Entrevista  a revista Saga Cultural, da Livraria Siciliano, e publicada na edição de abril de 2010 ( ano II, n. 8).

por: Carla de Sousa

1 – Antes de ser escritor você é jornalista. Quando e como você descobriu o jornalismo?

Nelson Patriota ―Ser jornalista foi uma veleidade da minha infância que sobreviveu à minha adolescência e que finalmente se tornou real a partir de 1972, quando ingressei como “tradutor de telegramas” no Jornal A República. Os telegramas eram notícias enviadas via telex pela agência Associated Press em espanhol e em inglês. Com um algum conhecimento de inglês (meus irmãos mais velhos Waldemir e Ferdinando eram professores e tradutores de inglês) não tive dificuldade em conseguir o lugar vago em A República no contato que mantive com o editor Manoel Barbosa, um jornalista pernambucano que fora contratado pelos diretores Marcelo Fernandes e Marco Aurélio de Sá. Com acentuado gosto literário, Barbosa me ofereceu outras oportunidades no jornal, uma delas (a que fez a ponte entre jornalismo e literatura), uma página dominical que denominei apenas de “Cultura” cuja estréia foi no dia 06 de setembro de 1975. Aí lancei meu primeiro conto, “A Estrada”, escrito especialmente para a “Cultura”. Na sequência, publiquei regularmente contos e artigos meus e de outros escritores que pouco a pouco foram tomando conhecimento e interesse pela página literária dominical. Algumas dessas primeiras experiências literárias foram aproveitadas no meu livro Colóquio com um leitor kafkiano, lançado no ano passado.

2 – Quanto tempo você tem de carreira jornalística?
NP ―Desde meu ingresso em A República, sempre estive, de lá até aqui, exercendo alguma atividade jornalística, quer como repórter, colunista de jornal ou do site www.substantivoplural.com.br , crítico literário, resenhista de livros e revistas, editor de revistas e livros. Isso já faz 38 anos, mas nos últimos dez anos, venho dividindo essas atividades com a de escritor e tradutor de inglês, francês e, mais raramente, espanhol.

3 – Fale-me da época de faculdade de jornalismo, suas lembranças. Existiu aquele momento em que você descobriu a sua vocação na área, ou isso aconteceu já na prática?
NP ―Quando cursei jornalismo na UFRN eu já trabalhava regularmente em jornal e já havia concluído o curso de Ciências Sociais (UFRN). Fiz jornalismo para atender a uma exigência do Sindicato dos Jornalistas à época, mas reconheço que foi uma decisão acertada. Lá fiz amizades com colegas e professores e aprendi coisas úteis à profissão.

4 – Quando você descobriu o jornalismo cultural? Foi amor a primeira vista?
NP ―Descobri o jornalismo cultural no jornal A República – como disse acima –, quando fundei e dirigi a página dominical “Cultura”, embrião do futuro caderno cultural “Contexto” que dirigi em sua última fase, nos primeiros anos dos 1980. Desde então, venho trabalhando em alguma forma de jornalismo cultural: na segunda metade dos anos 1980, na Tribuna do Norte. Nos anos 1990, no Diário de Natal, na revista RN Econômico, no jornal Dois Pontos, no Jornal O Galo (1996 a 2001), no site www.substantivoplural.com.br e, nos últimos quatro anos, como editor da Revista do Conselho Estadual de Cultura, entidade à qual pertenço, e ainda colunista da revista Papangu.

5 – O que a carreira de jornalista representa na sua vida? Quais as principais realizações que essa carreira lhe proporcionou?
NP ―O jornalismo me ofereceu muitas oportunidades de trabalho, de viagens para congressos, bienais, encontros literários etc. seja no campo cultural, seja em outros campos, embora quase todo o tempo em tenha trabalhado com jornalismo cultural. Aí travei contato com artistas, intelectuais, poetas, escritores os mais diversos, especialmente durante os seis anos em que editei o jornal O Galo, no qual fiz inúmeras entrevistas com escritores e poetas de todo o Brasil, como Ivo Barroso, Jaci Bezerra Lima, Edson Nery da Fonseca, Jorge Tufic, Renard Perez,Idelette Muzart, Ascendino Leite,Paulo Bezerra,  Bruno Tolentino, Jomard Muniz de Brito, Ronaldo Correia de Brito, Alberto da Cunha Melo, Gilberto Mendonça Teles, Francisco Carvalho, Hildeberto Barbosa Filho, Francisco Dantas, Maria Lúcia dal Farra, João de Jesus Paz Loureiro, Marcus Accioly, Marco Lucchesi, Alexei Bueno, e mais: Franco Jasiello, Marcos Silva, Dorian Gray Caldas, Nilson Patriota, Nei Leandro de Castro, Sanderson Negreiros, Tarcísio Gurgel, Bartolomeu Correia de Melo, Dailor Varela, Celso da Silveira e outros e outros mais. Enfim, jornalismo e literatura estão de tal modo entrelaçados em minha vida profissional que não consigo separá-los.

6 – O Que você acha do jornalismo cultural potiguar? Como você relaciona com o jornalismo cultural desenvolvido no resto do Brasil?
NP ―O jornalismo cultural potiguar tem uma história de muitas lutas e muitas conquistas. Revistas como A Cigarra, O Bando, Milho Verde; suplementos literários como Contexto (A República) e o jornal O Galo são pontos de referência desse gênero. A circulação há cerca de três anos da revista cultural Papangu (da qual sou colunista), o surgimento de uma revista como a Palumbo, de um novo jornal diário, a manutenção de espaços culturais na Tribuna do Norte e em outros jornais revelam que esse tipo de jornalismo está vivo e em transformação. O mesmo se passa com a grande imprensa nacional, que está sempre tentando coisas novas, notadamente no Estadão e na Folha de S. Paulo. Revistas como Cult, Bravo, Piauí mantêm viva a discussão cultural. Mas experiências regionais, como a revista Continente, do Recife, e o suplemento Correio das Artes, do jornal A União, na Paraíba, demonstram que cultura e arte são questões que continuam vibrantes e inspiradoras.

7 – Em que momento surgiu o Nelson escritor?
NP ―Minhas primeiras experiências como ficcionista datam de 1975, quando criei a página “Cultura” encartada na edição dominical de A República. Então, o jornalista e o escritor são contemporâneos.

8 – Quantos anos de carreira como escritor?
NP ―Quase o tanto de anos no jornalismo: 35 anos.
9 – Qual o papel da literatura em sua vida?
NP ―a literatura é um dos suportes da minha vida, e, ao mesmo tempo, um objetivo a perseguir com a minha própria obra literária em progresso.

10 – O que te realiza mais, a carreira de jornalista ou de escritor? Ou ambas se completam?
NP ―Creio que ambas, pois é difícil, senão impossível, separá-las.

11 – Que livros da sua carreira você destaca e por quê? Existe (em) aquele (s) com um significado especial? Por quê?
NP ―Destaco dois: a Antologia Poética de tradutores Norte-rio-grandenses, que lancei em 2008 pela Editora da UFRN, pelo desafio que representou para mim reunir uma tradição de tradutores de poesia do meu Estado, e onde fiz uma descoberta inteiramente casual (e não menos intrigante, pois continua não resolvida) acerca de uma tradução de um poema de Walt Whitman feita por Câmara Cascudo, e que narro com detalhes na introdução que escrevi para a Antologia, porque se trata de uma questão até então ignorada pelos estudos cascudianos. Destaco ainda meu Colóquio com um leitor kafkiano, por reunir diferentes momentos e motivos literários meus. Menos pessoais, minhas biografias A Estrela Conta e No Outono da Memória são obras que contribuem para as histórias de vida norte-rio-grandenses. Destaco ainda meu trabalho em livros como 400 nomes de Natal e Vozes do Nordeste (com o escritor Pedro Vicente Costa Sobrinho), e as edições críticas que organizei do livro Corpo de Pedra, de Bosco Lopes, 113 traições bem-intencionadas, de Luís Carlos Guimarães, e da obra reunida de meu pai, o poeta Luís Patriota. Finalmente, meu trabalho de jornalista cultural/escritor jornalista na edição da Revista do Conselho Estadual de Cultura, cujo quarto número está prestes a sair.

12 – Após uma carreira consagrada na literatura, o processo de escrita até o lançamento de um livro ainda te proporciona surpresas? Fale desse momento.
NP ―A escrita de um livro é sempre um processo de descobertas, insights, surpresas. A gente nunca está totalmente senhor do texto, pois na medida em que o escrevemos, novas sugestões e descobertas vão ocorrendo, às vezes mudando completamente o projeto original. E às vezes isso ocorre para melhor. Escrever, nesse aspecto, é uma oportunidade privilegiada de dialogar com o nosso inconsciente. Sobre surpresas em lançamentos, confesso que fiquei particularmente feliz com o público que compareceu ao lançamento do meu No Outono da Memória, mas quero crer que isso se deveu especialmente ao carisma do biografado, o jornalista Ubirajara Macedo.

13 – Aliás, quais as grandes realizações da sua vida proporcionadas pela carreira de escritor?
NP ―Cito especialmente o meu Colóquio com um leitor kafkiano e a minha Antologia poética de tradutores norte-rio-grandenses, bem como os diálogos que travei com grandes nomes da literatura brasileira, citados acima, durante as entrevistas para o jornal O Galo e outros jornais, estão entre os pontos culminantes da minha carreira como jornalista e escritor. Afinal, o tema invariavelmente girava em torno do fazer literário. Numa outra vertente, tenho realizado trabalhos de tradução e revisão de textos literários e técnicos para a Editora da UFRN e outras instituições. Para a Edufrn traduzi, entre outros, o livro Como melhorar a escravidão, um pequeno livro do viajante inglês Henry Koster que compara o sistema escravocrata brasileiro com o britânico, e Literatura de Cordel no Nordeste do Brasil, da professora Julie Cavignac, sobre o cordel brasileiro. Mas é claro que a publicação de meus próprios livros me abre uma vereda mais pessoal, portanto, mais estimulante intelectualmente. No campo jornalístico, destaco a edição comemorativo dos 60 anos do jornal Tribuna do Norte, que saiu em 24 de março passado, como um dos trabalhos jornalísticas mais gratificantes da minha carreira.

14 – Qual sua visão da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras?
NP ―Creio que a ANL cumpre um papel atualmente abaixo de suas possibilidades reais, haja vista que dialoga pouco com a comunidade, o que a isola numa posição desconfortável, quando comparada com o muito que poderia fazer nesse e em outros setores da vida cultural. Não obstante, é uma instituição importante para a vida cultural norte-rio-grandense pelo potencial de que dispõe.

15 – Como é o seu processo de criação? Sua vida passa por muitas mudanças quando está em pleno processo de criação de uma obra?
NP ―a rotina do trabalho jornalístico nas redações dos jornais me ensinou a disciplinar o trabalho intelectual. Procuro organizar minhas atividades de modo que uma não atrapalhe a outra, fazendo sempre uma coisa de cada vez.

16 – Além do dom da escrita, que características você acha que um bom escritor deve ter e cultivar?
NP ―Informação literária, conhecimento do seu tempo, engajamento com o mundo real. Estas são condições fundamentais para se escrever.

17 – O que você acha que te trouxe até aqui – um dos mais referenciados autores da literatura potiguar?
NP ―Não estou seguro de ser tanto… Mas devo declarar a meu favor que tenho trabalhado com disciplina na área da cultura há mais três décadas. É normal que se colham alguns frutos depois de tanto tempo.

18 – O que você acha da nova safra de escritores que vem surgindo? Você vê muitas diferenças para os escritores que surgiam no início da sua carreira? A forma de fazer literatura mudou? Fale-me sobre isso.
NP ―É difícil se falar dos contemporâneos porque corremos o risco de sermos precipitados nos julgamentos e, portanto, injustos. Mas creio que os novos nomes das nossas letras, seja na poesia, seja na prosa, deparam com os mesmos problemas: como dar conta de tantas leituras essenciais? Os melhores são justamente aqueles que não temem esse desafio e que, portanto, dialogam com a tradução sem perder de vista as especificidades de sua própria época.

19 – Em qual carreira o Nelson Patriota é melhor, como escritor ou como jornalista? Por quê?
NP ―Prefiro evitar polêmicas a esse respeito. Uma coisa é necessária à outra, ou seja, jornalismo e literatura formam um traçado único e reto na minha carreira de modo que o presumível bem que nela existe se deve à mescla entre o fazer jornalístico e o fazer literário.

20 – O que você acha dos e-books e do surgimento de inúmeros e-readers no mercado?
NP ―É uma decorrência da evolução da técnica, um fato consumado, então não vale a pena brigar com eles. Além do mais, oferecem alternativas de leitura, o que é sempre positivo. Acho, apenas, que isso porá fim ao livro em papel, até por uma necessidade estética. Há coisas que encontram sua forma ideal de expressão no formato do livro tradicional, sem falar que ler nesse formato é incomparavelmente mais confortável para a visão e para o tato, não fazendo sentido, portanto, que se troque uma forma melhor de leitura por outra inferior.

21 – Você acredita no fim do livro de papel, ou acha que, assim como o que aconteceu com a imprensa escrita com o surgimento da TV, que se adaptou a nova mídia, o e-book é mais uma mídia que provocará adaptações na literatura tradicional?
NP ―como já respondi, em parte, a este pergunta na questão anterior, acrescento somente que os avanços da técnica se dão em muitos níveis. O aparecimento de uma nova mídia como o e-book não interrompe o processo de evolução do livro em papel, cada dia mais cativante. Não há por que os dois não conviverem.

22 – Você pretende se adaptar a essa nova mídia? Podemos esperar e-books do Nelson Patriota?
NP ―Claro que sim. Por sinal, meu livro A Estrela Conta está disponível no site substantivoplural.com.br. É, portanto, um e-book.
23 – O leitor virtual proporciona o mesmo prazer do leitor tradicional?
NP ―Prefiro ler ficção, entre outros textos longos, no papel, mas leio jornais e revistas na internet habitualmente.

24 – Atualmente você é colunista do blog cultural substantivoplural.com.br e também edita revistas. Você transita entre as novas tendências da imprensa e o que já é consagrado na forma como se faz jornalismo. Você acredita que é papel do profissional de comunicação se adaptar às novas mídias? Você acha que ele será engolido caso não se adapte? Existirá espaço para quem permanecer exclusivamente atado aos modelos mais antigos?
NP ―Como todos esses temas que você cita estão acontecendo simultaneamente, é difícil prever como será o amanhã para o jornalismo. Mas creio que sempre haverá espaço para os bons profissionais da notícia e da opinião e estes, a propósito, são justamente os que procuram se manter atualizados com o que ocorre de novo em sua profissão.
25 – Algum novo projeto em vista?
NP – Estou com um novo livro pronto. Seu título é Artigos e crônicas de Edgar Barbosa, editado pela Editora da UFRN e selecionado, organizado, anotado e apresentado por mim. Seu lançamento ainda está em estudo, mas deverá acontecer este semestre em algum evento comemorativo do centenário de nascimento de Edgar Barbosa, mesmo que um pouco atrasado, haja vista que a efeméride aconteceu no ano passado. O livro reúne um total de 50 crônicas do escritor ceará-mirinense, inéditas em livro, enfocando diversos assuntos da vida norte-rio-grandense. É preciso salientar que Edgar Barbosa é uma das grandes referências na nossa crônica. Estou organizando um novo livro, reunindo alguns dos artigos que venho publicando nos últimos três anos no jornal Tribuna do Norte e no site substantivoplural.com.br. Todos os textos devem tratar de autores e livros norte-rio-grandenses.