O desafio da continuidade
Por Débora Massud

Em entrevista, o poeta, escritor e editor-assistente da Coleção Mossoroense, Caio Muniz, fala sobre os desafios de dar continuidade ao legado deixado por Vingt-un Rosado Maia, considerado por ele um obstinado pelas coisas da cultura e da educação.

Como se dá o processo de publicação de uma obra pela “Coleção Mossoroense”?
Caio Muniz
– Pretendemos trabalhar da mesma forma que Vingt-un. Publicando o que aparecer pela frente, priorizando as temáticas sertanejas, mas publicando de tudo. Afinal, se ele trabalhou 56 anos desta forma e deu certo, porque mudaríamos? Se tivermos recursos para ajudar os autores, faremos isto com o maior prazer, se não, veremos como orientá-los e conduzí-los para que tenham suas obras editadas da melhor forma.

Geralmente qual a tiragem dos títulos publicados?
CM
– Na maioria das vezes 300 exemplares, no máximo 500. Para a nossa região é uma tiragem muito boa. Como não temos um sistema de distribuição, é complicado fazer uma tiragem maior.

Então como funciona a comercialização desses exemplares?
CM
– A Fundação Vingt-un Rosado é uma instituição sem fins lucrativos. Em alguns momentos, vendemos as obras apenas para cobrir os custos de produção. Mas na maioria das vezes doamos os livros. No ano passado (2009), quando a Coleção completou 60 anos, doamos mais de 12 mil exemplares para instituições diversas.

Em sua opinião, qual a contribuição da Coleção para o incremento da literatura e cultura do Estado?
CM
– Apesar de toda a crítica, não se pode negar a importância de uma editora que, no interior de um Estado do Nordeste, já produziu mais de quatro mil obras e lançou mais de dois mil autores.
A Coleção continua crescendo? Quais os últimos lançamentos?

CM –
Sim, continua. No último ano, graças a outro projeto, desenvolvido em parceira com a Petrobras, o Rota Batida, foi possível publicarmos 21 livros, destes, 10 frutos de um concurso literário que abrangeu todo o Estado. Além destes, também reeditamos algumas obras que estavam esgotadas em nosso acervo, como: “A Marcha de Lampião”, de Raul Fernandes e “Jesuíno Brilhante”, de Raimundo Nonato, dois clássicos do cangaço; “História de Mossoró”, de Francisco Fausto de Souza e “Notas e Documentos Para a História de Mossoró”, de Câmara Cascudo, e outras de grande importância para a região.  

E o parque gráfico da editora, já voltou a funcionar?
CM –
Depois da partida de Vingt-un ainda não colocamos o nosso parque gráfico em funcionamento. As obras que publicamos foram terceirizadas com gráficas comerciais ou custeadas pelos próprios autores.

Qual é a real situação da “Coleção Mossoroense”, em termos de catalogação do acervo e infraestrutura para abrigar os títulos? Onde se localiza sua sede?
CM
– A Fundação funcionava na residência de Vingt-un. Depois da sua partida, tivemos a necessidade de procurar o nosso próprio espaço devido à  dimensão da “Coleção Mossoroense”. Seu acervo é composto por mais de 100 mil exemplares, sem contar com a gráfica, a estrutura montada para o desenvolvimento do Acervo Virtual Oswaldo Lamartine e a própria administração. Hoje, estamos numa sede alugada que abriga toda esta estrutura. Um grupo de professores e alunos do curso de história da UERN, voluntariamente está ajudando na organização e catalogação do acervo da editora. Ainda não estamos atendendo aos que nos procuram de uma forma  plenamente satisfatória, mas acreditamos que não demorará para que isto aconteça.

Como essa consulta pode ser feita? Os interessados podem ir até a sede e consultar esses títulos?
CM –
Sim, a sede está aberta à comunidade. O ideal é que o pesquisador/estudante, já leve por escrito o que seja do seu interesse com dados específicos (autor, série, numeração) ou que consulte no nosso catálogo, disponível no site www.colecaomossoroense.org.br. Aqui, o título será localizado e ele poderá fazer sua consulta em casa ou na própria sede, se preferir.

Além dos títulos da Coleção, vocês também contam com o acervo particular que pertencia a Vingt-un?
CM -
Sim, Vingt-un possuía um acervo muito rico (com mais de 3.000 titulos), obras raras, e estão todas à disposição de quem queira consultar. O mesmo grupo de professores e alunos do curso de História da UERN que está catalogando o acervo da “Coleção Mossoroense” fez, no ano passado, a catalogação da biblioteca particular de Vingt-un.

Quais são as maiores dificuldades enfrentadas pela Fundação? O que poderia ser feito para ajudar a preservar e dar continuidade a esse trabalho?
CM –
As dificuldades são sempre financeiras, principalmente para manter a estrutura mínima de funcionamento (aluguel, funcionários, reativar a gráfica) enfim, custeio. Se tivéssemos recursos para manter esta estrutura, o resto se conseguiria conduzir com mais tranquilidade. Estas parcerias com Petrobras e BNB têm sido fundamentais para o projeto editorial da Coleção e a prefeitura de Mossoró dá um amparo para esta parte estrutural e, apesar dos atrasos, é o que nos mantém vivos.

E quanto ao projeto de criação do Memorial Vingt-un Rosado. Como está o andamento do projeto?
CM –
O Memorial é um sonho distante. Não o vejo concluído nem em médio prazo. Mas seria o ideal para abrigar todo este universo que é a Coleção Mossoroense. Uma sede própria onde todo o ideal de Vingt-un se encontraria a disposição de quem se interessasse pela história e pela cultura do nordeste brasileiro.

Em sua opinião, qual o grande legado deixado por Vingt-un Rosado Maia?
CM –
Vingt-un foi um obstinado pelas coisas da cultura e da educação. A criação da ESAM, hoje Ufersa, das bibliotecas, museus, por iniciativa e teimosia dele, a Coleção Mossoroense, todas estas obras marcam sua trajetória de luta. Seu maior legado certamente foi o trabalho incansável por estes ideais.

Quais os projetos em andamento da “Coleção Mossoroense” e as suas expectativas enquanto gestor desse imenso acervo?
CM –
Estamos finalizando os dois maiores projetos que a Coleção mantém atualmente: o Rota Batida, em sua terceira edição, e o Acervo Virtual Oswaldo Lamartine de Faria, em sua segunda fase. Esperamos que estes projetos tenham continuidade, pela sua importância e mesmo pela necessidade do Estado de projetos desta natureza. Esperamos que outras instituições sérias, a exemplo de Petrobras e BNB, voltem as suas atenções para as coisas da inteligência e apóiem iniciativas de cunho cultural no Rio Grande do Norte.

foto: Luciano Lellys