando a religião não impõe nada, a cultura árabe é magnífica. Tudo o que é isento de religião na cultura árabe é extraordinário”. E para o jornal O Globo: “Se você quer criar poesia verdadeiramente nova, é preciso combater as ideias herdadas da religião, porque criar é ser livre de toda ideologia e de todo pensamento a priori.” A religiosidade na poesia deste poeta sírio-libanês envolve a esfera mística, é a busca do homem em sanar as questões imanentes envolvendo a vida, como a morte, o amor, a busca da identidade, “como uma criação permanente, em um movimento contínuo até chegar à identidade do outro”. Contemporâneo do já falecido Edward Said, nem sempre concordava com o amigo: “O que Said enfatiza corretamente é um estereótipo do Oriente que existe no Ocidente, mas a meu ver isso está ligado a uma visão política e não cultural. Muitos intelectuais ocidentais combateram esses estereótipos. Alguns deles conhecem a cultura e a história árabe muito melhor que a maioria dos árabes e deixaram obras monumentais.”

A rosa

 

Pegue uma rosa

Deposite-a como um travesseiro

Depois

Misture o absurdo

Com a lama

Pegue a bomba

Em tua posse

Depois

Pegue uma rosa

Chame-a de canto

E cante-a para o mundo

(A face do mar)

(…)

Cresces por todos os lugares

Cresces nas profundidades

Tu és para mim como fonte

Entregas-te como árvore

E eu

Suspenso nas torres do sonho

À minha volta minhas imagens

Ansiava segredos e com eles preenchia as lacunas do dia

Gravei no teu corpo a brasa do meu corpo

Escrevi-te sobre os meus lábios e meus dedos

Esbocei-te sobre a minha fronte, transformei o alfabeto e a pronúncia e propaguei as diferentes formas de leitura

(…)

Líber, Libera, Phallus

um filete de luz matinal, amarga nos olhos, nos desperta

desmancha os nós dos cílios

a luz hasteia no nosso corpo uma colina e bandeira

e a chama salta nos travesseiros

o dia anuncia a noite – desperte!

 

A ti zarpo com o barco do meu corpo

Exploro a terra oculta no mapa dos sexos

Avanço

Recubro minha passagem com talismãs e sinais

Exalo fumo com o meu denso balbuciar

Com fogo e tatuagem

Sou uma onda e acredito, tu és a praia:

Tuas costas é a metade de um continente

Meus quatro pontos cardeais estão abaixo de teus seios

Estou em torno de ti como uma árvore

(Metamorfoses de um amante)

A antologia Árbol del Oriente, lançada em Madri, em 2010, reúne poemas de 1957 a 2007. Em 2011, surge na Alemanha a antologia Metamorfoses de um amante (Verwandlungen eines Liebenden), contendo poemas de 1958 a 1971. Neste mesmo ano, Adonis é prestigiado com o Prêmio Goethe da cidade de Frankfurt am Main. Na opinião dos jurados trata-se aqui de “um poeta verdadeiramente universal”.


Viviane de Santana Paulo (Brasil, 1966). Poeta e ensaísta, residente na Alemanha. Publicou Passeio ao longo do Reno (2002), Estrangeiro de mim (2005), e Depois do canto do gurinhatã (2010). Contato: vsantanapaulo@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras de Floriano Martins (Brasil), artista convidado desta edição de ARC.

     

 

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