Por André de Paula Ferreira (*)

A proposta deste artigo é fazer uma análise da cobertura da América Latina na editoria Mundo do Jornal Folha de S. Paulo.  Trata-se, portanto, de uma pesquisa quantitativa que se propõe avaliar o espaço destinado a este continente no Jornalismo Internacional. Apesar de ser um continente importante no cenário mundial em termos políticos, econômicos e culturais encontra-se muitas vezes esquecido pela editoria internacional na imprensa brasileira. A pesquisa revelou que a cobertura da América Latina na Folha de S. Paulo é representativa, mas ainda tímida quando comparada ao total das matérias dos demais continentes. A pesquisa analisou a editoria Mundo da (FSP) no período de uma semana, de 17 a 23 de fevereiro de 2008, período que coincidiu com a renúncia do presidente de Cuba Fidel Castro, o que resultou em uma cobertura mais intensa da América Latina na imprensa nacional.

Introdução

O espaço da América Latina na Imprensa

América Latina Oficial e Popular

Jornalismo Internacional

Pauta latino-americana no Brasil

Análise do caderno Mundo

Considerações finais

Introdução

O Jornalismo Internacional ainda é pouco estudado e pesquisado dentro dos cursos de Comunicação Social (Jornalismo). Como é uma editoria que trabalha em quase totalidade com o serviço das Agências de Notícias gera a idéia de que não é preciso preparar futuros jornalistas para atuarem nesta área. Com exceção dos grandes jornais que têm correspondentes internacionais, os demais fecham suas páginas internacionais com matérias das agências que nem sempre refletem o acontecimento como ele realmente aconteceu.

Mas neste artigo a preocupação é outra: o espaço dedicado aos assuntos da América Latina na grande imprensa brasileira. O objetivo é analisar como a editoria Mundo do Jornal Folha de S. Paulo cobre a América Latina. A escolha do FSP se deve à importância deste jornal na imprensa brasileira e por ser um jornal de circulação nacional, o que daria mais representatividade à           pesquisa.

Partiu-se de um levantamento quantitativo no período de uma semana,             sendo do dia 17 a 23 de fevereiro de 2008.  Nesse período foram quantificadas todas as matérias publicadas pela editoria e separada por continente. As notas (com menos de 15 linhas) e os artigos (opinião) foram desconsiderados na coleta e na análise dos dados.

Para cada dia foi elaborado um gráfico que será analisado a partir do referencial bibliográfico proposto. É importante reforçar que se trata de uma pesquisa quantitativa que tem como objetivo mostrar em dados estatísticos qual a  representatividade da América Latina na editoria Mundo da FSP. Não serão objetos de nossa análise o conteúdo das reportagens e nem os temas abordados, mas sim a quantidade de matérias veiculadas sobre a América Latina. Espera-se que este artigo possa contribuir para os estudos do Jornalismo Internacional que ainda é pouco pesquisado na academia.

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O ESPAÇO DA AMÉRICA LATINA NA IMPRENSA INTERNACIONAL

No final do século XX, bate à porta o crescimento do avanço tecnológico, e não é possível ignorar esse fato. Com tanta tecnologia à disposição ganha-se mais em agilidade, em tempo, facilidade, comodidade, entre outros fatores. Nos meios de comunicação isso representa sem dúvida um grande passo no caminho da democratização da informação, uma vez que, hoje qualquer pessoa passa a ter acesso à informação em qualquer lugar, em qualquer momento. É possível através de um aparelho celular ter informações sobre qualquer fato estando numa ilha isolada (desde que coberta pelo GSM – Global System Móbile), coisa que no início do século XX era impossível.

Com isso, aumenta-se proporcionalmente a velocidade com que lida-se com as coisas, pois a informação é transmitida cada vez mais rápida, o que exige das pessoas maior habilidade para manipulá-las. Também decorre que, devido a facilidade de informações veiculadas na mídia em geral, somos bombardeados diariamente com milhares de informações sobre os mais variados assuntos. Consequentemente nossa vida se torna cada vez mais agitada.

No limiar desse progresso tecnológico e da correria da vida cotidiana que temos no século XXI, não é mais possível (ou não é tendência) que se pare para ler um jornal por uma ou duas horas (exceto em casos onde o jornal faz parte do trabalho da pessoa, exemplo acionistas da bolsa que consultam o caderno de ações e economia). Atentos a essa situação, os meios de comunicação têm buscado selecionar e apresentar as notícias da forma mais breve e profunda possível, dando assim possibilidade para que as pessoas se informem o máximo possível sobre o maior número de fatos/notícias.

No entanto, pode-se constatar que, mesmo com os esforços realizados  pelos meios de comunicação, alguns assuntos que deveriam ser do interesse da população acabam sendo “esquecidos” pela mídia, como os assuntos referentes à América Latina. Sobre isso, Sant’Anna observa que:

O avanço das tecnologias bem como as políticas de  integração regional não foram suficientes para propiciar um perfil editorial na mídia escrita brasileira de forma a viabilizar mais espaço editorial para temas referentes à América Latina. (SANT’ANNA, 2001:02)

O Brasil é o maior país (em população, influência, PIB, econômica) da América Latina, e consequentemente o país mais próximo com o qual os demais países da América Latina se relacionam (em alguns casos o maior parceiro). Por isso, as mudanças políticas, econômicas e sociais que ocorrem no país têm influência direta nos demais países da América Latina e vice-versa.

Sabendo-se que os meios de comunicação têm como um dos objetivos informar a população sobre aquilo que os cerca e que lhes são importantes, e ser importante é justamente porque o fato/notícia está relacionado a vida e o conhecimento destes que tem  o poder de influenciar/mudar/transformar nossas vidas, nos perguntamos: Por que os meios de comunicação (em sua maioria) tratam a América Latina com pouca importância? Ou seja, por que o continente no qual o Brasil está inserido é pouco abordado pela mídia, e quando é citado, é apenas de forma muito breve, não sendo o suficiente para nos informar com profundidade sobre o que ocorrem nos demais países da América Latina.

O acesso à notícia local se torna tema de debates e pesquisas em se tratando de América Latina (AL) talvez pelo seu pouco espaço na mídia, e sua veiculação em segundo plano. De acordo com SANT’ANNA (2001), pouco se fala dos países que formam a região e esse descaso sempre é carregado de um contexto sensacionalista, grotesco, privilegiando o negativo.

Barbosa (2007) reconhece esse ato e ressalta que ”diante disso, desfaz-se o     mito da imparcialidade e conclui-se que, para a América Latina não ser condenada a     solidão, é preciso desenvolver e estudar os movimentos sociais latino-americanos,     incluído seus processos de comunicação”.

Portanto, analisar o porquê isso ocorre, e como isso pode ser modificado (se  for o caso) é tarefa de todos aqueles que buscam não somente receber notícias passivamente, mas analisar, refletir e transformar nossa sociedade de fato democrática e tornar-se cidadão brasileiro.

Adota-se como ponto de partida para a discussão a caracterização dos  meios de comunicação de massa, visto sua importância em informar de forma breve e profunda a maior parte da população. Em seguida apresentaremos quais fatores que levam os meios de comunicação em massa privilegiar notícias de alguns países em detrimento de outros. Por fim, sendo o caso, como reverter essa situação, e tornar os meios de comunicação realmente um instrumento de incentivo a  democracia.

A notícia é a expressão de um fato novo, que desperta interesse do público  a que o jornal se destina. O fato de um cachorro morder um homem não desperta interesse aos MCMs, porém, um homem morder um cachorro ja levanta uma pauta, pois o incomum aconteceu. A definição levantada por Charles Andreson Dana (1819-1897) do New York Sun, pode parecer perfeitamente ultrapassada, porém, não se descontextualiza das pautas atuais, pois a midia busca o que é novo e surpreendente a todo instante:

O divisor de águas entre um fato corriqueiro e outro de interesse coletivo possui alguns paradigmas. Para virar noticia, um acontecimento deve possuir uma natureza social, e não deve ser em tese corriqueiro. (TRAQUINA, 1993:27 apud SANT’ANNA, 2001:04)

(FERREE e GAMSON, 1999:56) apud SANT’ANNA acrescenta: outro fator importante para o critério de “noticiabilidade” é a carga negativa do fato em questão. Assim, noticias relatando acidentes e catástrofes ganham maior espaço, por conta do fator cultural e do espaço mercadológico que geram. Entretanto, a notícia pode  estar imbuída da condição de um serviço público. Quando desprovia deste objetivo, ela se equivale a uma mercadoria, uma commodity, utilizada para atrair audiências e vender publicidade.

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A AMÉRICA LATINA OFICIAL E A POPULAR

Segundo BARBOSA (2007) a América Latina está divida em dois eixos: a América Latina oficial e a popular. Na América Latina Oficial estão as grandes cidades, a elite branca do litoral e dos centros econômicos. Já a América Latina Popular é a dos rincões, dos sertões, dos pântanos, das montanhas, mestiça, negra, índia operária e camponesa. Com uma visão similar SANT’ANNA destaca ainda que ao falarmos de América Latina, devemos voltar os olhos a 500 anos e imaginá-la como uma grande nação sob controle  ibérico, dividida em dois territórios: um espanhol e outro português, influenciados pela igreja.

Esses territórios vivenciaram processos semelhantes: a imposição da cultura européia, a migração dos negros traficados desde a África; raízes indígenasuma forte migração européia ocorrida na virada do século XIX para o XX. (SANT’ANNA, 2001:05)

Através deste conjunto de analogia latino americana podemos identificar a linha editorial do jornalismo sobre a América Latina e seu esquecimento.

Cada América Latina tem a sua imprensa. A grande imprensa – os jornais tradicionais, as revistas, as emissoras de rádio, de TV e os grandes portais da internet – constitui veiculo oficial da América Latina oficial. No caso brasileiro, fazem parte delas mídias como Folha da São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, Veja, Istoé, Jovem Pan, Bandeirantes, Rede Globo, TV Record, UOL e Terra. (BARBOSA, 2007:23)

BARBOSA (2007) reforça ainda a idéia de que se não fosse pela imprensa alternativa, a história da América Latina popular não seria contada. A América Latina popular, à custa de muito esforço da militância, também tem seus veículos: Caros Amigos, Brasil de Fato, Agencia Carta Maior, Adital, Agencia Latino Americana de Informações (Alai), Voz Rebelde, Rebeldia, Jornal Sem Terra, Revista Sem Terra, Correio da Cidadania, revista fórum, América Libre, Vozes da Terra, entre outros.

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O JORNALISMO INTERNACIONAL

Chama-se Jornalismo Internacional a especialização da profissão jornalística nos eventos estrangeiros ao país onde está sediado o veículo de imprensa em que o jornalista trabalha. Por isso, a definição é relativa por natureza: o que é assunto “doméstico” num determinado país será “internacional” em todos os demais. Este fato faz com que o Jornalismo Internacional seja provavelmente a área do Jornalismo com maior abrangência de temas entre todas, já que deve dar conta de política, economia, cultura, acidentes, natureza e todos os assuntos que aconteçam fora de seu país de origem. (ELHAJJI, 2006:06).

Há dois tipos de reportagem que podem ser feitas no exterior: o trabalho  de
Correspondência (pelas Agências de Notícias) e a do Enviado Especial ao Exterior. Embora haja semelhanças entre ambos, as diferenças se dão no cotidiano do trabalho e da produção de material para seus respectivos veículos de imprensa.

As agências de notícias são empresas jornalísticas especializadas em difundir informações e notícias diretamente das fontes para os veículos de comunicação. As agências não fornecem diretamente ao público, mas sim para jornais, revistas, rádios, TVs, websites, a chamada mídia, que por isso mesmo media a comunicação entre a fonte e os leitores/espectadores.

Hoje as agências mantêm uma rede de correspondentes e strinngers (colaboradores) nas maiores cidades do mundo e assim repassam para os veículos de imprensa. Nos ultimos anos, o trabalho das agências e seus correspondentes foi enormemente facilitado pelas novas tecnologias de comunicação, como a Internet. (ELHAJJI, 2006:06).

O Correspondente por sua vez, é um repórter baseado fixamente numa cidade estrangeira (muitas vezes a capital de um país), cobrindo uma região, um país ou às vezes até um continente inteiro.

Dificilmente o jornal pede as matérias. Em 90% dos casos a decisão do que escrever, do que apurar é do próprio correspondente. Se por um lado isso dá uma grande liberdade, por outro obriga que ele seja muito disciplinado, porque tem que manter um fluxo regular de matérias. (UTZERI, apud ELHAJJI 1989:145).

UTZERI (1989) descreve um correspondente novo, no inicio de carreira, como uma espécie de Free Lance. Porém, muitas vezes, ao ser citado, o jornalismo internacional pode remeter a imagem de um correspondente brasileiro em Londres, Nova York, Tókio ou no Iraque. As notícias por sua vez variam desde a cobertura da guerra, economia e eleições americanas, até o mais recente lançamento da cantora Madonna ou uma greve de sexo durante um ano por parte da “patricinha” Paris Hilton.

A saber: nem tudo que é noticia aparece no noticiário internacional. O noticiário não constrói um retrato do mundo com determinado grau de exatidão. Muita coisa que será vista no futuro como de capital importância histórica é diariamente deixada de lado. (NATALI, 2004:12).

A editoria do jornalismo internacional é como todas as outras, seu lead não foge à regra adotada pela editoria de esportes ou economia, porém, a notícia na maioria das vezes vem de uma agência de noticias internacional já montada, e a informação transmitida isenta o jornalista de uma investigação com mais afinco sobre a pauta.
Utilizar material de agências internacionais sediada nos países centrais do capitalismo é reproduzir a história dos vencedores; é adotá-las como óculos para enxergar o mundo, os mesmos dos países do centro do capital. (BARBOSA, 2007:27).

Quanto as definições das pautas, (BOURDIEU, 1997) aponta a mídia eletrônica como espelho para o jornalismo impresso, onde um alimenta o outro e no fim todos acabam dando a mesma notícia, e os jornalistas acabam sendo simultaneamente agentes e vítimas desse processo de moldagem da produção cultural.

Para ROSSI (2000), o papel das agências internacionais é poderoso no mundo todo, inclusive na América Latina, subcontinente que deveria nos interessar mais de perto, pela proximidade e semelhança dos problemas. Para o autor, a grande maioria das publicações brasileiras parece pautar seu enfoque, em assuntos internacionais, por assuntos que interessam ao The New York Times e Le Monde.

A atenção que ocorre nas vizinhanças, entretanto, não pode impedir que o jornalismo brasileiro olhe cada vez mais para o mundo todo. Hoje, a globalização da economia é tamanha, as telecomunicações tornaram o mundo tão “pequeno”, que tudo, a rigor, passou a ser doméstico de alguma maneira. (ROSSI apud ELHAJJI, 2000, p. 78).

O autor não defende uma exclusividade do jornalismo internacional  para a América Latina, mas sugere que seja melhor pautada, considerando que se trata de um continente onde fica o Brasil.

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A PAUTA LATINO-AMERICANA NO BRASIL

Índios, negros, mulheres, sem-terra, pequenos agricultores, seringueiros, lideres comunitários, sindicalistas e sem-tetos. Para CHARLEAUX (2001), essas são pautas não retratadas no cenário da notícia internacional.

As grandes agências internacionais dizem que não, o assunto não é com elas. Reuters, France Press e companhia já provaram ter as antenas conectadas com pautas grandes, manchetes fortes, e assuntos nem sempre edificantes para os países pobres. Isso se deve à natureza de seu trabalho, seu público alvo e seus interesses. (CHARLEAUX apud ELHAJJI, 2006:15)

De acordo com BARBOSA (2007) a América Latina popular não é retratada  na grande imprensa, que só tem olhos para a oficial, exceto em momentos muito singulares. Apenas a imprensa alternativa tem a América Latina popular em suas categorias e seleção de notícia, isso é decorrente da educação:

A solidão da América Latina também é decorrente dos processos de ensino-aprendizagem. Os nomes de grandes figuras históricas são desconhecidos e a história dos países o é igualmente. Na linha marxista de análise histórica, não basta entender os processos, é preciso mudá-los. As propostas de alteração desse cenário de solidão incluem o desenvolvimento dos movimentos sociais latino-americanos e a inclusão de outra história latino-americana. (BARBOSA, 2007:27).

O autor ainda acrescenta que a imagem da América Latina está associada  ao atraso, corrupção e pobreza.

Essa construção negativa foi empreendida pelas elites latino-americanas, aliadas às burguesias européias e norte americanas, nos veículos de comunicação, nos livros de história e nos processos de ensino. (BARBOSA, 2007:25).

Para SANT’ANNA  (2001) A mídia detém papel de singular importância no processo de formação de um conceito de identidade cultural, a partir do qual o cidadão baliza seus atos e conceitos. OTERO (1953) identifica o surgimento do jornalismo e suas raízes na América Latina:
O jornalismo começou a se desenvolver nas colônias espanholas bem antes do processo de independência, e não trazia, na maioria dos casos, a mesma chama libertária, idealista dos congêneres europeus. Pelo contrário, ele se apresentava como um agente propagador dos ideais das autoridades das metrópoles. Os primeiros jornais da região latino-americana nasceram de iniciativas religiosas e/ou governamentais. (OTERO, 1953 apud SANT’ANNA, 2001:07).

ROSSI (1980) acrescenta que a América Latina deveria despertar maior interesse pela proximidade, semelhança de problemas e governos, lembra que nenhuma emissora brasileira de televisão tem correspondentes na América Latina, o que leva a criticar tal postura:
Esse é um território em que se viola uma das primeiras lições que se aprende no primeiro ano de qualquer faculdade razoável de jornalismo, qual seja a de que acontece perto da minha casa é mais importante do que o que acontece a quilômetros e quilômetros de distancia. (ROSSI apud SANT’ANNA, 2000:78).

Pelo fato da pauta latino-americana demonstrar certo esquecimento nas editorias internacionais no Brasil, o próximo passo deste artigo é levantar, através de uma pesquisa qualitativa que busca entender um fenômeno específico em profundidade, nesse caso o estudo de caso é feito em cima do jornal Folha de S. Paulo.

 

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ANÁLISE DA EDITORIA MUNDO DA FSP

Antes de iniciar a análise da cobertura da América Latina na Editoria Mundo do Jornal Folha de S. Paulo faz-se necessário detalhar a metodologia adotada para este estudo. A escolha da FSP se deve à importância deste jornal na imprensa brasileira e por ser um jornal de circulação nacional, o que daria mais representatividade à pesquisa. Partiu-se de um levantamento quantitativo no período de uma semana, sendo do dia 17 a 23 de fevereiro de 2008.     Nesse período foram quantificadas todas as matérias publicadas pela editoria e separada por continente.       As notas (com menos de 15 linhas) e os artigos (opinião) foram desconsiderados na coleta e na análise dos dados.

Para cada dia foi elaborado um gráfico que será analisado a partir do referencial bibliográfico proposto. É importante reforçar que se trata de uma pesquisa quantitativa que tem como objetivo mostrar em dados estatísticos qual a representatividade da América Latina na editoria Mundo da FSP. Não serão objetos de nossa análise estudos dos conteúdos das reportagens e nem os temas abordados, mas sim a quantidade de matérias veiculadas sobre a América Latina.

 

Na semana de estudo da editoria mundo da FSP, a independência no Kosovo domina o espaço no domingo 17/02. O destaque maior fica para o continente europeu com 42%, em uma semana de ataques entre a Sérvia e o Kosovo. Por outro lado, a América do Norte dominante nas paginas internacionais passa a ser o destaque com 33%. A pauta constante é sobre as eleições nos Estados Unidos, as manchetes são voltadas à candidata Hillary Clinton que não está bem nas pesquisas e busca por apoio político. Protestos também na eleição paquistanesa destacam o continente asiático em terceiro lugar com 25%. Como pode-se verificar a América Latina esteve ausente nesta edição da Editoria Mundo. Em se tratando de uma edição de domingo – com maior circulação e também número leitores – pode-se verificar um descaso com o continente latino-americano. Será que neste final de semana em questão não ocorreu nada de importante na América Latina que merecesse espaço no jornal?

 

Na segunda-feira, dia 18/02, o Kosovo se declara independente da Sérvia. As comemorações kosovareanas e o receio americano e russo quanto à conquista são temas em destaque. Líderes mundiais dão suas opiniões, inclusive o presidente brasileiro, que direto de Genebra opina, e disse que só reconhece a independência após o parecer da ONU. Comemorações e receios levam o continente europeu a dominar o espaço das notícias com 41%. É o dia em que os paquistaneses vão às urnas na mais conturbada eleição daquele país; dia em que nos EUA, o ex vice-presidente americano Al Gore, opta por neutralidade, e para evitar divisão no partido dos Democratas, não declara apoio nem a Hillary nem Obama. A América Latina, enfim aparece com 17%. O governo venezuelano anuncia a criação de imposto sobre o petróleo para aumentar a receita sobre o produto. É destacada nesse dia, a derrota do presidente de Chipre, Tassos Papadopoulos no primeiro turno. A manchete destaca-o como presidente anti-Turquia. A Ilha de Chipre é uma nação transcontinental, situada entre o continente asiático e europeu e aparece com 8%.

 

Na terça-feira,  dia 19/02, as potências ocidentais manifestam apoio ao recém- independente Kosovo, os sérvios voltam a protestar, e o gráfico aponta novamente a liderança do continente europeu com seus 37%. No continente asiático, os resultados das eleições do Paquistão dividem as paginas com atentados no Afeganistão e noticias do Iraque, o que determina 27%, o segundo lugar. As disputas eleitorais nos EUA seguem a todo vapor, e o destaque vai para os rivais democratas, que trocam acusações de plágio durante as campanhas.

América Latina e do Norte dividem o gráfico com as mesmas porcentagens 18% cada uma, o destaque latino-americano é a reativação de uma embaixada brasileira no Iraque.

 

A América Latina ganha maior destaque na quarta-feira, 20/02. É quando o presidente cubano Fidel Castro renuncia ao governo após 45 anos no poder. Em um caderno especial com dez páginas, a FSP dedica oito sobre o passado e o futuro de Cuba pós Fidel. Junto a isso, governos latino-americanos opinam sobre ao acontecido. O continente europeu é realçado ao propor diálogo em prol da democracia cubana. Tal acontecimento resulta em uma disparada latino-americana, que domina a editoria com 70% do espaço.

No mesmo dia alguns dos principais jornais do mundo como New York Times, Wall Street Journal, El país, The Guardian, Le Monde, El Universal, Clarin e Miami Herald, são destacados pela FSP. Todos têm como manchete o afastamento de Fidel Castro.

A editoria é complementada pelas eleições no Paquistão, que rendem a Ásia 6%. Os EUA e a Europa aparecem empatados com 12% cada.

 

No dia seguinte à renúncia, 21/02, a América Latina continua sendo pauta. O congresso cubano cogita contato com a Casa Branca para rever embargo. Com o fim do regime em cuba pede-se ajuda para reforma política. Havana mantém mistério sobre sucessor de Fidel e governos latinos continuam a se manifestar sobre o futuro de cuba, e pelo segundo dia lidera a editoria, agora com 39%.

A África aparece pela primeira vez na semana com 8%, é devido à visita de George Bush a Gana. Na Europa, o assunto continua sendo a transição de Kosovo com 15% de espaço ocupado, enquanto na Ásia o destaque de 23% fica por conta dos Xiitas e o cessar-fogo aos EUA. Enquanto na América do Norte, a discussão que resulta os 15% continuam sendo em torno das eleições americanas.

 

Na sexta-feira, dia 22/02, a América Latina e  América do Norte novamente se igualam em porcentagens com 37% cada uma. Pelos lados do norte, a sucessão presidencial nos EUA, já na latina a transição em Cuba notícia a chegada do homem número dois do Vaticano, que busca o fim das restrições a igreja. Junto a isso a Colômbia das Farcs e Uribe dividem espaço com a reunião de chanceleres na Argentina. Ásia e Europa também fecham empate com 13%

 

O sábado, dia 23/02, novamente o destaque é a América Latina com 56%. O governo cubano inaugura estatua do Papa João Paulo 2º, o governo brasileiro anuncia que pretende criar o GAC, grupo de amigos de Cuba, enquanto a Colômbia rejeita proposta franco-brasileira de mediação entre Uribe e Farc. Nos EUA as eleições novamente despontam nas paginas internacionais da FSP com 22%, assim como a transição de Kosovo e as questões nucleares no Irã fecham mais um empate entre Ásia e Europa com 11% cada.

 

A saída de Fidel e suas conseqüências contribuíram para a liderança da América Latina na semana. Com 36% do total, o resultado coincide com a tese de SANT’ANNA, que destaca que a noticia da América Latina é sempre acompanhada de um contexto oficioso e sensacionalista. Em seguida, com 24% a Europa acompanhada da América do Norte com 21% e Ásia 17%. Seus temas foram assemelhados a disputas políticas, assim como na África e na Ilha de Chipre, país transcontinental com 1% cada.  No quadro geral da semana, observa-se que os demais continentes ocuparam 64% das páginas da editoria Mundo da FSP, enquanto a América Latina ficou com 36%, mesmo sendo uma semana atípica, considerando que houve um fato relevante no continente que foi a renúncia do líder cubano Fidel Castro. Pode-se afirmar que caso esse fato não tivesse ocorrido, a presença da América Latina na pauta da editoria Mundo da FSP seria menos representativa.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

O artigo, seguindo sua proposta inicial, analisou a cobertura da América Latina no caderno Mundo da Folha de São Paulo de 17 a 23 de fevereiro de 2008. No diagnóstico final, porém, os resultados indicam que o espaço destinado ao continente no jornalismo internacional não é tão reduzido quanto se esperava inicialmente.

Durante a semana de pesquisa, a política dominou o cenário de notícias na FSP. As transições no Kosovo, Paquistão e EUA destacam o continente europeu, asiático e América do Norte, de domingo a terça-feira. A disparada latino-americana na pesquisa foi  devido ao fator “surpresa”. A renúncia do presidente cubano Fidel Castro repercutiu nos quatro cantos do mundo, assim como no Brasil. Por isso, então, a FSP deu destaque maior à pauta, criando um caderno especial sobre o assunto.

A América Latina transmite um conceito de continente coadjuvante, com países sem a menor importância no cenário da noticia internacional, que engatinha ainda rumo a uma revolução. Isso não deixa de ser uma realidade em se tratando de desenvolvimento social, políticas econômicas, e até mesmo as brigas internas entre países vizinhos, o que nos leva a refletir que para aparecer é preciso antes de tudo organizar a casa. Porém, um dos fatores fundamentais para tamanho “esquecimento” da América Latina abrange também o fator educação. Ao se estudar a história do Brasil, a América Latina é relacionada basicamente para nortear o país, a maior parte do estudo abrange a cultura européia de nossos colonizadores.

Tamanha pobreza da pauta latino-americana é resultado dessa cultura européia que nos acompanha desde o ensino fundamental. Melhores resultados podem ser obtidos, bastando para isso que a pauta européia deixe de ser os óculos da imprensa internacional, e que a mídia passe a noticiar o que está mais próximo de nós, que é  a América Latina. Porém, uma cobertura menos folclórica e mais jornalística, mais em cima de assuntos do que fatos isolados.

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Alexandre. A solidão da América Latina na grande imprensa. Cenários da Comunicação, São Paulo, V. 6, n. , p. 21-29, 2007

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão: seguido de A influencia do jornalismo e Os jogos olímpicos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

ELHAJJI, Mohamed. Jornalismo internacional: Sistemas Internacionais de Informação. Universidade Federal do Rio de janeiro. 2006.

NATALI, João Batista. Jornalismo internacional. São Paulo: Contexto, 2004.

SANT’ANNA, Francisco. América Latina – um tema fora da pauta. Universidade de Guadalajara – México, 2001..

(In site:  www.americalatino.jor.br)