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Isabel Vieira é jornalista, escritora, mãe e avó. É também uma grande e querida amiga. Conhecemo-nos há anos, desde a redação da revista Capricho, onde Bel escrevia sobre comportamento. Fui para a revista Claudia e Bel foi junto. Viajamos juntas para fazer lindas reportagens de turismo para a revista Claudia, ela escrevendo, eu fotografando: Egito, Nova Zelândia, Taiti. Conheci suas filhas pequeninas: Aninha, hoje casada com o gaúcho Rodrigo, mora na serra catarinense e tem uma filhota, Flora. Bibi é casada com o americano Michael, mora em Nova York e tem dois meninos, Leo e Joa. Caco, a caçula, é casada com David, mora na Austrália e tem 2 meninas, Sienna e Lia.Com três filhas e cinco netos, Bel tem que viajar muito para vê-los! Casada pela terceira vez, em 2005 trocou São Paulo por Natal, onde mora com o maridão Vavá. Bel tem um dos textos mais lindos que conheço. Suas matérias sempre me pegaram de jeito, tocaram meu coração. Seu talento é dedicado aos jovens: são 18 livros infanto-juvenis publicados até agora. Veja no site: www.isabelvieira.com.br
Isabel tem 63 anos.

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Isabel e Vavá no Opera House, em Sidney, na Austrália.

A gente fala muito em se reinventar a esta altura da vida. Você teve algum click, um momento específico que provocou uma mudança em sua vida, um segundo ato, um recomeço?

Não foi só um, foram vários. Olhando para trás, vejo minha vida como uma sequência de ciclos, separados por rupturas que me obrigaram a corrigir o rumo para poder continuar. Cada ciclo foi um recomeço. Minha história é típica da nossa geração. Casei aos 20 anos e antes dos 27 tive três filhas. Aos 29 estava divorciada e começando a carreira de jornalista. O segundo casamento durou 12 anos. Foi uma década produtiva e movimentada,  a casa cheia de crianças (um filho dele, além das minhas), trabalho full time, viagens e o início da literatura – eu nem sei como escrevi os dois primeiros livros no meio daquele tumulto. Então veio a separação e os primeiros voos adolescentes das meninas. Lembra de Éramos Seis, de Maria José  Dupré, adaptado para a tevê em 1994? Eu me sentia como dona Lola (personagem de Irene Ravache), que via a casa esvaziar e a família reduzir-se cada vez mais… Fui morar com duas das filhas num lugar menor. Mas o mais drástico foi quando todas elas bateram asas e vivi a “Síndrome do Ninho Vazio”. Uma fase difícil pra qualquer mulher, pois coincide com as mudanças físicas e psíquicas da menopausa, os questionamentos profissionais, afetivos, existenciais… Enfim… Se eu tivesse que mencionar um único momento de virada, seria esse, sem dúvida.

Existe alguma atitude ou decisão muito forte que você tomou depois dos 50 anos?

Talvez a decisão de trocar São Paulo por Natal e casar pela terceira vez aos 56 anos possa ser vista assim, mas pra mim aconteceu naturalmente, como um novo capítulo. Eu já trabalhava só com livros e podia escrever em qualquer lugar. A internet simplificou tudo. Viver em São Paulo não estava fácil. Sempre gostei do calor do Nordeste (em todos os sentidos). E não foi um passo tão arriscado, pois casei com um ex-namorado dos anos 70 e meu velho amigo. Temos a mesma idade e estávamos ambos sozinhos. Nessa altura nossos valores são outros. Em vez de emoções fortes, a gente busca companheirismo. Mesmo assim houve algumas turbulências até eu me adaptar à nova vida.

O que você acha dessa história de falar que estamos na 3ª. Idade, na Melhor Idade? Você acha que é mesmo a melhor idade? Que nome você daria para essa nossa fase da vida?

É melhor em alguns sentidos, em outros não. Cada fase tem seus encantos. Como dizia a Raquel de Queirós, ninguém gosta de envelhecer. Mas como não há escolha, o jeito é aceitar e tirar partido. Acho ótimo não precisar mais suar tanto pra ganhar o pão, ter tempo disponível, poder dizer “não” sem remorso nem culpa. Se tivesse tudo isso e mais o corpo e a disposição dos 30 anos, seria perfeito… rsrsrsrs… Certa vez, perguntei a uma tia de quem sou fã qual o segredo para envelhecer tão bem quanto ela o fazia. Ela voltou à faculdade depois dos 50, concluiu o doutorado aos 59 e, aos 80, ainda lecionava, dirigia carro, viajava pelo mundo. Além disso, tinha uma casa impecável, cozinhava divinamente e dava festas lindas. Sua resposta se tornou uma espécie de norte para mim. “O segredo”, ela disse, “é você ir substituindo o que perdeu por outras coisas, o tempo todo, pois as perdas são inevitáveis. Se você pensar só nelas, você não vive”. Acho que eu chamaria essa fase de Maturidade, ou Idade Madura.

Te assustou fazer 60 anos?

Sim, muito. Diferente de quando fiz 40 ou 50 e a mudança de década passou batido. Foi uma data marcante, porque além de me tornar oficialmente uma “idosa”, tive um câncer de orofaringe. Vinha de um ano de emoções intensas. Tinham nascido 3 netos, um de cada filha, quase ao mesmo tempo, em Santa Catarina, Estados Unidos e Austrália. Consegui estar presente no nascimento dos dois primeiros. Dias antes de viajar para conhecer a australianinha, recém-nascida, com o bilhete aéreo e o visto na mão, descobri um caroço no pescoço e isso mudou tudo. Em quinze dias fui operada, depois fiz radio e quimioterapia. Passar por essa experiência é algo radical, que te muda para sempre. Sair viva de um câncer é, literalmente, ganhar uma segunda chance, nascer outra vez. É assim que eu me sinto.

Você pensa na velhice ou deixa pra lá, pra quando ela chegar?

Penso na velhice como um processo. Estamos envelhecendo a cada dia. Espero ter saúde pra viver ainda muitos anos, de forma independente e produtiva. Contribuindo pra deixar o mundo melhor, fazendo minha pequena parte. Mas é claro que me assusto com o alto preço que muitos pagam por uma vida longa. Dói saber que o escritor Gabriel García Marquez está perdendo a memória. É difícil aceitar idosos com sérias limitações físicas. Então, se esses pensamentos aparecem, eu os afasto, pois não está no nosso controle escolher como será o fim. Já que ganhei uma segunda vida, procuro viver bem o presente, cuidando do corpo e da cabeça da melhor forma possível. Deixar de fumar há quase nove anos foi uma vitória nesse sentido.

Como você vê seu corpo?

Ai, é aí que a coisa pega… rsrsrs… Eu senti uma mudança enorme também ao fazer 60 anos, talvez porque, além de ficar doente, precisei suspender a reposição hormonal. Enquanto havia hormônios, o envelhecimento era mais lento. De repente, tudo caiu… rsrsrs… Estou aprendendo a conviver com a minha nova imagem de “senhora”. Não uso mais biquíni faz anos, mas agora até maiô inteiro tem de ser bem escolhido. Evitar braços de fora e saia curta, tentar se produzir de um jeito legal, sem cair no ridículo… Seu blog tem dados ótimas dicas, Celinha!  Adorei aquela dos sapatos confortáveis e bonitos. Traga sempre outras para nós!

O que é ser avó? Ser avó modificou você?

É mais emocionante ter um neto do que um filho. A gente está mais calejada e sente o milagre da vida de uma forma plena, absoluta. O nascimento do Leo, meu primeiro neto (hoje com 6 anos), me deixou em estado de graça, de alegria pura. Pensei que com os outros netos não sentiria a mesma coisa, mas me enganei. Cada um que chegou renovou essa emoção; é um amor que se multiplica. Eu sinto muitíssimo não conviver com eles no dia a dia. Sou a vovó “que mora no computador” e isso me deixa triste. Só me consola pensar que, sem o Skype, seria pior ainda. Ser avó me modificou pra melhor. Depois que os netos vieram, me sinto mais completa e feliz.

Até aqui, quais as descobertas que a maturidade e a experiência te trouxeram? Temos algumas vantagens ou daqui pra frente é tudo ladeira abaixo?

Há muitas vantagens práticas: estacionar o carro na vaga de idoso, pagar meia entrada no cinema, ter prioridade em filas… rsrsrs… Eu acho ótimo, juro! Às vezes fico sem-graça de usufruir desses privilégios porque, perto de outros velhinhos, ainda estou razoavelmente inteira… rsrsrs… Falando sério, a descoberta mais significativa que a maturidade me trouxe é a necessidade de ser mais flexível.  Em todas as situações.

Algum arrependimento?

Das coisas que vivi, não. Talvez de algumas que deixei de fazer. Gostaria de ter participado do Projeto Rondon no tempo da faculdade, de ter feito Pós em Antropologia, de ter aprendido a falar inglês com fluência e de ter morado no exterior por um período. Bom… não dá pra fazer tudo, né? Fiz outras coisas… Nesta altura pago o preço: estudo inglês pra entender os netinhos… rsrsrs….

Você começou a escrever para os adolescentes há mais de 20 anos. Como vê a juventude hoje? Quais as diferenças entre aquele leitor e o de hoje?

http://www.avidaaos60.com.br/wp-content/uploads/2012/09/livros-.jpgNão planejei fazer literatura juvenil. Aconteceu, em parte por ter gostado muito de escrever para as leitoras de Capricho, que na nossa época eram meninas de 15 a 19 anos, lembra?  Meu primeiro livro, Em busca de mim, saiu na Bienal do Livro de São Paulo, em 1990. Em 1991 publiquei E agora, mãe? Acho incrível que até hoje sejam meus títulos mais vendidos. Recebo mensagens de leitoras daquele tempo que os indicam para seus alunos ou filhos. Outro dia, uma leitora me tocou. Contou que leuAmarga herança de Leo (de 1997) três vezes quando tinha 13 anos. Hoje tem 23 e é universitária. Achou um exemplar num sebo, comprou-o e leu de novo. Me escreveu só pra dizer que voltou a se emocionar com a leitura. Então eu acho que a essência do jovem não muda nunca. As questões fundamentais são as mesmas, desde que o mundo é mundo. Só muda a roupagem exterior. Daí os clássicos de séculos atrás continuarem atuais.

O que é pra você ter 63 anos em pleno século 21, com toda essa tecnologia?

Confesso que é um pouco assustador. Lembro quando os computadores chegaram à redação de CLAUDIA, em 1993. Eu estava em férias. Quando voltei, as máquinas de escrever tinham sido retiradas e a equipe já estava utilizando os Macintosh (Classique, sem internet). Tive de aprender na marra. Acabei gostando. É difícil acreditar que a gente viveu séculos sem celular, sem Google, sem Facebook, não é mesmo?..rsrsrs… A geração que hoje tem 60 anos passou por todas as mudanças, da pílula anticoncepcional à internet, do disco de vinil à globalização… Eu utilizo minimamente a tecnologia, mas acho tudo  fantástico. Penso em como será o mundo dos meus netos, que já nasceram sabendo como operar  Ipad, Ipod, Iphone, Black Berry…. Até a caçulinha, de um ano, sabe… rsrsrs…

O que você diria hoje, para a Isabel de 25 anos?

“Calma, não tenha tanta pressa, menina!”

Não posso deixar de perguntar: quando você vai escrever um livro pra gente grande????

Tenho alguns na cabeça há tempos… Está mais do que na hora de passá-los pro papel!… Continue me cobrando, Celinha, pois isso me incentiva a ter coragem. Prometo que será a primeira a saber quando acontecer!