L.O. Nei, como se firmou sua decisão de abraçar as letras? Que acontecimentos ou sentimentos motivaram essa tomada de rumo?N.L.C.Incentivado pelo pai, eu li o romance de Jorge Amado, Capitães da Areia, quando tinha uns onze anos de idade. Foi um alumbramento. A minha paixão pelo romance começou ali e só fez crescer ao longo do tempo. De tanto ler ficção, de tanto me encantar com romances e romancistas, terminei sentindo vontade de escrever ficção, depois de ter publicado vários livros de poesia.

L.O. A paisagem e as vivências do Seridó ajudaram?

N.L.C. Minha vivência em Caicó foi curta, mas a magia do sertão permanece em mim. O meu romance As Pelejas de Ojuara está impregnado de sertão, seus mitos e a mitomania dos seus personagens.

L.O. Nessa travessia (do Nordeste ao Rio e ao restante do Brasil) você enfrentou muitos percalços? Teve de buscar veredas indesejadas?

N.L.C. Os primeiros anos no Rio de Janeiro foram muito difíceis. Olho para trás e não sei como sobrevivi ou como não voltei para Natal, onde eu tinha mais possibilidades de arranjar emprego e o calor humano da família e dos amigos. Teimei, passei por momentos cruéis, mas terminei me arranjando. Todas as conquistas materiais que tive na vida foram adquiridas no campo de batalha do Rio de Janeiro. Sou grato ao Rio, sou grato imensamente ao poeta Álvaro de Sá (morreu tão jovem!), que me arranjou meu primeiro emprego, na Editora Brugera.

L.O. Que momentos culminantes/relevantes você nos descreveria de sua trajetória literária?

N.L.C. Se eu vou falar em momentos culminantes/relevantes na minha trajetória literária, eu vou ferir, machucar, sacanear a dona Modéstia. Como admiro muito essa senhora, prefiro passar para a pergunta seguinte.

L.O. E os encontros? Que encontros lhe foram essenciais?

N.L.C. Tive dois encontros fundamentais na minha vida literária. Conheci Drummond, conversei com ele em seu apartamento na rua Conselheiro Lafayete, em Copacabana. Depois dos encontros, trocamos correspondência, ele fez um grande elogio ao meu romance As Pelejas de Ojuara. Na segunda edição do livro, liguei para Drummond e pedi permissão para transcrever parte do texto que ele escreve. Ele me disse: “Confesso que estou muito surpreso.” Perguntei por que, ele disse: “Poucas pessoas neste país pediriam permissão para publicar um texto que um autor escreveu em corrrespondência pessoal. Publicam sem perdir permissão nenhuma.” Outro encontro inesquecível foi com Pedro Nava. Fui muitas vezes ao apartamento dele na Glória, algumas vezes na companhia de Luís Carlos Guimarães. Belos momentos.

L.O. Você disse uma vez – acredito que sob um certo tom de ironia – que o movimento do Poema/Processo, do qual participou, somente lhe trouxe boas lembranças. A palavra supera tudo, afinal?

N.L.C. Ou eu me expressei mal ou interpretaram erradamente as minhas palavras sobre o poema/processo. Não tenho nada contra aquele movimento, criei poemas de que me orgulho até hoje, admiro todos aqueles que participaram do poema/processo. Fiz, em 1969, a ligação entre o poema/processo e a poesia de vanguarda de Portugal. Não fui um teórico do poema/processo, à maneira de Moacy Cirne e Wladimir Dias-Pino, porque a teoria não é a minha praia.

L.O. A experiência no Pasquim foi intensa e teve repercussões reais sobre sua obra, ou apenas trouxe boas lembranças?

N.L.C. A experiência no Pasquim foi maravilhosa. Só não foi mais cheia de êxitos profissionais porque eu costumo fazer autoboicote. Eu fazia de um jornal que revolucionou a imprensa brasileira, que fez até o seu final um humor sacana, genial, inovador. Mas eu sentia timidez diante dos grandes nomes do Pasquim e não freqüentava as suas rodas de mesa de bar. Eu poderia ter escrito muito mais no Pasquim, escrevi pouco, mesmo assim o pseudônimo Neil de Castro ficou conhecido de norte a sul do país.

L.O. Que valor você destina ao erotismo (presente nas suas poesia e prosa) em sua obra? E o humor?

N.L.C. Quem deve avaliar valores ao erotismo e ao humor que utilizo na minha obra é o leitor. Há leitores que gostam; outros, não. Certa vez, no Rio de Janeiro, uma mulher intelectual, dona de produtora de jingles, me disse que não havia passado das primeiras páginas de As Pelejas de Ojuara, porque detestava pornografia.

L.O. Você, ultimamente, tem se dedicado com mais ênfase aos textos em prosa (romance, crônica, etc.). A poesia ainda ocupa um lugar de relevo? Você tem produzido nessa seara?

N.L.C. Realmente faz oito anos que não publico poesia. Mas agora, ainda este ano, será publicado o meu livro Autobiografia – poemas. A poesia, em todos os tempos, sempre ocupou lugar de relevo em mim. Nesses oito anos, eu não a desprezei. Talvez ela tenha me desprezado um pouco.

L.O. O seu romance “As Dunas Vermelhas” não teve a mesma repercussão de “As Pelejas de Ojuara”, que, inclusive, foi transposto nacionalmente para o cinema. Houve algum “equívoco” na análise do público e da crítica sobre aquela obra?

N.L.C. Só quem faz sucesso, romance após romance, é Paulo Coelho. Mas eu prefiro ter um romance que não teve muita repercussão, a ganhar milhões de dólares com algo à semelhança de Paulo Coelho, o charlatão das letras.

L.O. Que importância os (muitos) prêmios literários literários tiveram sobre sua obra?

N.L.C. Prêmio literário é bom, principalmente como aquele da revista Playboy, que me deu por um conto erótico um carro novo que, hoje, custaria uns 50 mil reais. Fora disso, não vejo outra importância nos prêmios literários.

L.O. Nei, é sua timidez que leva a escrever – em alguns momentos – sob pseudônimos (ou heterônimos)? “Neil de Castro” teria sido um, em algum sentido?

N.L.C. Minha timidez se revela em outros aspectos, não neste de escrever sob pseudônimo. Quem sugeriu, nos tempos do Pasquim, o pseudônimo de Neil de Castro foi Ziraldo. Ele achava que meu nome completo era muito longo.

L.O. Quem é Chico Doido de Caicó?

N.L.C. Chico Doido de Caicó era um doido que pensava que era Chico Doido de Caicó.

L.O. E Nathália de Sousa? Dizem até que você teve uma chateação forte por causa dessa mulher?

N.L.C. Nathália de Sousa foi uma armação poética que não deu certo. Escrevi o livro, 50 poemas eróticos femininos, e contratei uma poeta do Rio de Janeiro para assumir sua identidade e lançar o livro em Natal. De última hora, a poeta amarelou, não veio, e a doce farsa foi de água abaixo. Sobre o assunto, o ”Diário de Natal” fez uma sacanagem comigo e eu rompi com os autores da sacanagem.

L.O. Como você constrói seus personagens? Por que você usa, alterando nomes, tantos tipos locais e tão próximos a você (alguns, amigos; outros, nem tanto)?

N.L.C. Meus personagens são cheios de mistério e frescura. Se eu fosse revelar o segredo deles, com certeza fariam um boicote comigo. Por outro lado, gosto de misturar personagens, pura criação, com amigos e, mais raramente, com desafetos. Morro de rir com os resultados, as conseqüências. Lula Guimarães gostava muito ser personagem, mas Celso da Silveira passou oito anos sem falar comigo, por conta das comilanças de Celso da Silva.

L.O. Quem é mais “fingidor”, na linha de Pessoa: o romancista ou o poeta?

N.L.C. O poeta chega  a fingir que é dor a dor que deveras sente. O romancista finge o tempo todo, com todos, sobre tudo.

L.O. A transposição do romance “As Pelejas de Ojuara” foi o ponto máximo de sua trajetória artístico-literária, até aqui? E a televisão…faz parte dos planos?

N.L.C. Não é muito usual um romance ser levado à tela. Logo, isso traz prazer, satisfação, para qualquer romancista. Mas confesso que não perco muito tempo pensando em outros filmes ou minisséries. Se vier, ótimo, com o dinheiro dos direitos autorais farei mais viagens à Europa.

L.O. Uma perguntinha indiscreta: o que achou de Fernanda Paes Leme?

N.L.C. Tive vontade de tomar banho com ela no Gargalheiras, ela nuinha daquele jeito que está no filme, mas sem a menor sombra de tragédia. Só prazer, muito prazer, grandes prazeres.

L.O. Nei, uma de suas obras mais citadas por amantes da obra de Guimarães Rosa é o “Universo e Vocabulário do Grande Sertão”. Você tem planos de reeditá-la?

N.L.C. É aquela história do autoboicote. Jamais procurei um editor para fazer uma nova edição desse meu livro, um dos pioneiros no estudo da linguagem de Guimarães Rosa. Mas vou procurar, prometo que vou procurar no eixo Rio-São Paulo.

L.O. As polêmicas entre intelectuais trazem algum ganho cultural?

N.L.C. Com o tempo, a polêmica vira ranço, coisa à toa, besteirada. Um dia desses, no Rio de Janeiro, li um texto de Sylvio Romero contra Machado de Assis. Nunca vi coisa tão ridícula, tão agressiva, tão nojenta.

L.O. A experiência de ter sofrido uma derrota (para um escritor absolutamente inexpressivo) na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras lhe trouxe alguma mágoa?

N.L.C. Eu terei de falar quantas vezes que adorei ser derrotado para a ANL? Será que todos julgam que estou blefando, que sofri muito com a eleição de Hélder Heronides? Até tu, Livius?

L.O. Você considera – como Affonso Romano o faz – a publicidade como uma forma de arte?

N.L.C. A propaganda, que exerci durante quase 30 anos, requer uma boa dose de criatividade, particularmente na área de criação. O redator e o diretor de arte escrevem textos e criam layouts, respectivamente, com prazos muitos curtos.  O prazo é terrível, mas a gente acaba se acostumando. No mais, também acho a propaganda uma forma de arte.

L.O. O que você utilizou (que recursos, que conceitos) da publicidade em sua obra?

N.L.C. A publicidade me deu mais agilidade para escrever um texto, um poema, ou elaborar o esboço de uma obra de ficção.

L.O. O que pesou na sua decisão de voltar do Rio de Janeiro para morar em Natal?

N.L.C. Natal é minha pátria. Aqui se encontram os irmãos, os grandes amigos, as paisagens da infância, as lembranças mais ternas. Lívio, vamos terminar na pergunta 24, tá?  É um número sugestivo…