L.O. Moacy, como se deu sua travessia pessoal e literária entre as paisagens do Seridó e as outras belezas, as do Rio de Janeiro? Que percalços e que impulsos atuaram nesse caminho?
M.C. Apesar das dificuldades iniciais, deu-se de forma natural, acredito, a partir de minhas inquietações de ordem existencial: o Seridó e o Potengi completavam-se com o Carioca e o Maracanã num mesmo espaço afetivo-mental. Assim me parecia. Assim me parece.

L.O. Você se mantém sempre ligado ao cordão umbilical do Seridó. Isso se demonstra na sua poesia, na sua escrita e fala, naquilo que tem postado no seu blog… Existe, realmente, esse tal sentimento seridoense? Como ele se manifesta em você?
M.C. O sentimento seridoense existe de forma telúrica – alguns diriam: de forma religiosa – dentro de todos nós. Mas como explicar algo intangível? Algo que passa pela existencialidade nossa de cada dia? Não que o meu olhar seja mais seridoense do que outros olhares. Minhas contradições são minhas e é com elas que tento trabalhar minhas coerências diante da vida e da arte.

L.O. Em que ponto da estrada se entrecruzaram a cultura do Seridó e a do mundo?
M.C. No meu caso, quando vi, pela primeira vez, em 1956, no velho Cinema Pax, em Caicó, a obra-prima Rashomon, de Kurosawa. Desde então registro os filmes que vejo. Ou, ao menos, nos últimos anos, os principais filmes. Mas não esqueçamos: estamos diante de “léguas tiranas” que pavimentam uma estrada bastante ampla.

L.O. O escritor tem mesmo de se engajar? De que maneira?
M.C. Sim, sim. Contudo, há vários níveis de compromisso com o real e o social. Arte comprometida, como a entendo, não quer dizer exatamente “arte panfletária”… de resto, um conceito gasto e devidamente sepultado, seja pelo realismo socialista (que não deve ser confundido com o socialismo enquanto tal), seja pelo realismo nazista. “Ver com olhos livres”, como queria Oswald, é um bom começo para se aprofundar no assunto.

L.O. Fala-se muito, atualmente, na questão dos militares que torturaram na época da ditadura. Você considera que esse tema merece estar na “agenda” (para usar uma expressão do Presidente Lula) dos brasileiros no momento presente?
M.C. Por que não? Aqueles que torturaram, mais do que uma “aprendizagem social”, precisam lidar com um problema básico: em nome de valores questionáveis, pseudodemocráticos em sua essência política, investiram contra a Humanidade, como um todo.

L.O. Sabe-se que, apesar de ter estado sob observação dos militares no período ditatorial, você nunca foi preso ou torturado. Que outras perdas, na arte e na dignidade humana, você teria sofrido?
M.C. Não é fácil viver e produzir sob tensão, com amigos e companheiros de viagem literária sendo presos e torturados. Uma ex-namorada enlouqueceu na prisão; nunca mais a vi. Concretamente, fui censurado em mais de uma ocasião; toda a minha biblioteca marxista foi parar em outras mãos, sendo em parte destruída; um poema/processo, em homenagem a Che, por mim realizado em 1969, foi jogado fora – nunca mais o recuperei; minhas aulas, na Universidade, por serem “vigiadas”, eram dadas de maneira metafórica.  Há mais coisas; fiquemos por aqui. Afinal, outros passaram por momentos bem piores; muitos, inclusive, foram assassinados pela ditadura.

L.O. Moacy, você ainda crê nas idéias marxistas? Nesse contexto, você vê o Presidente Lula como líder de um governo socialista ou socializante?
M.C. Sou um marxista moldado pelo já mencionado sentimento seridoense. Decerto, não vejo Lula – que considero um bom presidente, apesar de tudo – como líder de um possível governo socialista. Nem Lula, nem ninguém no atual quadro político brasileiro.

L.O. Conte-nos sobre as origens do poema/processo. Como principiou, que lampejos de criatividade aconteceram, quais as necessidades e propostas vanguardistas se manifestaram e tiveram de eclodir naquela época?
M.C. O poema/processo surgiu como desdobramento antiliterário da tendência semiótico-espacional embutida nas propostas criativas do poeta Wlademir Dias Pino, no interior da poesia concreta dos anos 50. O momento, na segunda metade dos 60, era de radicalidade: na política, na arte, no comportamento, na vida cultural. O poema/processo, em última instância, é fruto dessa radicalidade.

L.O. Em quê o poema/processo se aproxima e se distancia da poesia concreta? Houve, em algum momento, conflitos importantes de idéias entre um e outro movimento?
M.C. A poesia concreta sempre primou pelo “formalismo estrutural”, de natureza acabada e/ou fechada (apesar de divulgarem em larga escala a “obra aberta” de Umberto Eco), mais voltada para o público externo. O poema/processo procurou se abrir para novas leituras, novas opções, novas versões, novos materiais, dentro da realidade brasileira. Cada movimento, em sua devida época, representou um salto qualitativo para a história das formas poéticas da literatura nacional. Ao lado de outras aventuras igualmente significativas. Em termos de luta política e literária, os dois movimentos foram importantes e os conflitos apenas acentuaram essa importância.

L.O. Você acredita na continuidade, na permanência, do poema/processo? Como isto se manifestaria hoje?
M.C. Como movimento planificado, não – pelo menos desde 1972. Como possibilidade criativa, sim. Mas veja bem: o poema/processo que se faz hoje apresenta características diferentes daquelas anunciadas entre 1967 e 1972. A rigor, a questão não é o poema/processo; é a arte e o texto poético-literário, hoje, considerando, inclusive, a mídia eletrônica e as virtualidades do mundo cibernético.

L.O. Moacy, conte-nos acerca de sua paixão pelo cinema. Você é um cinéfilo inveterado e já viu muita coisa boa na telona. O que o marcou mais?
M.C. Vamos por ordem cronológica. Em Caicó, filmes como Rashomon e Velhas lendas tchecas. Em Natal e no Recife, os cinemas de Antonioni, Resnais, Bergman, Renoir, Ford, Kubrick, Visconti , Welles e Glauber Rocha, basicamente. Depois, no Rio, Godard (que eu já conhecia), Bresson (que também já conhecia), Dreyer e alguns outros, de Buñuel a Straub, de Vertov a Tarkóvski.  Além do mais, o fato de ter vivido a “Geração Paissandu” e a Cinemateca do MAM, no Rio, na segunda metade dos anos 60, foi muito importante para mim.

L.O. Ainda há espaço para grandes diretores? Ainda esperaria um novo Antonioni? Quem você destacaria no panorama do cinema atual?
M.C. Acredito que sim, só que em menor quantidade. De qualquer maneira, não espero e não vejo sentido em um novo Antonioni. É necessário destacar algum diretor na atualidade? Um nome: o húngaro Bela Tarr. Há outros nomes, evidentemente. Mas também se faz urgente revisar a obra de certos cineastas: por exemplo, cada vez mais me entusiasma os cinemas de Sergio Leone e Howard Hawks.

L.O. E as atrizes e atores?
M.C. Curiosamente, atores e atrizes – de qualquer época – têm uma importância relativa para mim, a não ser em casos excepcionais. Neste sentido, não teria nomes a apontar. De resto, continuo fiel a alguns nomes do passado: Monica Vitti, Jeanne Moreau, Audrey Hepburn…

L.O. E sua paixão pelos quadrinhos? Permanece? Que influências interessantes para a arte os quadrinhos podem destinar?
M.C. Permanece, claro. Influências interessantes para a arte? As mesmas do cinema. Não mais. Não menos. Ou seja, cada caso é um caso. Mas é possível afirmar que autores como Eisner, McCay, Herriman e Moebius figuram num patamar criativo instigante, no mesmo nível de Antonioni, Godard, Renoir e Welles, em termos de arte seqüencial.

L.O. Você aprova as transposições que têm sido feitas dos quadrinhos para o cinema, como “300″, “Batman”, “Sin City”, e outros?
M.C. Para falar a verdade, não vi nenhuma delas… Como cinema, não estão entre as minhas prioridades. Mas pretendo ver o novo Batman.

 

L.O. Você estabelece alguma distinção qualitativa entre a arte popular e a arte erudita?
M.C. A rigor, não. São momentos diferentes, como olhares diferentes, agenciamentos culturais diferentes. O que hoje é considerado erudito, já foi, ou pode ter sido, “popular”. Por exemplo: gosto intensamente da poesia de Murilo Mendes, assim como gosto de Leandro Gomes de Barros ou de folhetos como Viagem a São Saruê, de Manuel Camilo dos Santos, publicado em 1954.

L.O. Todos sabemos de sua paixão pelo futebol em geral e, principalmente, pelo Fluminense do Rio.  Sabemos, também, que pouco se aborda na literatura brasileira (apesar do grande fascínio do nosso povo) o tema “futebol”. São poucas exceções como Nelson Rodrigues, José Lins do Rêgo…Você não pensa em traduzir, literariamente, esse sentimento?
M.C. De certo modo, já o faço, embora em pequena escala: quatro ou cinco crônicas, seis ou sete poemas e um conto (‘O jogo’) dão conta de minha paixão pelo Fluminense, até o momento, uma paixão que começou nos meus tempos de Caicó. O que eu vivi e senti este ano nos sete jogos da Libertadores, no Maracanã, sobretudo nos três últimos, superou, em emoção – excluindo, claro, os nascimentos de minhas filhas e o encontro com a minha atual companheira –, qualquer experiência que eu vivera e sentira até então. E não sou um torcedor passivo, apesar da idade: cantava e pulava – nas arquibancadas – o tempo inteiro. Mas, é bom acrescentar, não cultuo nenhum tipo de antiflamenguismo, antibotafoguismo ou antivascainismo.

L.O. Moacy, a quantas anda sua produção poética no presente momento? A poesia erótica seria uma vertente a permanecer?
M.C. Sou muito comedido naquilo que faço, sobretudo quando o assunto é poesia, e mais ainda quando se trata de poesia verbal, seja erótica ou não. Leio mais do que produzo. A bem da verdade, nem sempre encontro “poesia” em muitos poemas publicados nos suplementos literários do país. Muitas vezes, para senti-la plenamente, recorro, por exemplo, à prosa de Gaston Bachelard. Ou a poetas menos divulgados como Mauro Gama e Affonso Ávila, para citar apenas dois nomes. Claro, há os grandes poetas. Mas, a rigor, eles são poucos.

L.O. Como você sentiu sua experiência de dramaturgo, no Auto de Natal? Como um ateu escreve sobre o assunto?
M.C. Foi uma experiência bastante rica em termos pessoais. Conheci pessoas maravilhosas. Tornei-me amigo de Paulo Jorge Dumaresq, diretor do espetáculo. Gosto de wencontrar com aqueles que fizeram o Auto. Valeu a pena, enfim. De resto, não sou um ateu ortodoxo; sou um “ateu seridoense”; no meu escritório, figuram lado a lado uma imagem de Marx e uma outra de Nossa Senhora de Sant’Ana. Cristo, embora esquisitão, parece ter sido uma grande figura. Já o Deus bíblico não me atrai; dele, com toda a sua prepotência, quero distância. Mas reconheço: é um ótimo personagem, só que, em termos ficcionais, menos interessante do que Dom Quixote e Hamlet. E Ahab. E Riobaldo. E tantos outros, incluindo o próprio Lúcifer das Escrituras.

L.O. Sobre que tipo de leitura tem se debruçado?
M.C. Poesia, ensaios literários, filosofia, política, história, quadrinhos, poemas gráfico-visuais. Quanto à ficção, tenho relido alguma coisa: um ou outro clássico, eventualmente Guimarães Rosa, um pouco de Aníbal Machado, literatura fantástica, ficção científica. E muitos autores norte-rio-grandenses.

L.O. Que contribuições o seu blog “Balaio Porreta” (sucessor do “Balaio Vermelho”) tem dado à cultura? Você vê a internet como uma nova “ágora” da cultura mundial?
M.C. Sobre o Balaio, que surgiu no dia 8 de setembro de 1986, como folha xerografada, distribuída na UFF, em Niterói, nada tenho a dizer; que outros o digam, se assim o desejarem. Sobre a internet: sua importância é inegável. Trata-se de uma revolução tecnológica cujos efeitos imediatos já se fazem sentir em profundidade.

L.O. Que novos caminhos podem ser traçados nas artes e nas letras daqui em diante, neste século XXI?
M.C. Múltiplos e variados: mais uma vez, é preciso “ver com olhos livres”. Sem qualquer tipo de preconceito. Decerto, sempre teremos nossas preferências pessoais, a partir de intermediações culturais, existenciais, vivenciais – e até mesmo literárias.

L.O. Moacy, a arte e a literatura produzidas no Rio Grande do Norte têm futuro?
M.C. Por que não? Afinal, já não somos mais uma “província literária”. Aliás, já não o somos desde os anos 60, pelo menos. Há nomes consagrados que merecem ser relidos? Decerto. Há nomes novos que merecem a nossa atenção? Claro. Por que não?