Nasceu em Natal no dia 13 de outubro de 1928. Fez o curso primário no Colégio Marista e o colegial no Ateneu Norte-Riograndense. Aos 12 anos, ainda de calças curtas, começou a trabalhar no Diário de Natal, com Djalma Maranhão, escrevendo um comentário esportivo. Trabalhou, a seguir, em A Ordem, com Otto Guerra, Ulysses de Góes e José Nazareno de Aguiar, e em A República, com Valdemar de Araújo, Rivaldo Pinheiro, Aderbal de França, Luís Maranhão e Luís da Câmara Cascudo; na Rádio Educadora de Natal, com Carlos Lamas, Carlos Farache e Genar Wanderley; e na Rádio Poti, com Edilson Varela e Meira Filho.

Lívio Oliveira (02/07/2008):

L.O. Em todos os seus anos de jornalismo político, quais foram as figuras e os personagens que mais lhe impressionaram, no mundo, no Brasil e no Rio Grande do Norte ?

M.M.F. Esses personagens foram muitos e, para evitar queixas, vou citar apenas os mortos,  com os quais estive pessoalmente.  No Mundo, John Kennedy, Winston Churchill, Charles De Gaulle, Eisenhower, Salazar, Caetano, Albert Sabin, Thatcher, Golda Meir, Moshe Dayan, Nasser, Indira Ghandi, Ho Chi Min e Sukarno. No Brasil, Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda, José Américo de Almeida, Otávio Mangabeira, Barbosa Lima Sobrinho; Dom Helder Câmara, Betinho, Prestes, e, no Rio Grande do Norte, José Augusto Bezerra de Medeiros, Sylvio Pedroza, Gentil Ferreira, Mons. Walfredo Gurgel, José Ferreira de Souza, Café Filho, Djalma Maranhão, Dom Esmeraldo Dantas, Câmara Cascudo, Manoel Benício Filho, Dinarte  Mariz, Tarcísio Maia e Aluízio Alves.

L.O. Como se deu sua trajetória no jornalismo? Quais foram os maiores percalços ?

M.M.F. Aos 12 anos de idade, ainda de calças curtas, entrei pela primeira vez na redação de um jornal “O Diário”, aqui em Natal, editado na Rua Frei Miguelinho. Aos 18 anos, fui para o Rio de Janeiro. Eu era então mais um personagem no extenso fabulário da minha geração de jovens nordestinos nômades, que fugiam de suas terras secas aqui no Nordeste para irem batalhar por um lugar ao sol, na selva das grandes cidades.

Hoje em dia, quando vejo a perplexidade e a indecisão de tantas pessoas sem saberem ao certo o que querem e para onde vão, eu me pergunto a mim mesmo o que se passava na cabeça daquele rapaz de Natal, que, menino ainda, e já naquele tempo, decidira ser jornalista no Rio de Janeiro.

Lá me ofereci em todos os 32 jornais diários que então ali se editavam. Nenhum quis nem sequer fazer uma experiência para ver se eu prestava ou não. Comi então o pão que o diabo amassou. Não gosto nem de me lembrar. O único que concordou em me dar uma chance foi o “Correio da Noite”, um jornal da Arquidiocese, na sua seção policial. Sucederam-se depois a “Tribuna da Imprensa”, o “Estado de São Paulo”, a Revista e a TV “Manchete”, dezenas de viagens à Europa, aos Estados Unidos, quatro à Ásia e três à África.

L.O. Quais as maiores vitórias de suas carreiras jornalística e literária? E as maiores lições?

M.M.F. As recompensas jornalísticas e literárias foram várias. E a maior delas foi a minha eleição para a Academia Brasileira de Letras.

L.O. Você ainda acredita que a imprensa escrita permanecerá viva num mundo globalizado e “virtual”?

M.M.F. O jornal escrito já venceu muitas ameaças, como as do rádio e da televisão. Vencerá a mais recente, que é a Internet, porque tem o tato e o cheiro de tinta, que elas três não têm.

L.O. Quais as suas influências essenciais no jornalismo e nas letras?

M.M.F. No jornalismo e nas letras, tive muitos exemplos e lições de correção, competência e dignidade, que tento, mas que nem sempre consigo, imitar.

L.O. Que importância existe para o RN no fato do Senador Garibaldi Filho ser hoje o Presidente do Senado? Ele tem ou terá algum papel de relevância histórica?

M.M.F. O Senador Garibaldi Filho é o segundo norte-riograndense a presidir o Senado. O primeiro foi Café Filho, cumulativamente com a Vice-Presidência da República. Garibaldi é também o terceiro na atual ordem da sucessão de Lula. Os outros dois são o Vice José Alencar e o Deputado Arlindo Chinaglia, presidente da Câmara. Após o descalabro da presidência de Renan Calheiros, Garibaldi tem hoje uma oportunidade única: a de restaurar o prestígio do Senado, que está simplesmente no chão. É uma tarefa quase impossível, mas que ele, aos poucos e com simplicidade, está conseguindo.

L.O. Política, jornalismo e literatura são compatíveis?

M.M.F. São não apenas compatíveis, como complementares. Um jornalista culto será seguramente um bom político.

L.O. Em algum momento de sua história pessoal desejou participar ativamente da política partidária?

M.M.F. Há vários anos, houve algumas chances dessa participação, no Rio, onde eu tinha um programa “Congresso em Revista”, na TV-Rio, de razoável sucesso, que ficou no ar ininterruptamente durante sete anos, com o mesmo patrocinador: “Zenith, Rádio e Televisão”. Naquele tempo, eu contava com o convite e o apoio de Carlos Lacerda, que já havia eleito Amaral Netto, Mário Martins e Raul Brunini. Mas nunca aceitei a aventura por uma razão muito simples: porque eu conhecia de perto a vida de sacrifício e de privações dos políticos realmente dignos e honrados. Não queria ser um deles, inclusive porque a minha profissão de jornalista era permanente e duradoura, e o mandato de deputado era fugaz e passageiro. Enquanto eles passavam como parlamentar, eu continuava jornalista.

L.O. Que políticos vivos ainda podem dar exemplo no Brasil? Ainda haverá um Ulisses, um Capanema, um Afonso Arinos?

M.M.F. Temos de convir que, assim como aconteceu nos esportes, na diplomacia, no jornalismo, no empresariado, no Exército, na Marinha e na Aeronáutica, houve uma evidente piora também no Congresso. Lembro-me bem do tempo em que me iniciava no jornalismo, quando, embevecido e extasiado, assistia no Palácio Tiradentes debates históricos e únicos, num exercício diário de admiráveis oradores: Aliomar Baleeiro, Adauto Cardoso, Prado Kelly, Raul Pilla, Flores da Cunha, Vieira de Melo, Carlos Luz, Artur Bernardes, Nereu Ramos, os dois Mangabeiras (Octávio e João), Gustavo Capanema,   Nelson Carneiro, Moura Andrade, Milton Campos, João Agripino, Pedro Aleixo, Juracy Magalhães, Ulisses Guimarães, Abelardo Jurema, José Bonifácio, Bilac Pinto, Gabriel Passos, Afonso Arinos, José Maria Alkmim, Almino Afonso, Oscar Corrêa, Tancredo Neves, Antônio Balbino e tantos outros.

L.O. Que relevo as eleições norte-americanas terão para o Brasil?

M.M.F. Na medida em que os Estados Unidos forem bem, nós iremos melhor ainda. São duas economias interligadas uma à outra, sobretudo agora quando a nossa já começa a dar os seus primeiros passos para assumir uma posição de solidez e segurança, deixando de ser um País sem importância e transformando-se numa Nação de primeiro Mundo.

L.O. Que importância tem a Academia Brasileira de Letras para a literatura nacional?

M.M.F. A minha Academia deixou de ser uma instituição fechada passando a ser um agente aberto para a sociedade brasileira, através dos cursos, seminários, conferências, exposições, debates, edições de livros, etc. Quando eu me elegi, já o fui em nome de uma nova Academia, presente e participante em todo o universo literário do País. Antes, a ABL recebia convites, sobretudo das Academias Estaduais de Letras e nem sequer os respondia. Agora, não. Onde quer que me convidem eu vou. Já fui de Manaus a Porto Alegre. E para compensar-me deste sobe e desce dos aviões, nestes aeroportos imprevisíveis, resta-me o consolo de ver pessoalmente como a minha Academia é unanimemente respeitada e querida.

L.O. A Academia cumpre o seu papel institucional e cultural?

M.M.F. No cumprimento desta nossa missão cultural e institucional, fico comovido com o carinho e a hospitalidade recebidos. Cutucam-me nos braços e nas mãos para verem se sou eu mesmo. Pois afinal de contas, aquela era a primeira vez que eles estavam vendo um acadêmico de corpo inteiro.

L.O. Quais foram, no passado, os maiores nomes da Academia?

M.M.F. A lista é extensa e vou abreviá-la: os Fundadores Machado, Coelho Neto, Rio Branco, Raimundo Correia, Rui, Nabuco, Beviláqua, Bilac, Romero, Veríssimo, Patrocínio, Laet, Graça Aranha, Afonso Celso, Oliveira Lima e os seus Sucessores: João Neves, Mário Palmério, Osvaldo Cruz, Carlos Chagas, Barbosa Lima, Athayde, Callado, Otto Lara, Darcy Ribeiro, Carneiro Leão, Felix Pacheco, Pedro Calmon, Álvaro Lins, Antônio Houiass, Peregrino, Gustavo Barroso, Osório Duque-Estrada, Humberto de Campos, Euclides, Afonso Pena, Macedo Soares, Olegário Mariano, Dias Gomes, Luís Viana Filho, José Lins do Rêgo, José Américo, Afonso Arinos, Gilberto, Genolino e Jorge Amado, Menotti, Bandeira, Aurélio, Joracy, Viriato, Merquior, Setúbal, Chateaubriand, Santos-Dumont, Getúlio, Rocha Pombo, Alceu, Miguel Couto, João Cabral, Rodolfo Garcia, Roberto Simonsen, Vianna Moog, Hermes Lima, Zélia, Rachel, Faoro, Celso e Evandro, todos, hoje, já mortos.

L.O. É salutar a longa permanência de alguns intelectuais à frente de instituições culturais?

M.M.F. Depende de sua capacidade e dedicação. Sendo capazes e dedicados, eles devem ficar à frente de suas instituições, durante o tempo necessário para executarem os seus planos e projetos de trabalhos e de realizações.

L.O. Existe democracia nas Academias de Letras?

M.M.F. Sim, na medida em que elas estão de portas abertas para elegerem candidatos democraticamente apresentados, sem distinção de credos, raças, fortunas ou preconceitos. Eu mesmo, com as origens humildes de onde vim, sou o resultado mais concreto dessa democracia acadêmica.

L.O. Situe-nos a figura de Austregésilo de Athayde.

M.M.F. A ABL foi presidida, durante 33 anos, por um mesmo presidente: Austregésilo de Athayde, ao qual somos muito gratos, pelo seu excelente desempenho no cargo, com a construção de um moderno edifício de 33 andares, bem no centro do Rio de Janeiro. Através de um comodato com a Ecisa, uma empresa imobiliária, ele assinou um contrato de construção do prédio, num terreno recebido em doação e concedendo-lhe, como pagamento da obra, o direito de receber os seus aluguéis durante 20 anos, findos os quais o imóvel retornou de graça para a Academia, que hoje tem nele o grande instrumento para a sua total independência financeira: não tem um metro quadrado vazio.

Com a morte de Athayde e a fim de evitarmos a repetição de sua vitaliciedade, fizemos uma reforma nos Estatutos da Academia, permitindo a eleição dos presidentes por um ano e renováveis apenas por mais um.

L.O. Que sentimento você nutre hoje pelo RN?

M.M.F. Um sentimento de profunda saudade dos tempos da minha infância na Rua Apody, onde, em 1938, fomos praticamente os pioneiros, com a Igreja de Santa Teresinha na frente e o Seminário de São Pedro ao fundo; saudades das peladas com bola de meia nos campos de areia e capim, com Marcelo Carvalho, Renato e Humberto Magalhães; saudades do bonde ronceiro; das regatas no Potengi, com Marito, Sólon e Alvamar; das bailes no Aero-Clube, com Boquinha, Carlos e Antônio Lamas; do papo no Grande Ponto, com Mussolini, Nei e Mozart; dos corsos no Carnaval, com Zé Herôncio, Zé Areias e o Dr. Bacorinha; das conversas na Cova da Onça e no Café Globo, com João Câmara, Aristófanes, Manezinho, Antônio Justino e João Bianor; dos acordos políticos no Grande Hotel, com Teodorico, Dinarte, Djalma e Jessé; dos espetáculos no Teatro Carlos Gomes, com Sandoval Wanderley, Carlos Siqueira, Meira Pires e Alcides Cicco; da boemia na Confeitaria Delícia, com Cascudo, Garcia e Roberto Freire; das madrugadas em “A República”, com Waldemar Araújo, Luiz Maranhão e Rivaldo Pinheiro; das noites em “O Diário”, com Djalma Maranhão, Aderbal de França e Rui Paiva; dos encontros na Farmácia Natal, com Cloro Marques, Dr. Aldo e Duó; das aulas no Atheneu, com Véscio, Cônego Monte, Edgar Barbosa, Gentil Ferreira, Celestino Pimentel, Clementino Câmara e Chamirranha; dos julgamentos no Tribunal do Júri, com Manoel Varela, João Medeiros e Claudionor.

Aqui em Natal, ficaram as minhas raízes, as minhas origens, a minha família: pai e mãe, tios e tias, irmãos e irmãs, primos e primas, sobrinhos e sobrinhas, pessoas muito queridas ao meu coração, das quais até hoje sinto muita falta e saudades imensas.

Saudades de um tempo inesquecível, que infelizmente não volta mais.