Texto: Carlos Marcelo
In: Correio Braziliense. Data: 07.05.2010

O senhor acaba de publicar Poesia completa. Para um menino que acabou de descobrir a poesia, o senhor sugeriria algum itinerário para essa edição?

Em Menino do mato, eu fui abençoado pelas insignificâncias. Só brincava com os sapos, as formigas, as lagartixas e com outros bichinhos do chão. O abandono me cuidava. Minha palavra ficou pregada nas insignificâncias. Dou mais valor a um passarinho do que a uma bomba atômica.

O que mudou, ao longo do tempo, na lida com as palavras?

Um dia um caracol se pregou nas minhas palavras. Ele produzia o som das origens. Ali minha indigência verbal se enriquecia e os absurdos do caracol se tornavam quase divinos.

Quando o senhor foi mais criança? Reconhece a sua infância nos seus netos e bisnetos ou tudo está muito diferente?

Acho que as percepções da natureza infantil, que são as nossas verdades fundamentais, são diferentes das percepções observadas nas cidades. Nas percepções citadinas entra pouca natureza.

Onde se esconde a infância da palavra? Como encontrá-la?Acho que um certo descomportamento vindo da ignorância infantil pode mudar a feição da natureza. A visão infantil distorce a natureza. Assim: Eu vi a tarde correndo atrás de um cachorro. Não aspiro nada mais poético que uma visão infantil. Assim: Eu vi um arrebol no olho de um passarinho.

Fazer poesia é destampar a solidão?

Não faz bem destampar a solidão porque sem ela a gente fica mais incompleto. A solidão serve até para complementar o amor.

Em uma realidade congestionada de imagens e palavras, como recuperar os outros sentidos?

A imagem não destrói os sentidos – até multiplica-os.

O que o senhor ainda gostaria de ver nesse mundo?

Gostaria de ver funcionar esta frase de Cristo: amar os outros como a nós mesmos.

Além de Guimarães Rosa, que outros escritores brasileiros foram capazes de capturar “o gorjeio das palavras”?

Antes os poetas. Eles gorjeiam mais nas palavras do que os prosadores. Por exemplo: Bandeira, Drummond, Cecília – para falar dos mortos. Adélia Prado, Ferreira Gullar – entre os vivos.

Do que o senhor sente mais saudades? E do que mais gosta em seu atual cotidiano?

Tenho saudades de tudo que não posso mais fazer.

Manoel de Barros – Perfil biobibliográfico

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Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá, 19 de dezembro de 1916) é um poeta brasileiro. Nascido à beira do rio Cuiabá, mudou quando criança para Campo Grande e, mais tarde, para o Rio de Janeiro, a fim de completar os estudos. Formou-se bacharel em direito em 1941, tendo antes, em 1937, publicado seu primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado. Na década de 1960 voltou para Campo Grande, onde passou a trabalhar como criador de gado.
Desde a década de 1930 foram vários livros publicados. Sua poesia tem como temática o pantanal, representado através de sua natureza e do cotidiano adquirido pelas experiências pantaneiras e leituras de filósofos e artistas plásticos. Recebeu vários prêmios, entre eles dois Prêmios Jabutis e um Prêmio APCA de melhor poesia.

Obras
• 1937 — Poemas concebidos sem pecado
• 1942 — Face imóvel
• 1956 — Poesias
• 1960 — Compêndio para uso dos pássaros
• 1966 — Gramática expositiva do chão
• 1974 — Matéria de poesia
• 1980 — Arranjos para assobio
• 1985 — Livro de pré-coisas
• 1989 — O guardador das águas
• 1990 — Gramática expositiva do chão: Poesia quase toda
• 1993 — Concerto a céu aberto para solos de aves
• 1993 — O livro das ignorãças
• 1996 — Livro sobre nada
• 1996 — Das Buch der Unwissenheiten – Edição da revista alemã Alkzent
• 1998 — Retrato do artista quando coisa
• 2000 — Ensaios fotográficos
• 2000 — Exercícios de ser criança
• 2000 — Encantador de palavras – Edição portuguesa
• 2001 — O fazedor de amanhecer
• 2001 — Tratado geral das grandezas do ínfimo
• 2001 — Águas
• 2003 — Para encontrar o azul eu uso pássaros
• 2003 — Cantigas para um passarinho à toa
• 2003 — Les paroles sans limite – Edição francesa
• 2003 — Todo lo que no invento es falso – Antologia na Espanha
• 2004 — Poemas Rupestres
• 2005 — Riba del dessemblat. Antologia poètica — Edição catalã (2005, Lleonard Muntaner, Editor)
• 2005 — Memórias inventadas I
• 2006 — Memórias inventadas II
• 2007 — Memórias inventadas III
• 2010 — Menino do Mato
• 2010 — Poesias Completas
Prêmios
• 1960 — Prêmio Orlando Dantas – Diário de Notícias, com o livro Compêndio para uso dos pássaros;
• 1966 — Prêmio Nacional de poesias, com o livro Gramática expositiva do chão;
• 1969 – Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal, com o livro Gramática expositiva do chão.
• 1989 — Prêmio Jabuti de Literatura, na categoria Poesia, como o livro O guardador de águas;
• 1990 — Prêmio Jacaré de Prata da Secretaria de Cultura de Mato Grosso do Sul como melhor escritor do ano;
• 1996 — Prêmio Alfonso Guimarães da Biblioteca Nacional, com o livro Livro das ignorãnças;
• 1997 — Prêmio Nestlé de Poesia, com o livro Livro sobre nada;
• 1998 — Prêmio Nacional de Literatura do Ministério da Cultura, pelo conjunto da obra;
• 2000 — Prêmio Odilo Costa Filho – Fundação do Livro Infanto Juvenil, com o livro Exercício de ser criança;
• 2000 — Prêmio Academia Brasileira de Letras, com o livro Exercício de ser criança;
• 2002 — Prêmio Jabuti de Literatura, na categoria livro de ficção, com O fazedor de amanhecer;
• 2005 — Prêmio APCA 2004 de melhor poesia, com o livro Poemas rupestres;
• 2006 — Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira, com o livro Poemas rupestres;[1]