(Barreirinha, 30 de março de 1926) é um poeta brasileiro.Natural do Estado do Amazonas, é um dos poetas mais influentes e respeitados no pais, reconhecido como um ícone da literatura regional.

O VELHO RAPSODO

11 de abril de 2010
Transcrito de O Estado de São Paulo, 08.05.1999
Poeta amazonense mantém-se na contramão da
modernidade depois de período de sofisticação

Por
José Castello

Muito preconceito e incompreensão cercam a vasta obra do poeta amazonense Thiago de Mello, de 73 anos. Antes de tudo, é reduzido, um tanto apressadamente, à figura do poeta engajado e sua poesia tomada, mais, como ideologia. Depois, numa época de sofisticação e rapidez, ele se mantém apegado aos temas primitivos e lentos do Baixo Amazonas, aos versos soltos e derramados e, apesar de ateu, a uma visão da poesia como milagre.

Thiago de Mello é um poeta na contramão da modernidade e isso bastaria para distanciá-lo de seus pares, mas há ainda um fator circunstancial a considerar: desde que retornou ao exílio, em 1978, voltou a viver na distante Barreirinha, pequena vila de 5 mil habitantes encravada no Baixo Amazonas, em pleno coração da floresta. Quando volta do sul do País, depois de voar até Manaus e de lá num pequeno avião até Parintins, o poeta ainda é obrigado a enfrentar uma longa viagem de barco, de mais de cinco horas, até chegar em casa.

Toda manhã, porque sofre de importantes complicações nas coronárias, Thiago dá uma longa caminhada solitária pela floresta, durante a qual recita em voz alta, para macacos, pássaros e o vento, versos de Manuel Bandeira e de Joaquim Cardozo. Apesar do difícil trajeto até sua casa e do peso da idade, não pensa em mudar-se de Barreirinha.

Há dois anos, seus leitores tiveram a impressão, errada, de que se preparava para retirar-se. Depois de ter avisado que De uma Vez por Todas, coletânea de verso e prosa lançada pela Civilização Brasileira em 1996, era seu último livro, Thiago de Mello lança duas novas obras.

Cara de índio, cabelos revoltos, bata branca, Thiago tem mesmo um jeitão de profeta, ou de místico, que contraria (superficialmente, pois ele se considera um utópico) seu perfil de artista ateu e de esquerda. Fala mansa, acentuada pela idade, olhar perdido e grandes silêncios dão a impressão de possuir conexões secretas com outros mundos que não podemos ver. Mas não foge da vida social. Não dispensa convites para seminários, palestras e eventos literários – acaba de participar do júri do prestigiado Prêmio Literário Casa de las Américas -, mas está sempre ansioso para voltar para o silêncio da floresta.

Além disso, participa intensamente da vida social de Barreirinha, onde há dois anos fundou um jogral, Os Companheiros da Esperança, com 18 jovens, que já tem um repertório de 25 poemas de Drummond, Pessoa, Cardozo, Cabral, Gullar e Bandeira. Mas Thiago não limita suas atividades aos entornos da floresta. No momento, ele se empenha na organização de um grande encontro sobre a Amazônia, patrocinado pela Soka Gakai Internacional, uma ONG japonesa, que deve ser realizado este ano em Manaus.

Exílio
Depois de fazer uma cineangiografia em São Paulo, o poeta vai para o Chile, país em que viveu a maior parte dos seus nove anos de exílio, onde lançará a antologia de poemas Ainda é Tempo, a primeira integralmente selecionada e organizada por ele.

Quanto aos leitores brasileiros meio esquecidos da obra de Thiago, o melhor mesmo é ler Campo de Milagres, livro de poemas derramados e excessivos como ele mesmo, dedicados a amigos como Joaquim Cardozo, Manuel Bandeira, José Lins do Rego e ao pintor chileno Nemésio Antunez. O primeiro livro de Thiago, Silêncio de Pedra, é de 1951 e com Campo de Milagres um ciclo de 50 anos de poesia começa a fechar-se.

Não menos inspirado é Amazonas/Águas, Pássaros, Seres e Milagres, um belo livro fartamente ilustrado com reproduções dos trabalhos das bordadeiras do Baixo Amazonas. Os dois trabalhos guardam um espírito de balanço, de inventário, que começa a desaguar no livro de memórias que Thiago de Mello está escrevendo. Não memórias clássicas, mas um livro sobre as pessoas que conheceu, amou e que marcaram sua vida. É principalmente sobre essas pessoas que ele fala nessa entrevista.

Estado É verdade que você começou a escrever suas memórias?

Thiago de Mello – Minha editora pediu minhas memórias, mas vi que seriam uns 40 volumes e desisti. Então resolvi fazer um livro sobre pessoas, saltando para o poético. Rubem Braga dizia que Murilo Mendes, além de poeta, era poético. Conversando com o Armando Nogueira, cheguei à conclusão que a gente tem o direito de exercer sobre nosso passado o mesmo direito que nossos filhos têm sobre o futuro. Temos o direito de poetizá-lo.

Com quais poetas compartilha essa visão poética do mundo?

Bandeira e Cardozo estão entre meus poetas mais amados. Basta dizer que diariamente dou minha caminhada pela floresta, sozinho, para cuidar das minhas coronárias, dizendo versos de Bandeira e de Cardozo. Quando converso com o Armando, eu digo um verso e ele me responde com outro. E assim vamos. A poesia está impregnada em minha vida.

Você conheceu Manuel Bandeira?

Conheci Bandeira quando era estudante de medicina, por uma generosidade de Drummond. Levei para Drummond meus poemas, ele quis saber quem eu era. Naquele dia eu ganhei do Drummond, e do Lúcio Costa, que trabalhava na mesa ao lado, uma amizade sem fim. Drummond guardou meus versos e pediu que eu voltasse três dias depois. Quando voltei, entregou-me meus poemas cheios de observações, deu-me para ler inéditos do Claro Enigma e disse: “Vamos sair.” E levou-me à casa de Bandeira.

E quanto a Joaquim Cardozo?

O Cardozo é um grande desconhecido e, no entanto, é dos meus poetas prediletos e mais amados. Não é surpresa que ele seja tão esquecido. São poucos os leitores de poesia no Brasil. Depois, a promoção dos livros pelas editoras ainda está engatinhando. Terceiro, a bela prática da reedição é cada dia mais escassa. Ninguém se preocupa em reeditar Cardozo. Recebi da Bertrand Brasil a notícia de que acaba de sair a décima oitava edição de Faz Escuro, mas Eu Canto, um livro de 1965, e pediram-me uma nota a respeito. Comecei a escrever e assustei-me. Um livro que não é nem o melhor nem o pior que escrevi e chega a 18 edições, enquanto o Cardozo, que tem uma contribuição muitíssimo mais importante que a minha, que criou formas novas de versos, inventou ritmos, cadências, não é mais editado.

Você não está sendo pouco generoso consigo?

Não sofro de falsa modéstia, mas a verdade é que eu, ao contrário de Cardozo, não inventei nada. Pratico os ritmos tradicionais, as cadências comuns, nada mais do que isso. Não tenho importância alguma na história da literatura brasileira – eu importo, sim, para meus leitores, que gostam muito do que eu faço. Já a prática metafórica do Cardozo é tão densa que chegou a levá-lo à linguagem narrativa. O lirismo dele nunca é derramado, chega a ser quase ingênuo. Mas o Cardozo ficou famoso como arquiteto do Lúcio e do Oscar, não como poeta, para se ver como as coisas são injustas.

Joaquim Cardozo, como Murilo, também viam a poesia espalhada pelo mundo. Exatamente como você.

As histórias do Cardozo mostram isso. Nos anos 50, ele foi à Europa e quando voltou trouxe um baú com livros. Cardozo era um solitário, “muito puro e muito só”, como disse João Cabral num poema. Fui visitá-lo, encontrei-o diante do baú aberto, desembalando os livros. E aí ele me mostrou uma primeira edição do Baudelaire, um livro todo destruído. Eu disse: “Que pena”, mas ele me corrigiu: “Não, pena não, parece um labirinto.” Cardozo era um homem assim, ele via poesia em tudo.

Quando você publicou De uma Vez por Todas, declarou que era o seu último trabalho. Depois mudou de ideia. Por quê?

Não relutei quando vi que tinha escrito uma série de poemas que formavam um livro. Até mesmo essa longa parte do livro que é muito delicada e confidencial. Esse livro não tem metáforas, não tem comparações, a palavra direta já é a metáfora e isso me deu muito trabalho. Quando disse que não publicaria mais, eu não me despedia da poesia, mas do livro. Eu só não tinha mais intenção de publicar, achava que tinha dito tudo. Mas continuei a escrever e vi que ainda tinha coisas a dizer.

Escrever sobre a experiência pessoal não é arriscado?

Pode ser, mas eu tenho o direito de cometer minhas bobagens. Por que não? E tentei fazer coisas. Há mais de 30 anos queria escrever sobre a moça que veio lá do Sena e que nos meus 14 anos me deu a alegria do corpo dela. Eu não exagero se disser que, ao longo de 40 anos, tentei umas 30 vezes escrever esse poema [A Criação do Mundo] e não resultava em nada. De repente, lá no Amazonas, ele me nasceu. Os cinco primeiros versos me saíram e puxaram os outros. Li então para o Armando e ele me disse: “Continue.” Éramos o Armando, o Otto e eu, agora o Otto não está mais, mas não faço nada sem ler para o Armando.

Não é estranho que Thiago de Mello, o ateu, escreva sobre milagres?

Minha mãe, que morreu aos 98, queria muito que eu tivesse fé. Falava muito da salvação da minha alma e esse tema eu peguei para mim também. A vida eterna não me concerne, o programa já está todo armado. Tudo depende apenas da fé. Mas fiquei com o tema. O Machado diz na abertura do Dom Casmurro que ele acabou “unindo as duas pontas da vida”. Acho que nesse livro faço o mesmo, na medida em que volto à questão do ser, do estar do mundo e parto para escrever um poema sobre isso. Acabei achando que a vida é um campo de milagres e aí peguei o poema do Bandeira (”A vida é um milagre/ o tempo é um milagre/ a memória é um milagre…”) e coloquei na abertura.

Há uma visão um tanta antiga do amor num poema como As Prendas do Recato. Você fala da anágua, da combinação, do porta-seios.

Há uma coisa engraçada, é que eu gosto muito de olhar corpos bonitos, há um elemento mágico neles. Mas vejo que estão vendendo o quadril, o peito, a coxa como se fossem mercadorias e fiz então um poema sobre o recato que os anos não trazem mais, o tempo das anáguas, combinações, roupas que as mulheres já não usam. Como era bonito…

Há muitos versos dedicados a personagens da vida brasileira. Por exemplo, José Lins do Rego. Por que ele?

Escrevi dois versos sobre ele. Durante 11 anos convivemos diariamente: escrevíamos no Globo, íamos ao Maracanã, bebíamos juntos. E quando ele ficou doente, fiquei com ele por três meses no Hospital do Servidor do Estado. Guardei mais de 50 páginas escritas sobre esses três meses, que vou incluir no livro de memórias. Estou vivendo a tal crise dos neurônios fatigados, esqueço o que aconteceu anteontem. Aqueles neurônios da juventude pegavam a vida e a levavam para o banco de dados. Hoje vou bem devagar, deixando as lembranças caírem pelo caminho.

Por que dedicar um poema, O Nemésio, ao pintor Nemésio Antunez?

Nemésio seria o Portinari, o Volpi, o Di do Chile. Tem obras no Masp, no MAM. Ele, Neruda e eu vivíamos juntos. Era um homem alto, bonito, delicadíssimo. Gostávamos muito de cantar. Por incrível que pareça, fui diretor de um pequeno coral do qual faziam parte o Neruda e o Nemésio, entre outros. Nós cantávamos uma velha cantiga, El Marinero, à qual me refiro no poema.

Você também acaba de publicar um belo livro sobre a Amazônia, com reproduções de trabalhos das bordadeiras da região. A Amazônia também é um milagre?

Aqui em minha casa, na beira do rio, em plena floresta, vejo o vento chegar, balançando as palmeiras, e eu acho isso a maravilha da vida. Aí vêm os pássaros e aumentam o colorido da floresta. Vivo na floresta há 21 anos, desde que voltei do exílio. Aqui na floresta os caboclos leem no escuro, cheiram o ar, cheiram a água, encontram pistas em tudo. Há coisas que chegam a parecer história de mentiroso e então, às vezes, eu evito contar. A vida é um milagre. Eu estar vivo é um milagre. Estive no muro para ser fuzilado no Chile, tempos depois caí e por causa de um coágulo tive de abrir a cabeça. Sou safenado, mas não me lembro que tenho 73 anos. Tem gente de 25, 26 anos que já envelheceu, já perdeu a esperança, já desistiu. Eu não, eu creio ardentemente na utopia. Todo o avanço assombroso da ciência, da tecnologia, esse telescópio que já fotografou a luz dos primeiros estilhaços do big-bang, isso é um milagre e tudo isso vai reverter a favor do homem um dia.

Como é a vida em Barreirinha?

Até os 5 anos morei aqui em Barreirinha, uma pequena vila que fica a 24 horas de barco de Manaus. Hoje, para chegar em casa, pego um avião até Parintins e de lá um barco para uma viagem de mais cinco horas. O município tem 15 mil habitantes, mas a vila menos de 5 mil. Quando fiz 5 anos, fui para Manaus para estudar, mas até meus 5 anos eu vivia aqui, solto no meio da natureza. Tive ainda a grande sorte de ter um avô como Joaquim, homem bondoso que ficou cego por causa de uma catarata. Dos 8 aos 11 anos, até ele operar e voltar a ver, eu fui o seu guia. Esse homem me ensinou tudo sobre as nuvens e de onde vinha o vento. Ensinou-me a entender a floresta. A maravilha da floresta, o grande milagre, é que seu habitante, apesar da chegada da TV, continua a ser solidário. Lá, apesar da solidão, você nunca está sozinho. E na floresta eu aprendo muito mais com eles, do que eles comigo.