Pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva, (São Paulo, 29 de junho de 1951) é um escritor brasileiro.
o poeta Glauco Mattoso Seu nome artístico é um trocadilho com glaucomatoso,
termo usado para os que sofrem de glaucoma, doença que o fez perder progressivamente a visão, até a cegueira total em 1995. É também uma alusão a Gregório de Matos, de quem se considera herdeiro na sátira política e na crítica de costumes.

LÍVIO OLIVEIRA (Recebida em 24/07/2008):

L.O. Como anda a poesia concreta, atualmente, no Brasil? Quais são os
principais nomes que a trabalham (criam) ou estudam no momento?

G.M. Fiquei cego há mais de dez anos e, desde então, me desinteressei da
poesia enquanto visualidade. Passei a priorizar a oralidade, que aliás é
a poesia em sua raiz histórica. Agora que me adaptei ao computador
falante, valorizo também a textualidade, mas me prendo a formas fixas. A
vanguarda verbi-voco-visual teve seu papel histórico, mas os próprios
pioneiros do concretismo, como os irmãos Campos, que me influenciaram
quando eu começava, voltaram a dedicar-se à textualidade, como
recriadores de clássicos. Mas ainda merecem, claro, as devidas
homenagens, como as que Augusto recebe, por exemplo, de Marcelo Tápia e
Cláudio Daniel, dois atuais representantes, tanto da poesia eternamente
textual, quanto da computação gráfica, esta a sucessora do concretismo
em tempos de informática.

L.O. Que intersecções você vê entre a poesia concreta e o poema-processo
(que acaba de completar 40 anos)? Como você vê o poema-processo e seus
idealizadores, como Moacy Cirne, Wlademir Dias-Pino, Falves Silva…?

G.M. Vejo mais pontos de convergência que de divergência entre essas duas
correntes vanguardistas, apesar da rivalidade entre elas, e me sinto
próximo de ambas, na medida em que meu fanzine anarco-poético, o “Jornal
Dobrábil”, veiculou meu concretismo punk como arte-postal, sendo que
todos os poetas “marginais” da minha geração praticavam a “mail-art”
mesmo sem estarem engajados no poema-processo. Naquela fase intercambiei com Paulo Bruscky, Unhandeijara Lisboa e Sebastião Nunes, que, além dos nomes que você cita, considero representativos da marginalidade
intelectual, ou da intelectualidade marginal. Hoje tudo isso ficou na
história, com o advento da rede virtual.

L.O.  A palavra ainda guarda soluções poéticas originais?

G.M. Nada é original em poesia. O experimentalismo sempre é possível e,
depois da holografia e da realidade virtual, novos recursos surgirão
para desdobrarmos a palavra em todas as dimensões perceptíveis. Mas o
essencial da poesia é que a palavra continua tendo sentido próprio e
figurado, e a originalidade consiste na maneira pessoal com que cada
autor manipula tais sentidos.

L.O.  Explique-nos como foi criado o seu pseudônimo. Houve um aguçamento
de sua sensibilidade poético-artística com a sobrevinda da perda da
visão?

G.M. O pseudônimo foi criado bem antes da cegueira total, mas, como o mal
é de nascença, eu já sabia que um glaucomatoso estaria fadado a ser
cego. Além da audição, do tato e do olfato, a perda da visão aguçou em
mim a memória e a musicalidade. Por conseguinte, passei a valorizar mais
a poesia metrificada e rimada, que melhor responde à capacidade
mnemônica e ao impulso rítmico, que são, aliás, ancestrais à criação
poética.

L.O.  Fale sobre a importância da música em sua obra.

G.M. Além da musicalidade inerente à própria poesia, meu histórico de
poeta marginal me aproximou dos hippies e punks e, portanto, do rock.
Participei, como letrista ou produtor de CDs independentes, de toda uma
geração de bandas, desde os Inocentes e os Garotos Podres, até que meus
sonetos foram musicados por intérpretes das mais variadas tendências,
como Arnaldo Antunes, Falcão, Wander Wildner, Humberto Gessinger ou
Itamar Assumpção.

L.O.  Duas coisas: erotismo e humor! Como se inserem na sua obra?

G.M. As duas coisas se fundem numa só, já que o fescenino une a sátira à
obscenidade, e a inserção segue a linhagem dos meus antecessores,
Gregório, Bocage, Madragoa, Aretino, Belli.

L.O.  O fazer poético fescenino/erótico/pornográfico impõe alguma pena a
quem o faz?

G.M. Qualquer fazer poético é uma pena. Ninguém é poeta por acaso ou por
passatempo. Para mim a poesia é uma fatalidade e, como tenho um
histórico de abuso sexual na infância, meu desabafo assumiu um caráter
mais libidinoso, enquanto para outros o desabafo pode ser mais político,
mais amoroso, mais psicológico, e assim por diante.

L.O.  Em que a letra de música se diferencia do poema? Ou não há
diferenças essenciais?

G.M. Há diferenças, mas não aquelas que alguns apontam, de caráter
qualitativo ou literário. São diferenças meramente técnicas. Uma letra
de Chico Buarque é, ao mesmo tempo, um poema, como uma letra de Humberto
Teixeira cantada por Luís Gonzaga. Só não é, às vezes, um perfeito poema
quando a métrica da música não coincide com a da versificação escrita.
Exemplo: em “A banda”, temos uma letra que, se apenas escrita, seria um
poema imperfeito. Vejamos:

Em poesia:
Estava à toa na vida (redondilha maior)
Meu amor me chamou (heróico quebrado)
P’ra ver a banda passar (redondilha maior)
Cantando coisas de amor (redondilha maior)

Na música:
Estava à toa na vi/ (redondilha maior)
/da, meu amor me chamou (redondilha maior)
p’ra ver a banda passar (redondilha maior)
cantando coisas de amor (redondilha maior)

L.O.  Por que a busca de caminhos experimentais na sua produção
artístico-literária? Que encontros e descobertas estéticas se deram e
poderão se dar nesse caminho?

G.M. Enquanto enxerguei, pratiquei várias modalidades experimentais
(concretismo, arte postal, datilografia artesanal, colagem, paródia,
procedimentos dadaístas e surrealistas), mas após a cegueira descobri
que a pesquisa estética (ou antiestética) pode ser mais interessante
dentro da própria forma fixa, como no soneto ou na glosa decimal,
bastando misturar o chulo ao erudito, o sórdido ao sublime, a realidade
violenta à fantasia refinada. Reciclando as potencialidades do soneto
acho que estou sendo mais experimental do que se tentasse apenas
“abolir” a métrica, a rima, ou o próprio verso.

L.O.  Como se dá a inserção das tecnologias de ponta no seu trabalho?

G.M. No caso, trata-se dum computador falante, que soletra cada tecla que
digito ou repete, inteiras, as palavras que teclei. Com isso edito
textos completos, que depois serão formatados e disponibilizados na rede
por alguém que enxerga, ou impressos em livro ou revista. Esse simples
recurso foi decisivo para que um cego continuasse a compor e produzir
como produzo, tendo chegado aos três mil sonetos, um recorde mundial
superior ao do italiano oitocentista Giuseppe Belli, outro “caso
patológico”, maluco pelo fescenino.

L.O.  Como os recursos da informática e especificamente da internet podem
auxiliar a literatura?

G.M. Acho que a maior potencialidade está em ampliar infinitamente a
independência dos antigos fanzineiros, agora transformados em
internautas, blogueiros, orkuteiros, youtubeiros, e por aí vai. A
independência, seja da censura política, seja do mercado editorial, é o
fator mais importante nessa democratização global proporcionada pela
informática.

L.O.  O que existe de novo e interessante na literatura e nas artes do
Brasil?

G.M. O que existe de interessante é justamente o que não é novo. Por
exemplo, o que está sendo chamado de “novo cordel” nada mais é que uma
revalorização, com mais qualidade na versificação e mais atualidade
temática, do bom e velho folheto de feira nordestina. Tenho participado
ativamente desse neocordelismo, em pelejas virtuais que depois saem
impressas em folheto ou livro, e destaco nomes importantes nesse campo,
como o paraibano Astier Basílio, o cearense Arievaldo Viana e o
cearense-paulista Moreira de Acopiara, lembrando que a glosa fescenina
tem no potiguar Moysés Sesyom o fundador duma verdadeira escola
fescenina, a ponto de ser chamado o “Bocage brasileiro”.

L.O.  Qual o verdadeiro papel do artista e do escritor? Você acredita em
literatura engajada?

G.M. Essa pergunta é tão recorrente que prefiro respondê-la com um soneto
que fiz a pedido de Régis Bonvicino, para uma revista que tematizava os
manifestos e as propostas programáticas em poesia.

SONETO REMANIFESTO [507]

Depois de tanta escola e tanta igreja
desde o barroco aos pós em que hoje vivo,
arcaico, iconoclasta ou construtivo
preceito em manifesto é o que sobeja.

Também quero propor! Que o verso seja
mais sujo e chulo: um ralo e não um crivo;
mais curto e grosso: expresso e não esquivo;
mais duro e rijo: o metro não fraqueja!

Enfim, nada de novo: apenas quero
respeito à tradição do fescenino,
tão velho em poesia quanto Homero.

Abastardar não basta, vaticino
porém: convence o vate se é sincero
e conta o que sofreu desde menino.

L.O.  O que, a seu ver, significa “autenticidade” e “consistência” no
fazer artístico e literário?

G.M. Simples. Apenas ser fiel à própria biografia. Fingir, mas a partir
duma verdade pessoal. Acho que poesia é trauma, choque, impacto. Se
reajo ao que sofri quando agredido, estou sendo autêntico.

L.O.  Quais são os seus atuais projetos e os que estão em andamento?

G.M. Com tamanha quantidade de sonetos compostos, meu projeto é ir
publicando tudo isso aos poucos, numa série de volumes que intitulo
“Mattosiana”, além de disponibilizar tal conteúdo em formato de livro
eletrônico. Isso requer constante atualização e é o que me mobiliza no
momento.