Nasceu no Rio de Janeiro/RJ a 13 de abril de 1939. Músico profissional desde os 14 anos, ex-Tamba Trio, ex-produtor da Blue Note e atualmente integrante do MPB-4. É considerado um dos melhores flautistas do Brasil.

BEBETO: “AQUI É QUE ESTÁ A RAIZ, AQUI É QUE ESTÁ A FONTE”

Por Eduardo Antonio Gosson

 

ADALBERTO JOSÉ DE CASTILHO E SOUZA (BEBETO) nasceu no Rio de Janeiro/RJ a 13 de abril de 1939. Músico profissional desde os 14 anos, ex-Tamba Trio, ex-produtor da Blue Note e atualmente integrante do MPB-4. É considerado um dos melhores flautistas do Brasil. Viveu nos EUA vários anos, onde manteve contatos com músicos da maior importância dentro do JAZZ. Estudou com o maior flautista americano, Humbert Low. Recentemente gravou o seu primeiro LP, seguindo o estilo da Bossa Nova. Lançamento Tapecar. Como ex-produtor da Blue Note e, acima de tudo, como músico consciente do processo cultural. Homem engajado com a realidade social de seu tempo, fala sobre o mercado do disco, do filme, da televisão brasileira, do artista Sérgio Mendes.

“O Pop existe dentro do Brasil porque o mercado americano impôs através de um trabalho calculado, gradativo, educativo”

“ —- A companhia quer o mercado fácil, a produção barata e o disco vender muito; e não se move uma massa tão facilmente. Você não faz um povo mudar musicalmente simplesmente com um trabalho, com um disco; você teria que trazer o povo, educando o povo gradativamente por anos e anos para que esse povo gostasse de outra forma de música. Agora, nós brigamos, o mercado brasileiro de música briga com o mercado americano, sofre o peso, desde 1960 que eles começaram com isso.Eu vi em 68 numa mesa os Jackson 5 (five) serem projetados, porque foram projetados por sociólogos produtores da Blue Note e o homem que produziu saiu da Blue Note e foi produzir em outro lugar. Eu vi esse projeto porque eu estava começando como produtor, gravava com a orquestra Duke Person que é produtor da Blue Note. Eles foram projetados assim como um edifício, então não existe emoção nenhuma naquilo; o jovem que sonha com aquilo está sendo tão enganado. Nunca um jovem foi tão consumido como está sendo hoje em dia. Antigamente, quando você comprava um sapato ele era um trabalho de artesão; até o barbante ele fabricava; hoje, quando você compra um sapato tem cinco firmas ao mesmo tempo em cima do sapato, só então você está sendo consumido por cinco firmas, assim é o mercado do disco e ele pesa. O Pop existe dentro do Brasil porque o mercado americano impôs através de um trabalho calculado, gradativo, educativo. No Carnaval, eu tive a chance de observar que o jovem brasileiro não sabe mais sambar, fica feito grilo às malucas. Isso já é produto de uma raiz que não é mais brasileira e não se vai mudar isso tão fácil. Desistir eu não vou desistir não, porque o meu trabalho é esse mas também não tenho a intenção de estar mudando massas; faço um trabalho que acredito nele e ponto final.”

“A pornochanchada é o mercado mais fácil, vende, vende mesmo, dá lucros altíssimos”

“___ Mas é exatamente um mercado semelhante ao do filme: caríssimo e o filme que não vende dá prejuízo, dando prejuízo não tem patrocínio. No próximo quem é que vai patrocinar? Então, a pornochanchada é o mercado mais fácil, vende, vende mesmo, dá lucros altíssimos, facilita a próxima produção, todo mundo fica com o seu dinheirinho no bolso. A única coisa que eu sinto já não é mais da mecânica e sim de certos produtores brasileiros (isso é uma queixa não é uma crítica) que enriqueceram com a pornochanchada e não tiveram nem a discrição de com esse dinheiro fazer um filme que fosse sério e financiar um homem sério, já que ele está rico, mas ele continuou com a prnochanchada e quis mais riquezas e mais dinheiro e a arte e a cultura ficaram renegadas a que plano? Não sei se um homem desse tem planos”.

“músicos americanos, músicos da maior importância dentro do Jazz me diziam: -Vocês não sabem a música que vocês tem”

“—Os músicos americanos, músicos da maior importância dentro do Jazz, me diziam: ‘– Vocês não sabem a música que vocês têem.’ Eu tocava chorinho de flauta para eles, flautistas como Humbert Low (foi meu professor), hoje em dia é considerado o melhor flautista dos EUA. Ele ficava feito criança, tocando choro de Pixinguinha, Benedito Lacerda, comigo e dizia: ‘Vocês não sabem, vocês não tem a idéia do que vocês tem em mãos. Nós vivemos inventando tudo que é possível em música para descobrir uma uma saída e não conseguimos; vocês tem tudo nas mãos. O que é que vocês estão esperando para fazer alguma coisa com a música?’ Eu me limitava a ri, não é? Porque é uma questão muito profunda, não é simplesmente você se voltar ao interior e sim o povo se conscientizar de todo esse potencial artística que existe no Brasil, em todos os campos. Se conscientizar que aqui é que está a raiz, aqui é que está a fonte. País jovem, inexplorado, rico em tudo. Agora essa consciência não sei como se chegar a ela, eu tenho, mais não sei como transmiti-la às pessoas, não sei como se fazer com que as pessoas olhem para dentro.”

“Sergio Mendes tinha dois contratos (…)ele gravava com o Brasil Som 66 e gravava na Atlantic o que ele queria gravar”

“—Sergio Mendes foi ficar rico, ele tinha dois contratos (no caso não é raiz, ele não gravava coisa de raiz brasileira) mas ele fez contrato duplo, ele gravava com o Brasil Som 66 e gravava na Atlantic o que ele queria gravar, ali não existe mercado de comércio, existia Sergio Mendes tocando o que ele queria tocar. Eu acho que é um dos meios de um artista se fazer. Agora, para isso precisa que ele esteja muito amadurecido. Estoura um disco, ganha o dinheiro com o disco, aí então ele faz o disco ele tem que fazer; seria o caso de Roberto Carlos, se ele tivesse essa consciência”.
“__A televisão brasileira tem um índice musical tão baixo, porque o produtor brasileiro cismou ( eu não sei de onde vem isso) o produtor brasileiro acha que o artista tem que sair de sua forma e bancar aquele bobão, e fazer aquilo que os E.U.A. estão fazendo desde de 1939 com filmes ( Zeigfield’ s – Four – Escolas de Sereias). Será que não existe, já se que provou que se pode fazer novela brasileira, já se provou que se faz humorismo brasileiro, taí Chico Anísio para mostrar isso, acabou com Marx, Hed Skelton aquelas imitações banais. Chico Anísio é humorista brasileiro, e está provado que se pode fazer, porque não se faz um musical brasileiro? Porque o produtor brasileiro não tem concepção é sempre a imitação do lá de fora: pegam um artista sério e quer que ele seja palhaço, pega o palhaço e quer que ele seja sério. O resultado: pega um cabeça e embola o meio de campo.
(In Jornal Equipe – Ano I – Nº IV – Setembro de 1976)

Adalberto José de Castilho e Souza – Rio de Janeiro – (13 de Abril de 1939)
Cantor, instrumentista (baixista, flautista e saxofonista) e compositor brasileiro.

Filho de mãe pianista e descendente do compositor John Philip Sousa (1884- 1932), Bebeto começou a tocar flauta aos nove anos de idade, clarinete aos 12 e saxofone alto aos 16. Autodidata, teve sua formação musical nos bailes, bem como nas rodas de choro. Assim como seu irmão o maestro Carlos Alberto Castilho.

Sua carreira de músico se iniciou em 1955, como integrante do conjunto de Ed Lincoln, onde passaria a atuar também como contrabaixista.

Dois anos depois, a convite de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, fez parte do conjunto que acompanhou a cantora Maysa, em excursões pelo Brasil, Argentina, Uruguai e Chile, formado por Menescal (Guitarra), Luiz Eça (piano), Helcio Milito (bateria) e Luiz Carlos Vinhas (revezando no piano com Luiz Eça).

No início dos anos 60, formou com Luiz Eça e Helcio Milito, o Tamba Trio, atuando no contrabaixo, na flauta, no sax e nos vocais. Lançou o primeiro disco em 1962, partindo em turnê pela Europa, EUA, México e Canadá. Até 1975, atuou no grupo gravando vários discos (inclusive quando o trio virou quarteto, entre 1967 e 1969).

Em 1976, lançou pela Tapecar seu primeiro disco-solo, “Bebeto”, onde ficou a cargo dos vocais, do baixo e da flauta. A gravação contou com a participação de Luiz Eça (Teclados), Helcio Milito (Bateria e percussão) e dos músicos Laércio de Freitas (Teclados) e Durval Ferreira (Cavaquinho). Esse trabalho foi relançado em CD, apenas na Inglaterra, pelo selo Wathmusic, em 2002.

De 1976 a 1981, acompanhou, no contrabaixo e na flauta, o grupo MPB-4.

Ao lado de Luiz Eça e Hélcio Milito, reintegrou-se ao Tamba Trio em 1982, em razão do LP comemorando os 20 anos de carreira do grupo. Seguiria com essa formação até 1984. Em 1989, voltaria a reunir o grupo, dessa vez com o retorno do baterista Rubens Ohana (que já tinha feito parte do trio) no lugar de Hélcio Milito, atuando até 1992, ano do falecimento de Luiz Eça.

Em 2006, lançou o CD “Amendoeira”, produzido por seu sobrinho, o cantor e compositor Marcelo Camelo, então guitarrista e vocalista da banda Los Hermanos.

Ao longo da carreira, acompanhou artistas como Sérgio Mendes, Nara Leão, Carlos Lyra, Carlos Eduardo Castilho, Sylvia Telles, Edu Lobo, Chico Buarque, Quarteto em Cy, Milton Nascimento, Eumir Deodato, João Donato, João Bosco, César Costa Filho, Eduardo Gudin, MPB4, Durval Ferreira, entre outros.

Bebeto Castilho tem 4 filhos, entre eles o músico Carlos Eduardo Castilho.
Hoje vive e trabalha no Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Discografia
• 1976/2002 – Bebeto – Tapecar LP/ Wathmusic CD
• 2006 – Amendoeira – Biscoito Fino CD

Com o Tamba Trio
• 1962 – Tamba Trio – Philips LP
• 1963 – Avanço – Philips LP
• 1964 – Tempo – Philips LP
• 1965 – 5 na Bossa – Philips LP
• 1966 – Tamba Trio – Philips LP
• 1966 – Tamba Trio saluda México – Philips LP
• 1974 – Tamba – RCA Victor LP
• 1975 – Tamba Trio – RCA Victor LP
• 1982 – Tamba Trio – 20 Anos de Sucessos – RCA Victor LP

Com o Tamba 4
• 1967 – We and the sea – A&M Records LP
• 1968 – Samba blim – A&M Records LP
• 1969 – Tamba 4 – Orfeon México LP
[editar] Com o Conjunto Bossa Nova
• 1959 – Bossa é Bossa – Odeon Compacto

Participações
• Maysa – Barquinho (1961 – Columbia LP/CD)
• Sergio Mendes – Dance Moderno (1961 – Philips LP)
• Carlos Lyra – Depois do Carnaval (1963 – Philips LP)
• João Mello – João Mello – A “Bossa” do Balanço (1963 – Philips LP)
• Luiz Eça – Luiz Eça & Cordas (1965 – Philips LP)
• Nara Leão – 5 na Bossa (1965 – Philips LP/CD); O Canto Livre de Nara (1965 – Philips LP/CD)
• Edu Lobo – 5 na Bossa (1965 – Philips LP/CD); Edu Lobo por Edu Lobo (1965 – Elenco LP/CD); Reencontro – (1966 – Elenco LP/CD)
• Sylvia Telles – Reencontro (1966 – Elenco LP/CD)
• Quinteto Villa-Lobos – Reencontro (1966 – Elenco LP/CD)
• Quarteto em Cy – Som Definitivo (1966 – Forma LP); Quarteto em Cy (1972 – Odeon LP/CD); Antologia do Samba Canção – Vol. 2 (1976 – Philips/Phonogram LP); Cobra de Vidro (1978 – Philips/Phonogram LP)
• Diversos intérpretes – Garota de Ipanema – Trilha Sonora do Filme (1967 – Philips LP/CD)
• Milton Nascimento – Milton Nascimento (1967 – Ritmos/Codil / Universal Music LP/CD); Crooner (1999 – Warner Music CD)
• Aurea Martins – O Amor em Paz (1972 – RCA Camdem LP)
• Tom Jobim – Disco de Bolso (1972 – Zen Compacto); Raros Compassos – CD 3 (2000 – Revivendo CD)
• Eumir Deodato – Catedráticos 73 / Skyscrapers [1973 - Equipe (Brasil)/ CTI (EUA) LP/CD]
• João Bosco – João Bosco (1973 – RCA Victor LP/CD)
• João Donato – Quem é Quem (1973 – Odeon LP/CD)
• Tavynho Bonfá e Cláudio Cartier – Burnier & Cartier (1974 – RCA Victor LP)
• César Costa Filho – De silêncio em silêncio (1975 – RCA Victor LP)
• Arnoldo Medeiros – Arnoldo Medeiros – O Homem, o poeta (1975 – RCA Camdem LP)
• MPB-4 – Canto dos Homens (1976 – Philips/Phonogram LP); Antologia do Samba Vol. 2 (1977 – Philips/Phonogram LP); Cobra de Vidro (1978 – Philips/Phonogram LP); Bons tempos, hein?! (1979 – Philips/Polygram LP); Tempo Tempo (1981 – Ariola LP)
• Chico Buarque – Chico Buarque (1978 – Philips/Polygram LP/CD)
• Eduardo Gudin – Coração Marginal (1978 – Continental LP)
• Roberto Riberti – Cenas (1979 – Chantecler LP)
• Moacyr Luz – Moacyr Luz 1988 (1988 – Dabliú Discos LP/CD)
• Chiquinho do Acordeom – Chiquinho do Acordeon (1990 – Visom Digital CD)
• Pingarilho – Histórias e Sonhos (2002 – JSR/UBS CD)
• Durval Ferreira – Batida Diferente (2004 – Guanabara Records CD)
• Celina – Caro João (2006 – Guanabara Records CD)
• Grupo Gente Fina E Outras Coisas – Samba e Amor (2006 – Visom CD)